Religião

23/09/2021 | domtotal.com

Os Exercícios Espirituais, um modo privilegiado para conversar espiritualmente


Apesar de serem vividos em uma atmosfera de isolamento e de silêncio, os Exercícios Espirituais de Santo Inácio proporcionam ao exercitante o que pode ser experimentado como uma rica, verdadeira e própria conversação espiritual.

Inácio, colocando o exercitante para contemplar os mistérios da vida de Jesus, faz penetrar nesses diálogos e também ele se põe a dialogar com o Senhor nos colóquios. O exercitante é envolvido no Mistério e pelo Mistério que ele contempla.
Inácio, colocando o exercitante para contemplar os mistérios da vida de Jesus, faz penetrar nesses diálogos e também ele se põe a dialogar com o Senhor nos colóquios. O exercitante é envolvido no Mistério e pelo Mistério que ele contempla. (Unsplash/Cassidy Dickens)

Alfredo Sampaio Costa SJ*

Quem já teve oportunidade de fazer os Exercícios Espirituais em alguma de suas modalidades experimentou certamente o que é uma rica e verdadeira e própria conversação espiritual.

À primeira vista, para muitos, essa afirmação pode soar paradoxal, uma vez que os Exercícios Espirituais se vivem em uma atmosfera de isolamento e de silêncio que pareceria não favorecer em nada uma conversa. Ora, o que Inácio estabelece na vigésima anotação dos Exercícios sobre a necessidade de se afastar dos outros deve ser entendida a partir da finalidade desse afastamento, isto é, para servir e louvar o Senhor, para poder se aproximar do seu Senhor para receber suas graças e dons . E isso se faz conversando, cheio de gratidão!

Inácio fez na sua vida uma experiência da irrupção de Deus na sua vida que transformou a sua existência. Por isso ele insistirá que o mais importante e central para a experiência dos Exercícios é que "Deus quer e pode tratar diretamente com a sua criatura; que o ser humano pode experimentar como tal coisa acontece; que ele pode captar o soberano desígnio da liberdade de Deus sobre a sua existência; e isso não como algo que se possa calcular mediante um oportuno e estruturado raciocínio, como uma exigência da racionalidade humana"1.

Na conversação, a iniciativa cabe sempre a Deus: Deus quer se comunicar porque é Amor e o amor quer se comunicar sempre, como Inácio afirma na Contemplação para alcançar o Amor. Nos Exercícios, trata-se sempre de favorecer as condições para uma verdadeira e própria conversação espiritual, para esse diálogo transformante entre Criador e criatura:

"Naturalmente que não se trata de uma tentativa de forçar as comunicações divinas, mas sim de colocar o exercitante em alerta numa certa direção e de prepará-lo e torna-lo disponível à graça. Não obstante tudo isso, os métodos dos Exercícios são flexíveis, porque não são mecânicos, mas humanos e vitais. Vão se adaptando e simplificando-se conforme o processo avança e à medida que a atividade do exercitante vai se dobrando diante da operação divina"2.

Nos Exercícios se dialoga sempre debaixo do pressuposto explícito de que o exercitante e aquele que dá os Exercícios têm ambos como horizonte final a Deus, Nosso Criador e Senhor:

"Os Exercícios são na sua dimensão mais profunda uma dinâmica, um movimento vital profundo do homem que realiza uma peregrinação ininterrupta de Deus a si e de si a Deus. A cada volta ele recarregado com energias sempre mais fortes e ao mesmo tempo pronto para aberturas cada vez mais largas. Começa a sair do seu modo de ver as coisas, da sua maneira de pensar para se colocar na órbita da mente divina"3.

Tomar a sério como ponto focal dos Exercícios a comunicação direta de Deus é o que faz com que o guia dos Exercícios não se detenha naquilo que escuta e observa diretamente no exercitante, mas sim que esteja sempre aberto ao interior mais profundo de tal experiência. Portanto, os Exercícios se encontram desde o início no âmbito do homem-Deus que se doa livremente e no âmbito da livre magnanimidade do discípulo, que doa a sua liberdade sem reservas. Vivemos a experiência do dom ilimitado de nós mesmos como expressão da liberdade sem limites. No vínculo mais total, sopra a mais total liberdade4.

Os Exercícios se apresentam como um caminho a ser percorrido e eles remetem ao fato da participação ativa da pessoa nesse itinerário5. Antes de mais nada trata-se de um caminho de oração. A oração é o primeiro esforço pedido ao homem, por meio do qual ele se deixa amar e se abrir a Deus. Ele aprende a permanecer na presença do Senhor para expor a Ele a sua vida. Sob a condução do Espírito, o homem é espontaneamente introduzido na oração sob as mais diversas formas, sem que elas possam ser reduzidas a uma maneira única de praticá-los. Os Exercícios não impõem nunca um método rígido ou uma maneira impessoal de vive-los.

Sob o efeito da graça e conforme as etapas em andamento, a oração mudará de forma, assumindo modalidades sempre mais simples e despojadas:

  • Examinar a consciência consiste antes de mais nada em dar graças pelos dons recebidos. É o reconhecimento desses dons que leva a pessoa a arrepender-se na transparência dos seus pensamentos, palavras e agir à luz de Deus.
  • Meditar é um caminho igualmente ativo que põe em movimento todas as capacidades humanas de compreensão e de querer.
  • Contemplar é um modo de rezar mais passivo, que consiste mais em receber, em um acolhimento atravessado pela maravilha, em um conhecimento interior e saboreado do Evangelho.

Se olhamos um pouco como se desenvolve o exercício da oração nos Exercícios, podemos logo observar que existe sempre uma estrutura dialogante6:

– O primeiro ato da oração é um exercício de pôr-se na presença de Deus, de reconhecer e tomar consciência diante Daquele a quem queremos rezar7.

– Em todo exercício de oração há uma graça a ser alcançada: estas petições iniciais fixam o objeto do exercício e o propõem como o resultado de uma graça. O próprio fato de pedir a graça-receber a graça já estabelece a oração como um diálogo em processo.

– As meditações da Primeira Semana: alguém poderia argumentar que essas meditações não respeitam essa estrutura dialogal, porque parecem muito mais um ato de introspecção e de reflexão sobre um determinado tema. Ora, é preciso notar que nos Exercícios até mesmo as meditações acontecem dentro do marco do diálogo: querem levar o exercitante a se confrontar com a história da humanidade e com o projeto de Deus. O fruto buscado nessas meditações é descobrir a própria miséria exatamente quando (em uma relação dialógica) ela é confrontada com a infinita misericórdia divina.

– A assim chamada "Meditação do Apelo do Rei" (EE 91-98) apresenta desde o início uma estrutura dialógica: trata-se de um "apelo" que pede uma "resposta". Pede-se a graça de não ser surdo ao chamado, mas prontos e diligentes para responder. A meditação propõe Cristo que fala aos seus discípulos, e os chama a estar com Ele. E Inácio insistirá sobre a qualidade da resposta que o exercitante deverá dar: deverá ser não uma resposta simples, mas uma total oblação de si.

– As Contemplações: por excelência elas têm um caráter relacional, porque pretendem colocar o exercitante em um contato direto e íntimo com o evento divino. Colocam o exercitante em relação com as pessoas que intervêm em cada mistério, principalmente com o próprio Verbo encarnado. A contemplação inaciana é um modo de se deixar interpelar pela Palavra pronunciada nas vicissitudes temporais da humanidade de Jesus Cristo.

– A Conversação espiritual no ministério de Jesus: chama a atenção que poucas palavras de Jesus chegaram até nós "proclamadas". De fato, nos evangelhos uma grande maioria das palavras de Jesus nos foram relatadas em um contexto de "conversação espiritual"8. Ele dedicou grande parte do seu tempo tratando individualmente com indivíduos e pequenos grupos. Isso aparece de modo evidente sobretudo no evangelho de João, chamado o "evangelho dos encontros pessoais" de Jesus com André, Pedro, Nicodemos, a samaritana, o cego de nascimento etc. Inácio, colocando o exercitante para contemplar os mistérios da vida de Jesus, faz penetrar nesses diálogos e também ele se põe a dialogar com o Senhor nos colóquios. O exercitante é envolvido no Mistério e pelo Mistério que ele contempla.

Como você vive na sua oração essa experiência dialogante?

Qual modo de rezar lhe é mais fácil e qual requer mais empenho?

Notas

  1. Karl RAHNER, Palabras de San Ignacio a un Jesuita de Hoy, Sal Terrae, Santander 1979, 4.
  2. Jesús GRANERO, La meditación ignaciana, Manresa 41 (1969) 256.
  3. Ignacio IPARRAGUIRRE, "Gli Esercizi ignaziani, chiave e anima della missione del gesuita", in Servire nella Chiesa, Stella Mattutina, Roma 1973, 40.
  4. E. PRZYWARA, Deus semper maior, I, Freiburg 1938, 27-28.
  5. Monique VERHEECKE, Dieu et l’homme. Dialogue et combat, 11-12.
  6. Cf. Germán ARANA, El diálogo con Dios en los Ejercicios Espirituales, Manresa 68 (1996) 352-353.
  7. Cf. EE 75.
  8. Cf. Thomas CLANCY, The Conversational Word of God, 5.

*Alfrdo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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