Religião

24/09/2021 | domtotal.com

Imagem do Rei Davi roubada há quase 50 anos é recuperada em Duque de Caxias

Escultura é datada do século 18 e possui características do barroco joanino. Imagen do Rei Davi e de Betsabéia formam conjunto pertencente ao altar-mor da igreja Nossa Senhora do Pilar

Imagens do Rei Davi e de Betsabá
Imagens do Rei Davi e de Betsabá (Reprodução Vatican News)

Assim como na literatura bíblica, as imagens sacras do Rei Davi e de sua amada Betsabéia, mãe do Rei Salomão, passaram por maus momentos. Furtadas da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar em 1974, as esculturas seguiram destinos diferentes e ficaram desaparecidas por mais de quatro décadas até serem localizadas em acervos de colecionadores.

A primeira escultura recuperada foi a da a rainha consorte de Israel (Betsabá) esposa do rei Davi e mãe do rei Salomão. Agora foi a vez da imagem do Rei Davi. Ambas as obras foram executadas na primeira metade do século 18 e possuem características do barroco joanino, em madeira policromada e douramento, com cerca de 1,2m de altura. Juntas, essas imagens formam um conjunto escultórico pertencente ao altar-mor da igreja histórica localizada no bairro Pilar em Duque de Caxias (RJ).

Características da imagem sacra

Elaine Gusmão, especialista em História da Arte e membro da Comissão para os Bens Culturais e Patrimônio Histórico da Diocese de Duque de Caxias, é quem nos conta sobre as especificidades dessas obras. 

"O estilo barroco é caracterizado pela grandiosidade, teatralidade e representações visuais das imagens, que nasceu para atuar como instrumento de afirmação e persuasão da fé cristã. As imagens auxiliavam na catequização dos fiéis, que não tinham acesso aos textos da Bíblia. A transcendência estética das obras fortalecia os ensinamentos religiosos através do encantamento dos devotos com a beleza artística. A imagem foi confeccionada em 'escorzo', que é a alteração intencional das proporções anatômicas, técnica utilizada pelos artistas para corrigir a perspectiva, uma vez que seriam vistas de longe e de baixo para cima".

Simbolismo

A especialista conta ainda que "a iconografia do conjunto escultórico representa a passagem da Bíblia presente em 2 Samuel 11,2-5:  'Uma tarde Davi levantou-se da cama e foi passear pelo terraço do palácio. Do terraço viu uma mulher muito bonita tomando banho, e mandou alguém procurar saber quem era ela. Disseram-lhe: 'É Betsabá, filha de Eliã e mulher de Urias, o hitita'. Davi mandou que a trouxessem, e se deitou com ela, que havia acabado de se purificar da impureza da sua menstruação. Depois, voltou para casa. A mulher engravidou e mandou um recado a Davi, dizendo que estava grávida".

Buscas, identificação e retorno

O rastreamento e localização das imagens sacras furtadas dos templos, principalmente da Igreja do Pilar, fazem parte de esforço permanente da Diocese de Duque de Caxias, em conjunto com o Ministério Público, e da Polícia Federal e do Poder Judiciário. 

No caso específico da imagem do Rei Davi, foram feitas houve buscas em leilões de arte, livros de arte e catálogos. A escultura foi identificada, em 2015, no livro O Aleijadinho: Catálogo Geral da Obra: Inventário das Coleções Públicas e Particulares, obra de autoria de Márcio Jardim, Herbert Sardinha Pinto e Marcelo Coimbra, lançado em 2011. A imagem encontrava-se em uma coleção particular no estado de São Paulo.

Igreja do Pilar

Um dos primeiros bens tombados do país, em 1938, apenas um ano após a criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar foi construída no início do século 18 nas margens do antigo porto do Pilar do Iguaçu. A igreja foi a sede religiosa de uma das freguesias mais ricas da região durante o ciclo do ouro, pois situava-se num dos caminhos para as Minas. Porém, com a abertura de uma nova estrada que fazia o mesmo trajeto de maneira mais célere, o caminho foi abandonado, levando a freguesia à decadência.

De rara beleza e ornada em ouro, a igreja histórica passou por muitos furtos, tendo grande parte do seu acervo saqueado, entre os quais a imagem de Nossa Senhora do Pilar, padroeira diocesana, que ainda encontra-se desaparecida.
Atualmente o templo encontra-se em processo de restauração para a realização do reforço da infraestrutura, descupinização, recuperação dos bens móveis integrados e a conservação dos elementos artísticos. 

Inicialmente a previsão de entrega era para dezembro de 2020, porém, devido à pandemia da Covid-19, foi necessária uma readequação no prazo de conclusão das obras. Em breve os fiéis poderão voltar a participar das missas e celebrações no templo fechado há sete anos.


Vatican News/Dom Total



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