Brasil

27/09/2021 | domtotal.com

O cheiro da mulata Zazá

E Manezinho passou a frequentar a fazenda onde trabalhava a irresistível mulata Zazá

Manezinho tem um restaurante caseiro no pequeno sítio onde mora com a mulher Sara e um filho
Manezinho tem um restaurante caseiro no pequeno sítio onde mora com a mulher Sara e um filho (Unsplash/Ruthra Malai)

Afonso Barroso*

Tal como o tenente-coronel Frank Slade, do filme Perfume de mulher, Manezinho do Peixe é completamente cego. E também desenvolveu enormemente os sentidos que lhe sobram, entre os quais predomina o olfato.

Manezinho tem um restaurante caseiro no pequeno sítio onde mora com a mulher Sara e um filho. Sua especialidade, que lhe valeu o apelido, é o preparo de peixes como piau, traíra e mandi, que ele mesmo pesca no córrego existente no fundo do quintal. É famosa sua moqueca de traíra, prato inspirado na culinária baiana e capixaba.

O restaurante é um conjunto de cinco mesas no terreiro à frente da casa, mesas sempre cheias nos fins de semana, porque os pratos de Manezinho do Peixe atraem fregueses de todos os cantos da redondeza. Além da moqueca, ninguém faz uma traíra sem espinho como ele. Ninguém prepara um piau à Manezinho como ele. Ninguém frita um lambari como ele, e muito menos um mandi como ele.

Manezinho se locomove com incrível facilidade no terreno onde pisa. Sua bengala o leva a uma a uma das mesas. Conhece pela voz cada freguês que ali vá pela segunda vez. Quando se trata de mulher, identifica não pela voz, mas pelo cheiro,

E foi pelo cheiro da mulata Zazá que Manezinho do Peixe se enfeitiçou. Ficou simplesmente cego de amor quando sentiu pela primeira vez o aroma daquela que identificou como mulata desde o primeiro momento. Perdeu-se pelo nariz.

A paixão levou-o à traição. Ficou sabendo que ela era empregada na fazenda do seu Ermírio, a dois quilômetros dali. E um dia combinou de visitá-la, ela que também se viu atraída por aquele cozinheiro ceguinho, simpático e, por que não dizer, cheiroso.

E Manezinho passou a frequentar a fazenda onde trabalhava a irresistível mulata Zazá. Só fazia uma exigência curiosa: que não tomasse banho. Evidentemente, para preservar a fragrância natural daquela pretinha lustrosa, que assim o recebia com o cheiro que Deus lhe deu. Os encontros ocorriam sempre aos domingos, quando os patrões dela se ausentavam para assistir à missa no povoado, aonde também ia a mulherzinha do ceguinho cozinheiro. Ela não desconfiava dos pulos de cerca do marido.

Mas um dia ela descobriu. Alertada por uma vizinha, Sara não foi à missa num domingo e seguiu Manezinho até a fazenda da traição. Detalhe perigoso: levava consigo uma peixeira daquelas bem amoladas. Flagrou o marido entrando no barraco onde Zaza dormia, num anexo da casa da fazenda.

O olfato apuradíssimo de Manezinho falhou nesse dia, ou melhor: por causa do cheiro da amante, não sentiu o da sua mulher que se aproximava.

Não sei dizer o que aconteceu em seguida. Também não me pergunte cadê Zazá, porque eu só sei até esse ponto da história verídica e fatídica do cego Manezinho do Peixe.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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