Religião

28/09/2021 | domtotal.com

A nova presença de mulheres em altos cargos no Vaticano irá mudar a Igreja?

Papa Francisco tem nomeado mulheres para cargos importantes até então ocupado por homens

Presença feminina em altos cargos ajuda a combater o clericalismo
Presença feminina em altos cargos ajuda a combater o clericalismo (América)

Colleen Dulle*
America

Quando Nathalie Becquart, das Missionárias de Cristo Jesus (Congregação Xaveriana), foi nomeada a primeira mulher subsecretária do Sínodo dos Bispos, fez uma observação que ganhou as manchetes em todo o mundo. Em uma entrevista coletiva no Vaticano, ela disse aos repórteres que sua nomeação era uma evidência de que "a mentalidade patriarcal [da Igreja] está mudando".

Será verdade?

O papa Francisco nomeou mais mulheres para posições de grande autoridade do que qualquer outro pontífice. Contudo, o Vaticano continua sendo um espaço amplamente dominado por homens, porque sempre se precisa do controle de um bispo, impondo uma restrição definitiva sobre até que posto as mulheres podem aspirar a chegar – um limite que alguns têm chamado de "teto de vitral".

Sob este teto de vitral, porém, as mulheres estão ganhando terreno. Em 2019, por exemplo, 24% dos funcionários da Santa Sé eram mulheres. Comparando com os 17,6% de 2010, observa-se o aumento gradual que se tem incrementado desde o Concílio Vaticano II.

As mulheres que trabalham no Vaticano ocupam, principalmente, lugares nos bastidores, comandando as operações cotidianas dos muitos dicastérios, congregações e secretariados da Cúria Romana e da Cidade-Estado do Vaticano. De acordo com os arquivos do governatorado, a primeira mulher leiga a trabalhar em tempo integral no Vaticano foi Anna Pezzoli em 1915. Ela trabalhava para as freiras que dirigiam o laboratório de restauração de tapeçaria do Vaticano. Gudrun Sailer, jornalista da Rádio Vaticano que escreveu sobre a história das mulheres que trabalham no Vaticano, disse que embora Pezzoli tenha sido a primeira mulher cujas informações de emprego foram arquivadas, pode ter tido predecessoras.

De acordo com Sailer, as primeiras mulheres instruídas começaram a trabalhar na Biblioteca Apostólica do Vaticano em 1929 e a primeira mulher a ocupar um cargo de liderança foi a leiga Rosemary Goldie, subsecretária do Pontifício Conselho para os Leigos, em 1967.

Um novo dia

Mais mulheres também assumiram cargos de liderança de alto escalão no Vaticano nos últimos anos. Enquanto em 2009 apenas três mulheres ocupavam esses cargos, o número era de 8 entre os 80 ou 100 dessas funções, incluindo o de vice-ministra das Relações Exteriores e vice-chefe do Escritório de Imprensa do Vaticano.

O papa disse à Reuters em 2018 que teve de "lutar" contra a resistência interna no Vaticano ao nomear a jornalista Paloma García-Ovejero como vice-chefe da assessoria de imprensa. Agora, de acordo com a Sailer, que compilou estatísticas sobre as mulheres no Vaticano, há seis mulheres ocupando cargos de liderança, incluindo a irmã Nathalie Becquart no Sínodo dos Bispos. O grupo também inclui Alessandra Smerilli, FMA, economista, que em agosto foi nomeada secretária interina – a segunda função mais alta em um departamento, semelhante a uma vice-presidente – no Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, tornando-se a mulher com o posto mais alto na Cúria Romana.

O papa também está nomeando mulheres para cargos que antes eram ocupados apenas por homens – incluindo a mulher de mais alto escalão no governatorado da Cidade do Vaticano, Barbara Jatta, diretora dos Museus Vaticanos. Os museus são uma importante fonte de receita para a cidade-Estado, uma entidade separada da Cúria Romana que contribui para seus resultados financeiros. Jatta conduziu os museus durante um ano tumultuado em 2020, quando a pandemia do coronavírus fechou esses espaços por meses, causando uma queda de 82% no número de visitantes. O museu girou em torno de ofertas digitais, incluindo a publicação de sete novos tours virtuais e uma nova série de vídeos aulas: Os segredos dos Museus Vaticanos.

Em 2020, o papa Francisco também nomeou seis mulheres leigas para o Conselho para a Economia, antes exclusivamente masculino, que supervisiona as estruturas financeiras e administrativas da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano, e nomeou a primeira mulher promotora de justiça no Tribunal de Apelações do Vaticano.

"Um novo rosto, o da Igreja 'feminina', começa a aparecer em setores da Santa Sé, com seus traços de proximidade, compaixão e ternura, assim como inteligência feminina e intuição", escreveu María Lía Zervino, presidente da a União Mundial de Organizações de Mulheres Católicas, em uma entrevista por e-mail à revista América. Segundo seu site, o grupo busca "promover a presença, a participação e a corresponsabilidade das mulheres católicas na sociedade e na Igreja".

Mulheres e Poder

Ainda assim, Zervino e outras mulheres familiarizadas com as ações do Vaticano acreditam que há um longo caminho a percorrer antes que as vozes das mulheres sejam integradas de forma satisfatória à liderança central da Igreja. O que é "satisfatório" também permanece indefinido. A Igreja Católica não ordena mulheres e muitas funções do Vaticano são reservadas aos membros de estado clerical. Portanto, as estatísticas sobre paridade de gênero são de pouca ajuda para entender quanto poder as mulheres detêm no Vaticano.

Para complicar ainda mais a situação, devemos pensar na forma como o exercício de poder é entendido no Vaticano. Enquanto em outras organizações os funcionários podem se candidatar a promoções, os cargos de alto escalão do Vaticano são feitos por nomeação, e há um tabu de longa data, pelo menos desde a contra-Reforma, contra se fazer campanha por cargos mais elevados, embora isso aconteça.

Quando uma nomeação é feita para um cargo do Vaticano, o líder nomeado tem mais probabilidade de descrever sua posição em termos de serviço, em vez de poder. Isso significa que as discussões sobre "empoderamento das mulheres" são escassas e que a criação de metas mensuráveis para a liderança das mulheres é algo inédito; em vez disso, qualquer objetivo é geralmente estruturado em termos mais abstratos, como "dar um lugar às mulheres à mesa" e "garantir que as vozes das mulheres sejam ouvidas".

Algumas mulheres têm ideias específicas sobre como fazer isso. Zervino, por exemplo, gostaria que o Vaticano instituísse um "Observatório Mundial da Mulher" que reunisse pesquisas científicas sobre as questões enfrentadas pelas mulheres em todo o mundo e ajudasse a Igreja a responder a essas questões de forma mais eficaz. Lucetta Scaraffia – uma jornalista feminista que fundou uma revista feminina no Vaticano e, mais tarde, renunciou a ela em protesto depois de dizer que fora desencorajada a publicar uma denúncia sobre o abuso sexual de religiosas por clérigos – gostaria de ver mulheres nomeadas cardeais e as chefes de ordens religiosas femininas nomeadas como principais conselheiros do papa.

Porém, dentro do Vaticano, onde as mulheres são publicamente menos reconhecidas por serem críticas à Igreja institucional, também há uma mudança em andamento. À medida que mais mulheres assumem cargos no Vaticano, funcionários de longa data dizem que viram a cultura clerical lentamente começar a se desgastar. Ao mesmo tempo, as mulheres que começaram a trabalhar com o Vaticano recentemente estão apresentando uma nova perspectiva sobre o que as mulheres trazem para a mesa da Igreja. Em vez do indescritível "gênio feminino" que os membros da hierarquia muitas vezes se esforçam para descrever, eles dizem que o dom das mulheres é uma perspectiva que ganharam como estranhas.

A cultura do Vaticano

Cristiane Murray, uma das principais mulheres do Vaticano como vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé, lembra quando começou a trabalhar na Rádio Vaticano em 1995.

"Quando comecei a trabalhar aqui, eu era uma jovem de 33 anos e tinha muito medo do clericalismo; o ambiente da Cúria me assustou", disse Murray em uma apresentação recente sobre o papel das mulheres na Igreja. Na época, havia algumas mulheres trabalhando como tradutoras no departamento, mas a maioria dos funcionários eram homens. "Por incrível que pareça, senti que alguns padres ou bispos, idosos ou não, tinham o mesmo medo de mim. Alguns até evitavam olhar para mim. Hoje vejo como isso mudou; testemunho a atenção e às vezes a admiração que muitos membros da Cúria dão às mulheres que hoje, graças a Deus, não faltam nas esferas eclesiais".

Hoje, a maioria dos funcionários da assessoria de imprensa do Vaticano são mulheres, disse Murray, mas isso é raro em outros departamentos do Vaticano. A assessoria de imprensa também é o único dicastério do Vaticano com um prefeito leigo, o principal líder do departamento. "Em 2018, cheguei ao Secretariado do Sínodo dos Bispos para colaborar na preparação dos Sínodos da Juventude e da Amazônia, e encontrei como colegas apenas funcionários do sexo masculino. Na verdade, um ambiente semelhante ao da maioria dos dicastérios do Vaticano com os quais interajo hoje", disse Murray em uma entrevista por escrito à América, acrescentando "E trabalhamos muito bem juntos!"

O papa Francisco tem trabalhado para elevar os papéis que ocupam as mulheres nos sínodos – isto é, as reuniões de bispos em torno de um assunto, como o recente Sínodo sobre a Amazônia – tornando as reuniões mais inclusivas para mulheres e leigos, que ocupam cargos importantes no Vaticano, e propondo a sinodalidade como um caminho promissor para a igualdade de gênero. Murray participou em ambas as sessões sinodais – do Sínodo sobre Jovens, Fé e Discernimento Vocacional de 2018 e do Sínodo sobre a Amazônia de 2019 – o documento final das recomendações dos participantes ao papa apelou a um maior reconhecimento dos papéis das mulheres na Igreja.

O Sínodo da Amazônia apelou especificamente para que as mulheres fossem incluídas nos conselhos paroquiais e diocesanos e em cargos de governo (Documento final do Sínodo da Amazônia, nº 101), bem como no ministério: "É urgente que a Igreja na Amazônia promova e ofereça ministérios para homens e mulheres de maneira equitativa" (No. 95). A exortação do papa após o Sínodo dos Jovens também apontou o desejo das jovens de ver mais modelos femininas na Igreja (Cristo está vivo, nº 245).

O papa Francisco respondeu a esses apelos, em parte, abrindo para as mulheres os ministérios litúrgicos permanentes de leitoras e acólitas. Embora as mulheres tenham desempenhado essas funções por décadas, anteriormente apenas os homens podiam ser instituídos permanentemente nessas funções; essa proibição raramente era aplicada nos Estados Unidos, mas era mais comum em outros lugares. Francisco também criou o ministério leigo de catequistas, que dá reconhecimento oficial às mulheres catequistas, que em áreas como a Amazônia, que enfrentam grave escassez de padres, são frequentemente as líderes de suas comunidades religiosas.

Scaraffia, a jornalista que fundou a revista feminina do Vaticano, criticou a abertura do ministério permanente de leitora e acólita para as mulheres, mas saudou a criação da função de catequista. Ela vê a instituição permanente das mulheres como leitoras e acólitas como uma forma de trazer um ministério que as mulheres exerceram extraoficialmente durante décadas sob o controle do bispo, limitando assim sua liberdade. Em sua opinião, o ministério do catequista é diferente porque implica um novo reconhecimento oficial das mulheres como líderes na vida paroquial. "Sempre tendo em mente, no entanto, que o reconhecimento também envolve controle", acrescentou Scaraffia em uma entrevista por e-mail para a América.

Scaraffia, como as outras mulheres citadas nesta história, acredita que o objetivo final de feministas como ela, que pressionam por mudanças no Vaticano, é permitir que as vozes das mulheres sejam ouvidas. Para ela, o objetivo provou ter apostas particularmente altas. Com a bênção do papa Bento XVI, ela fundou a revista Donne Chiesa Mondo ("Mulheres, Igreja, Mundo"), uma publicação mensal no jornal diário do Vaticano, L'Osservatore Romano. Estar sob a supervisão da operação oficial de mídia do Vaticano significava que a revista não poderia cobrir questões polêmicas como o aborto, uma restrição que Scaraffia estava de acordo em obedecer.

Mas a revista irritou algumas pessoas em março de 2018, quando publicou uma reportagem sobre as condições das religiosas que trabalham nas casas de bispos, cardeais e padres. Em uma entrevista de 2019 no podcast da revista América Dentro do Vaticano, Scaraffia me explicou que as irmãs estavam em uma posição de subserviência e dependência de seus empregadores, que geralmente forneciam suas moradias, e muitas vezes não eram remuneradas. A exploração que enfrentaram, disse ela, às vezes incluía até abuso sexual – um detalhe que, Scaraffia explicou mais tarde, um alto funcionário do Vaticano pediu para ela para não relatar.

Logo após essa entrevista, Scaraffia e todo o conselho editorial da Donne Chiesa Mondo renunciaram, alegando hostilidade de novos editores da L'Osservatore Romano. Os arquivos com seus sete anos de trabalho foram retirados do site do jornal.

Scaraffia está preocupada que não haja mais um espaço público pelo Vaticano para as mulheres expressarem críticas à instituição. Desde sua renúncia, disse: "A situação das mulheres no Vaticano hoje parece ter piorado. Não há mais voz livre, em troca de alguns lugares em postos médios-altos, sem a possibilidade de mudar nada ou fazer ouvir uma voz crítica."

"Claro, a presença de mulheres em níveis executivos no Vaticano é uma coisa positiva, mas por enquanto elas estão sempre em uma esmagadora minoria e são mulheres escolhidas pela instituição hierárquica, portanto, em primeiro lugar, obedientes e não muito críticas", apontou Scaraffia. "Acho que a situação seria diferente se nos níveis superiores – estou pensando no pequeno grupo de cardeais que aconselham o papa – os líderes das grandes associações mundiais de religiosas, eleitas pelos próprios religiosos, fossem convidados. Quase sempre são mulheres corajosas e inteligentes, com profundo conhecimento da situação da Igreja Católica no mundo, capazes de uma visão crítica e nova".

"Nos últimos anos, embora a instituição eclesiástica não tenha realmente mudado, os religiosos mudaram muito", acrescentou. "As vocações estão diminuindo drasticamente, mas aqueles que permanecem são lúcidos e combativos, não são mais os servos obedientes do clero". É particularmente importante levantar a voz das religiosas, acrescentou Scaraffia, para combater o abuso.

"Acho que uma mudança na condição mortificante das mulheres na Igreja só pode acontecer se as mulheres mudarem, se as mulheres estiverem lutando para que seus pedidos sejam ouvidos e atendidos", disse Scaraffia. As mulheres não podem esperar que o papa faça mudanças; elas precisam ser proativas. Como ela disse em sua entrevista de 2019 para a América, "o papa Francisco abriu as portas para as mulheres; cabe a elas passar por estas" e usar suas novas posições para pressionar por um melhor tratamento para as mulheres.

Dentro do Vaticano, o tom das mulheres na liderança é muito menos crítico, mas a maioria das mulheres admite que a Igreja tem um longo caminho a percorrer para alcançar a meta de igualdade entre os sexos. Murray, a assessora de imprensa, disse à America que, nos últimos cinco anos, a associação Donne in Vaticano ("Mulheres no Vaticano") reuniu as mulheres que trabalham no Vaticano para se apoiarem umas às outras e aumentarem a visibilidade das mulheres no Vaticano, ao mesmo tempo em que faz um trabalho de caridade para mulheres em situações difíceis em todo o mundo. "O objetivo da igualdade ainda está um pouco distante", disse Murray, "mas infelizmente isso é uma realidade não apenas no Vaticano, mas até mesmo nos países mais avançados do mundo".

Quando questionada sobre o que diria ao papa Francisco sobre a situação das mulheres no Vaticano, Murray disse: "Acredito que pediria isso: que sejamos mais ouvidas" e "que haja um maior diálogo de troca e de interação, em todos os níveis, entre homens e mulheres".

A Economia da Mudança

Uma área em que o papa Francisco priorizou a colocação de mulheres em cargos de liderança foi a de finanças e economia, especialmente no ano passado, quando as economias mundiais sofreram por causa dos fechamentos da Covid-19 e a pandemia lançou as disparidades de riqueza em grande relevo. O papa acredita que as economistas têm uma perspectiva única que lhes dá a capacidade de liderar o mundo em um futuro econômico pós-pandemia mais brilhante.

Em 2020, Francisco nomeou seis economistas para o Conselho de Economia do Vaticano, que supervisiona as atividades financeiras das entidades do Vaticano. Sete lugares no conselho são reservados para leigos e oito para clérigos. Foi a primeira vez que uma mulher foi nomeada para o conselho, que o papa formou em 2014 para ajudar na revisão em curso das finanças atribuladas pelo escândalo do Vaticano.

"Escolhi essas mulheres em particular por causa de suas qualificações, mas também porque acredito que as mulheres em geral são muito melhores administradoras do que os homens", disse o papa em seu livro Vamos sonhar juntos, que apresenta sua visão de um mundo transformado e melhor após a experiência da pandemia.

Francisco mencionou como as nações com chefes de Estado "em geral reagiram melhor e mais rapidamente do que outras, tomando decisões com rapidez e comunicando-as com empatia" e continuou citando o trabalho de duas economistas, a dra. Mariana Mazzucato, da University College London e Kate Raworth da Universidade de Oxford. O papa Francisco elogiou a disposição das mulheres de irem "além da polarização do capitalismo de livre mercado e do socialismo de Estado" para imaginar uma economia que – usando o modelo "donut" de Raworth – evita que os pobres caiam no "buraco" da miséria enquanto permanecem dentro dos limites finitos do que é ambientalmente sustentável.

Tanto Raworth quanto o Mazzucato foram contratadas como consultoras da Comissão Covid-19 do Vaticano, que se concentra na resposta humanitária da Igreja à pandemia, analisa os elementos ecológicos da crise, comunica a visão do Vaticano sobre o caminho a seguir e trabalha com outras nações para promover a cooperação internacional em direção a essa visão. Em agosto de 2021, o papa Francisco nomeou Alessandra Smerilli, uma economista italiana e membro das Irmãs Salesianas de Dom Bosco, como secretária interina da comissão, tornando-a uma das mulheres com os cargos mais altos do Vaticano.

"Se você estuda economia em quase qualquer universidade do mundo, e sinto dizer que ainda é verdade, é provável que na primeira aula, o professor diga 'Bem-vindo à economia, aqui está a oferta e a demanda do mercado'". E começamos com o mercado. Por que começamos com o mercado? Quero dizer, 'economia' vem do grego antigo: 'eco' 'nomos': a arte da administração doméstica. Que bela ambição, ter como objetivo administrar nossa casa planetária no interesse de todos os seus habitantes! Se isso for economia, estou dentro", disse Raworth.

O papa Francisco tem sido criticado ao longo dos anos por usar, às vezes, uma linguagem desatualizada para descrever as mulheres, mas ele respondeu esses comentários em Vamos sonhar juntos, ecoando o sentimento de Raworth. Francisco diz que "dona de casa" ou "ama de casa" em espanhol carrega o sentido de "a arte de administrar a casa".

O papa escreveu que acredita que o que diferencia as economistas que promoveu de outras é que "a perspectiva delas nasceu de sua experiência prática com a economia 'real', e dizem ter aberto seus olhos para a inadequação dos livros padrão de economia. Muitas vezes, era seu trabalho não remunerado ou informal, sua experiência de maternidade ou de administração de suas famílias, além do trabalho acadêmico de alto nível, que as tornava cientes nos modelos econômicos dominantes dos últimos setenta anos."

Quando questionada sobre sua opinião dessa análise, Raworth parou por um momento para refletir sobre a questão. Disse que ficou impressionada com a quantidade de economistas e teóricos mulheres que a influenciaram, que "saíram da rota tradicional da academia". Um exemplo que ela citou é a escritora Janine Benyus, que popularizou o termo "biomimética", a ideia de estudar processos naturais e aplicá-los para resolver problemas humanos modernos com o objetivo de sustentabilidade ambiental.

Falando sobre as mulheres que a inspiraram, Raworth acrescentou: "Acho que muitas delas são excluídas, para ser honesta. Eu acho que estão vindo de fora, tomando um caminho diferente, e estão vendo algo que o mainstream não consegue ver."

Raworth disse que, em vez de falarmos de algum tipo de "gênio feminino" com o qual as mulheres nascem, sua experiência do mundo as prepara desde cedo para ver a economia de forma diferente. "Quando você é uma menina em desenvolvimento, espera-se que você se imagine tornando-se mãe um dia. Então você se imagina talvez tendo uma carreira e estando envolvida no mundo do trabalho remunerado, mas com certeza também se imagina envolvida no mundo do trabalho não remunerado", acrescentou Raworth. "Mulheres e homens podem ser iguais, mas ainda pode haver algo único na perspectiva das mulheres, porque elas foram excluídas ou porque o trabalho doméstico é feito para elas, da mesma forma que pessoas de todas as raças são iguais, mas as pessoas não brancas têm algo que podem ver por causa de sua experiência vivida de racismo."

"Somente quando trouxermos todas essas perspectivas, teremos uma perspectiva totalmente arredondada da economia", continuou Raworth, "e a beleza disso é que ninguém pode, portanto, ver tudo. Precisamos trabalhar em grandes equipes, equipes diversas."

O papel central da sinodalidade

Murray, a assessora de imprensa do Vaticano, disse que a colaboração em diversas equipes é a chave para seu trabalho no Vaticano. Quando trabalhou pela primeira vez na Rádio Vaticano, havia funcionários de 40 países diferentes. "Todo o Vaticano é multicultural", disse, acrescentando "Esse espírito de colaboração aumentou muito ao longo dos anos, e não acho que o fato de ser mulher ou homem seja influente; é apenas uma questão de experiência e confiança mútua, que é construída ao longo de anos de trabalho árduo."

A irmã Becquart, subsecretária do Sínodo dos Bispos, disse que sua nomeação foi um sinal de que a "mentalidade patriarcal do Vaticano está mudando" acredita que ser mulher em uma instituição historicamente dominada por homens é influente, especialmente em seu departamento, que foi definido para representar os bispos do mundo.

Com base em sua experiência de trabalho para a Conferência dos Bispos da França por mais de uma década e como a primeira mulher consultora do Sínodo dos Bispos para o Sínodo dos Jovens em 2018, a irmã Becquart disse que os bispos com quem ela trabalhou "realmente sentiram que hoje em dia se você simplesmente juntar sempre as mesmas pessoas, terá apenas uma parte da visão. E, portanto, sinto que ter sido nomeada para o cargo na estrutura do Sínodo dos Bispos fala da importância de ouvir o que chamamos de sensus fidei do povo".

A irmã Becquart é uma especialista em sinodalidade, o modelo de governança defendido no Concílio Vaticano II e defendido pelo papa Francisco, no qual bispos e leigos falam livremente – com parrhesia, ou ousadia, como o papa Francisco costuma dizer – sobre os problemas que enfrentam comunidades e onde acreditam que o Espírito Santo pode estar chamando-as, com o objetivo de tomar decisões em conjunto.

Depois de reconhecer, no primeiro ano de seu pontificado, que o Sínodo dos Bispos estava aquém do modelo que o Concílio Vaticano II exigia, o papa Francisco instituiu um colégio de conselheiros cardeais que sugeriu que poderiam eventualmente ser eleitos pelo Sínodo de Bispos e anfitriões de sínodos de alto nível sobre a família, os jovens e a Amazônia em Roma. Francisco nomeou um punhado de mulheres, incluindo a irmã Becquart, como consultoras para os sínodos sobre os jovens e a Amazônia. Agora, com sua nomeação como subsecretária do Sínodo dos Bispos permanente do Vaticano, a irmã Becquart provavelmente será a primeira mulher a votar em uma assembleia sinodal. A extensão dos direitos de voto a mais mulheres, que as superioras de várias ordens religiosas, bem como alguns grupos de defesa católica, vêm solicitando há anos, está agora sob consideração no Vaticano e, de acordo com observadores do Vaticano como o americano Gerard O'Connell, poderia ser concedido já em 2023, quando a fase final do processo sinodal global sobre a sinodalidade aconteça em Roma.

Embora uma votação esteja envolvida, a sinodalidade não é necessariamente um processo de democratização, já que as decisões finais ainda cabem ao Sínodo dos Bispos e, em última instância, ao papa. O papa Francisco às vezes usou seu papel para rejeitar as recomendações da maioria, como a recomendação do Sínodo sobre a Amazônia de que os homens casados sejam autorizados a serem ordenados, porque não houve consenso suficiente sobre o assunto ou porque as opiniões estiveram totalmente divididas.

Enquanto cursava a licenciatura em teologia sagrada na Escola de Teologia e Ministério do Boston College, a irmã Becquart escreveu sua tese sobre a sinodalidade, que acredita ser a chave para resolver as disparidades de gênero na Igreja. Partindo do ponto em que todas as pessoas são criadas iguais, "a sinodalidade significa livrar-se de um padrão de dominação e separação, para entrar neste sistema de cooperação e interdependência, de interconexão entre todos", disse a irmã Becquart à América.

"Com o Vaticano II redescobrimos, podemos dizer, o primado da chamada batismal. No importante decreto da 'Constituição sobre a Igreja' ('Lumen Gentium'), houve uma escolha deliberada de colocar o capítulo sobre o povo de Deus, Capítulo 2, antes do capítulo sobre a hierarquia", disse a irmã Becquart. Para a religiosa, essa chamada batismal respeita a diversidade de vocações que as pessoas têm e, ao mesmo tempo, exige que pessoas de todas as vocações possam ser ouvidas nos processos de tomada de decisão da Igreja. Essa visão, diz ela, ainda não foi totalmente realizada.

A irmã Becquart acredita que a sinodalidade, devidamente entendida, incorpora todas as vozes – incluindo pessoas de outras religiões ou sem religião alguma. Becquart defende que uma atenção especial deve ser dada aos jovens e àqueles que estão à margem da sociedade, que no passado foram deixados de fora das decisões centrais da Igreja. "Durante tantos anos, tivemos essa experiência e esse padrão, que era bastante clerical, e não terminamos de colher os frutos do Vaticano II", disse a irmã Becquart. "É um longo caminho para se livrar dessa mentalidade patriarcal e ter verdadeira igualdade, reciprocidade e respeito mútuo entre homens e mulheres, mas a sociedade está mudando e a Igreja, através do batismo, todos os batizados são iguais em dignidade. A sinodalidade tenta implementar esta igualdade fundamental que não suprime a diversidade de ministério, de papéis, o cargos, de pastores e bispos, mas você vive isso como um serviço, um serviço da comunidade em que todos são iguais".

Publicado por America


Tradução: Ramón Lara

*Colleen Dulle é editora associada na América e co-apresentadora do podcast "Inside the Vatican". Siga-a: @colleenDulledulle @americamedia.org



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