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23/09/2021 | domtotal.com

Filme guatemalteco de horror traz conotações políticas e referências às tradições indígenas

'A chorona', de Jayro Bustamante, narra a história de general acusado de crimes

A atriz Maria Mercedes Coroy vive uma jovem indígena em 'A Chorona'
A atriz Maria Mercedes Coroy vive uma jovem indígena em 'A Chorona' (Elite Filmes/Divulgação)

Jayro Bustamante tem duas produtoras - La Casa de Produción, na Guatemala, e a Les Films du Volcan, que representa a primeira na França para produzir exclusivamente conteúdos para cinema. A pandemia trouxe um duro desafio para ele. "Na Guatemala só uma elite fala o espanhol. Em todo o país se falam 24 dialetos de povos originários. Conseguimos produzir material para cada um deles, explicando os protocolos para se enfrentar a Covid. Foi uma atividade social de que me orgulho muito."

A conversa é por Zoom. O motivo, o novo longa de Bustamante, que estreia nesta quinta-feira (23). La llorona, no Brasil, A chorona. Já houve uma produção norte-americana com o mesmo título. Bustamante tratou de fazer a sua versão diferente. O cinéfilo sabe - o diretor/autor surgiu para o mundo na Berlinale graças ao sucesso de Ixcanul na competição berlinense. Depois ele fez Temblores, e a boa notícia é que esse também vai estrear - no streaming, em outubro, pela Cinema Virtual.

Ixcanul nutre-se da mitologia mesoamericana, definição que Bustamante prefere a centro-americana, ou a reminiscências maias, astecas e até incas definidoras da identidade nacional. Temblores situa-se na elite, a classe dominante. Retrata a situação de um homem religioso, casado e pai de filhos, que assume sua homossexualidade. A chorona, de certa forma, mistura as duas linhas narrativas.

Um general acusado de violações de direitos humanos é destituído e vai a julgamento. A família e ele são sitiados em casa por manifestantes que portam cartazes cobrando por seus mortos, e desaparecidos. Surge essa garota indígena para trabalhar na casa. É vivida pela atriz de Ixcanul, Maria Mercedes Coroy.

"A deusa que chora - pelos mortos, pela terra devastada - é uma das entidades mais fortes da cultura mesoamericana. Fazer cinema na Guatemala ainda é muito complicado. O investimento é reduzido. Na empresa, fizemos pesquisas para tentar identificar o gosto do público. Cerca de 95% dos guatemaltecos que vão ao cinema gostam de horror, 98% só veem blockbusters. Como esses últimos estão além de nossas possibilidades, resolvemos investir no cinema de gênero."

Mais do que o choro, a água é protagonista do filme. A água do rio em que o general comete suas violações de direitos, a água da piscina da casa. "A história é carregada de significados, de intenções metafóricas. Horror com intenções políticas", ele define. Em A chorona, Bustamante acha que conseguiu equilibrar sua tendência autoral com um apelo mais popular.

"O filme foi apresentado nas Giornate degli Autori de Veneza de 2019. Estreou na Guatemala e logo em seguida veio a pandemia, que fechou os cinemas. Quando reabriram, A chorona voltou ao cartaz."


Agência Estado/Dom Total



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