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29/09/2021 | domtotal.com

Despesas militares e meio ambiente

O mundo chegou a quase US$ 2 trilhões de gastos militares em 2020

Frota naval dos Estados Unidos liderada pelo porta-aviões USS Reagan
Frota naval dos Estados Unidos liderada pelo porta-aviões USS Reagan Foto (USS Ronald Reagan)

José Eustáquio Diniz Alves*

Mesmo a economia internacional estando em recessão em 2020 - com aumento do desemprego, da pobreza e da fome - não faltaram recursos para os gastos de guerra, de morte e segurança. O ano de 2020 também registrou as temperaturas mais altas desde a o início dos registros em 1880 e a concentração de CO2 bateu todos os recordes do Holoceno (últimos 12 mil anos). Portanto, em vez de investir na descarbonização da economia, os grandes países estão fazendo investimentos social e ambientalmente improdutivos em despesas militares.

O relatório de 2020 do Instituto Internacional para a Investigação da Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês), publicado em 21/4/2021, mostra que os gastos militares no mundo, no ano passado, chegaram à impressionante cifra de US$ 1,98 trilhão. Os cinco maiores gastadores em 2020, que juntos responderam por 62% dos gastos militares globais, foram os Estados Unidos, China, Índia, Rússia e Reino Unido, como mostra o gráfico abaixo.

O aumento de 2,6% nos gastos militares mundiais ocorreu em um ano em que o produto interno bruto (PIB) global encolheu 4,4% (segundo o Fundo Monetário Internacional). Como resultado, os gastos militares como parcela do PIB - o fardo militar - alcançaram uma média global de 2,4 por cento em 2020, ante 2,2 por cento em 2019. Este foi o maior aumento ano a ano no fardo militar desde a crise financeira e econômica global em 2009.

Embora os gastos militares tenham aumentado globalmente, alguns países realocaram explicitamente parte de seus gastos militares planejados para a resposta à pandemia, como o Chile e a Coreia do Sul. As despesas militares dos EUA chegaram a cerca de US$ 778 bilhões no ano passado, representando um aumento de 4,4% em relação a 2019. Como o maior gastador militar do mundo, os EUA responderam por 39 por cento do total das despesas militares em 2020. Este foi o terceiro ano consecutivo de crescimento nos gastos militares dos EUA, após sete anos de reduções contínuas.

Os recentes aumentos nos gastos militares dos EUA podem ser atribuídos principalmente a pesados investimentos em pesquisa e desenvolvimento e a vários projetos de longo prazo, como a modernização do arsenal nuclear dos EUA e a aquisição de armas em grande escala. Nos últimos 20 anos os EUA aplicaram trilhões de dólares em guerras fracassadas como no Iraque e no Afeganistão.

As despesas militares da China aumentam pelo 26º ano consecutivo. O Instituto Sipri estima que os gastos militares da China, o segundo maior do mundo, totalizaram US$ 252 bilhões em 2020. Isso representa um aumento de 1,9% em relação a 2019 e 76% na década de 2011-2020. Os gastos da China aumentaram por 26 anos consecutivos, a mais longa série de aumentos ininterruptos de qualquer país no Banco de Dados de Despesas Militares do Sipri. O crescimento contínuo dos gastos chineses se deve em parte aos planos de modernização e expansão militar de longo prazo do país, em linha com o desejo declarado de alcançar outras potências militares importantes.

Quase todos os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) viram o seu fardo militar aumentar em 2020. Como resultado, 12 membros da Otan gastaram 2% ou mais do seu PIB com os seus militares, a meta de gastos da diretriz da Aliança, em comparação com 9 membros em 2019. A França, por exemplo, o oitavo maior gastador globalmente, ultrapassou o limite de 2% pela primeira vez desde 2009.

Os gastos militares da Rússia aumentaram 2,5% em 2020, chegando a US$ 61,7 bilhões. Este foi o segundo ano consecutivo de crescimento. No entanto, os gastos militares reais da Rússia em 2020 foram 6,6% menores do que seu orçamento militar inicial, um déficit maior do que nos anos anteriores. Com um total de US$ 59,2 bilhões, o Reino Unido se tornou o quinto maior gastador em 2020. Os gastos militares do Reino Unido foram 2,9% maiores do que em 2019, mas 4,2% menores do que em 2011. A Alemanha aumentou seus gastos em 5,2%, para US$ 52,8 bilhões, tornando-se o sétimo maior gastador em 2020. Os gastos militares da Alemanha foram 28% maiores do que em 2011. Os gastos militares em toda a Europa aumentaram 4% em 2020.

Além da China, Índia ($ 72,9 bilhões), Japão ($ 49,1 bilhões), Coreia do Sul ($ 45,7 bilhões) e Austrália ($ 27,5 bilhões) foram os maiores gastadores militares na região da Ásia e Oceania. Todos os quatro países aumentaram seus gastos militares entre 2019 e 2020 e ao longo da década de 2011-2020. Os gastos militares na África Subsaariana aumentaram 3,4% em 2020, chegando a US$ 18,5 bilhões. Os maiores aumentos nos gastos foram feitos pelo Chade (+31%), Mali (+22%), Mauritânia (+23%) e Nigéria (+29%), todos na região do Sahel, bem como Uganda (+46%).

Os gastos militares na América do Sul caíram 2,1%, para US$ 43,5 bilhões em 2020. A redução foi em grande parte devido a uma queda de 3,1% nos gastos do Brasil, o maior gastador militar da sub-região. Os gastos militares combinados dos 11 países do Oriente Médio para os quais o Sipri tem gastos diminuíram 6,5% em 2020, para US$ 143 bilhões. Oito dos nove membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) cortaram seus gastos militares em 2020. Os gastos de Angola caíram 12%, os da Arábia Saudita em 10% e os do Kuwait em 5,9%. O exportador de petróleo não pertencente à Opep, Bahrein, também cortou seus gastos em 9,8%. Os países com os maiores aumentos na carga militar entre os 15 maiores gastadores em 2020 foram Arábia Saudita (+0,6 ponto percentual), Rússia (+0,5 ponto percentual), Israel (+0,4 ponto percentual) e os EUA (+0,3 ponto percentual) .

Prioridades

Todos estes dados do Sipri mostram que as prioridades do mundo não são a geração de emprego, a redução da pobreza e da fome e a resolução dos problemas ambientais.

Mas, paralelamente, novo relatório pela Agência Internacional de Energia (AIE) mostra que o futuro da energia e do clima mundial depende cada vez mais de as economias emergentes e em desenvolvimento serem capazes de fazer uma transição bem-sucedida para sistemas de energia mais limpos, exigindo uma mudança radical nos esforços globais para mobilizar e canalizar o enorme aumento de investimento necessário. O relatório especial - realizado em colaboração com o Banco Mundial e o Fórum Econômico Mundial - estabelece uma série de ações para permitir que esses países superem os principais obstáculos que enfrentam para atrair financiamento para construir sistemas de energia limpos, modernos e resilientes que podem impulsionar suas economias em crescimento nas próximas décadas.

O investimento anual em energia limpa em economias emergentes e em desenvolvimento precisa aumentar em mais de sete vezes - de menos de US$ 150 bilhões em 2020 para mais de US$ 1 trilhão até 2030 para colocar o mundo no caminho certo para alcançar emissões líquidas zero até 2050, de acordo com o relatório, Financing Clean Energy Transitions in Emerging and Developing Economies.

Ou seja, se os diversos governos do mundo cortarem pela metade os gastos militares e investirem este dinheiro na descarbonização da economia seria possível evitar um colapso ambiental global. Reduzir os gastos de guerra de US$ 2 trilhões para US$ 1 trilhão e investir estes recursos na mudança da matriz energética poderia contribuir substancialmente para um mundo mais pacífico e com mais sustentabilidade ambiental.

Contudo, os bilionários do mundo estão brincando de viajar para o espaço e os maiores países estão gastando cada vez mais em despesas militares e na corrida espacial. Só ingênuos podem achar que todos estes gastos improdutivos e estes investimentos necrófilos vão reverter a favor do bem-estar humano e ambiental. Na verdade, a civilização humana - que comanda o Antropoceno - está caminhando aceleradamente para o colapso ecológico e civilizacional. A janela de oportunidade sair da rota do abismo está se fechando e o efeito dominó pode desencadear desastres em cascata.

Artigo originalmente publicado por EcoDebate


EcoDebate

José Eustáquio Diniz Alves tem graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestrado em Economia, doutorado em Demografia pelo Cedeplar-UFMG e pós-doutorado pelo Nepo/Unicamp.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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