Economia

24/09/2021 | domtotal.com

Inflação passa de 10% e IPCA-15 tem a maior alta desde o início do Plano Real, em 1994

Alta da gasolina e da energia elétrica pressionam preços e IPCA-15, prévia da inflação, sobe 1,14% em setembro, recorde em mais de 26 anos de Plano Real

Assalariado passa aperto para ter acesso ao básico no Brasil
Assalariado passa aperto para ter acesso ao básico no Brasil (Roberto Parizotti/ via Fotos Públicas)

A escalada de preços dos combustíveis e da conta de luz - que já vêm apertando os orçamentos das famílias brasileiras nos últimos meses - e um encarecimento generalizado de bens e serviços, ainda sob efeito da pandemia, apontam para inflação recorde em setembro. O IPCA-15, prévia do índice oficial, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), saltou 1,14% neste mês, na maior alta para setembro desde 1994, início do Plano Real.

Nos acumulado em 12 meses, o IPCA-15 ficou em 10,05%, maior alta sob essa ótica desde fevereiro de 2016, meses antes de a ex-presidente Dilma Rousseff ser afastada no processo de impeachment, em meio à recessão.

O tamanho da alta surpreendeu. A variação veio acima da aumento de 1,03% apontado pela pesquisa do Projeções Broadcast com as estimativas de analistas de mercado. O número divulgado pelo IBGE ficou no teto das estimativas, que iam de avanço de 0,90% a 1,14%.

Para Daniel Lima, economista do banco ABC Brasil, os dados do IPCA-15 vieram ruins em todos os aspectos, seja porque a elevação de preços está difundida pelos diversos produtos e serviços pesquisados, seja porque os núcleos, ou seja, o cálculo da inflação que exclui as maiores e menores variações, também estão acelerando.

"A leitura geral desse IPCA-15 é de um número desfavorável: a média dos núcleos, a difusão, todas as categorias de bens industriais, serviços, preços administrados e alimentação no domicílio mostrando aceleração", disse Lima.

Os vilões de sempre dos últimos meses seguiram colocando mais lenha na fogueira da carestia. Sozinhos, a gasolina (alta de 2,85%) e a energia elétrica (alta de 3,61%) foram os itens com maior impacto positivo. Cada um deles adicionou 0,17 ponto porcentual na variação agregada do IPCA-15.

Os preços dos combustíveis respondem à política de preços da Petrobras - praticamente a única fornecedora dos postos, que tem repassado para as refinarias a alta das cotações internacionais do petróleo e do dólar no mercado brasileiro - e o emaranhado tributário que recai sobre esses produtos. 

O preço médio da gasolina já acumula um salto de 39,05% nos últimos 12 meses. Apenas em setembro, os combustíveis em geral ficaram 3,0% mais caros. Além da gasolina, subiram etanol (4,55%), gás veicular (2,04%) e óleo diesel (1,63%).

A conta de luz vem encarecendo por causa da crise hídrica. Com as chuvas abaixo das médias históricas, os reservatórios das usinas hidrelétricas, principal fonte de geração no país, chegaram aos níveis mínimos históricos. Consequentemente, para garantir a geração de eletricidade necessária, são acionadas as usinas térmicas, cujo custo de operação é maior. Esse custo maior é repassado para o consumidor final por meio das "bandeiras tarifárias", taxas adicionais cobradas conforme as regras da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Diante do quadro crítico dos reservatórios, a Aneel já determinou neste ano a elevação dos valores das taxas mais elevadas das bandeiras. Em agosto, o quadro ficou tão ruim que foi determinada uma nova bandeira, extraordinária, com taxa mais elevada que todas - a cobrança começou em 1º setembro. "No mês passado, vigorou a bandeira vermelha patamar 2, com acréscimo de R$ 9,492 a cada 100 kWh consumidos. A partir de 1.º de setembro, passou a valer a bandeira tarifária de Escassez Hídrica, que acrescenta R$ 14,20 para os mesmos 100 kWh", informou o IBGE, em nota.

Por isso, a alta de 3,61% na conta de luz registrada no IPCA-15 é só o começo. Metodologicamente, a prévia do IPCA monitora os preços de meados de um mês a meados do mês de referência, ou seja, a conta de luz só ficou mais salgada em metade do período incluído no IPCA-15 de setembro. 

Mauricio Nakahodo, economista-sênior do Banco MUFG Brasil, estima que o IPCA de setembro poderá ficar em 1,30%, quando captar todo o efeito da bandeira de escassez hídrica. "A energia elétrica ainda não teve o impacto cheio do reajuste, mas já pressionou", disse o economista.

Aos dois vilões se somam problemas associados à pandemia. Desde o segundo semestre do ano passado, gargalos no transporte marítimo e elevação das cotações de matérias-primas vêm provocando escassez e encarecimento de insumos para a indústria, que vem sendo obrigada a repassar reajustes. Mais recentemente, o avanço da vacinação vem permitindo a reabertura de negócios do setor de serviços, como bares e restaurantes, que estão aproveitando para reajustar preços também.

Os problemas das cadeias industriais, mais agudos no setor automotivo, apareceram no IPCA-15 de setembro: somados, os automóveis novos (alta de 1,70%), os automóveis usados (1,34% mais caros) e as motocicletas (avanço de 1,04%) contribuíram com 0,08 ponto porcentual no IPCA-15 de setembro. Produtos e serviços do mundo automotivo também ficaram mais caros. Foi o caso do seguro voluntário de veículo (3,08%), do óleo lubrificante (2,37%), do pneu (1,88%) e do conserto de automóvel (0,81%).

Para o economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles, a inflação de bens industriais preocupa mais que a de serviços. "Os industriais tiveram o choque de commodities no início do ano, mas agora é um problema que não estamos acostumados a ver, da queda na cadeia produtiva global, então sobe mais do que as commodities sugerem. É um fator que tem afetado a inflação não só no Brasil, mas no mundo todo", afirma.

A inflação de serviços segue mais de perto os fundamentos econômicos e deverá arrefecer "quando a inflação geral desacelerar", disse Salles. Mesmo assim, no curto prazo, a aceleração dos reajustes nos serviços se soma aos demais fenômenos para elevar ainda mais a inflação neste momento. 

O IBGE não calcula um agregado dos preços de serviços no IPCA-15 - apenas nas leituras dos meses fechados no IPCA -, mas, nas contas do economista Raphael Rodrigues, do Banco BV, eles ficaram 0,74% mais caros em setembro, ante 0,29% em agosto.

"É um número muito ruim, com pressão bem difundida, núcleos bem acima do esperado. Os choques, com a sequência e a intensidade, começaram a ser repassados para os preços, o que significa maiores revisões para este ano e maior inércia para o ano que vem. No mínimo, não ajuda expectativas de 2022", disse o economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flávio Serrano.

Pressão sobre o BC

Para o economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina, Alberto Ramos, o resultado do IPCA-15 coloca uma pressão ainda maior sobre o Banco Central (BC) para conter a alta de preços no ano que vem.

"Pressões significativas de aumento de custos, uma inflação de serviços em crescimento rápido, o risco político e forças inerciais estão contaminando a perspectiva para a inflação em 2022 e devem fazer o Banco Central levar a taxa de juros para território contracionista", escreveu Ramos, em relatório. "Entretanto, nesse estágio, a chance de o Banco Central conseguir levar a inflação para a meta de 3,5% em 2022 é baixa."

Mesmo assim, Nakahodo, do MUFG Brasil, acha que o resultado do IPCA-15 não altera o "plano de voo" do BC para a política monetária, conforme tem declaro o presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto. A expectativa do MUFG é de alta de 1 ponto porcentual na Selic (a taxa básica de juros, elevada na quarta-feira para 6,25% ao ano) em outubro, com ajustes adicionais de 0,75 ponto em dezembro e de 0,50 ponto em fevereiro de 2022, que deixariam a taxa de juros em 8,50% no fim do ciclo.


AE, Estadão e DomTotal



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