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28/09/2021 | domtotal.com

Cenas de um casamento: a eterna batalha

Remake de Bergman substitui o amor pela indiferença

Jessica Chastain e Oscar Isaac em 'Cenas de um casamento'
Jessica Chastain e Oscar Isaac em 'Cenas de um casamento' (HBO)

Alexis Parrot*

Recebendo indicações do caminho a seguir, a atriz Jessica Chastain circula por um movimentado estúdio de filmagem até se posicionar na marcação da cena a ser gravada. Sua maquiagem é retocada, alguém lhe entrega a aliança que deve usar diante das câmeras, recebe um celular e retira os fones de ouvido, que passa rapidamente às mãos de um assistente. A claquete é batida, o diretor grita "ação" e ela, com o semblante já transfigurado, digita nervosamente no smartphone. Em um piscar de olhos, Chastain se transfigura e vira sua personagem. Ouve-se, afinal, a trilha sonora.

Assim, com ares brechtianos, começa o primeiro episódio de Cenas de um casamento, produção da HBO baseada na minissérie originalmente realizada por Ingmar Bergman para a televisão sueca em 1973.

Como que para atestar a urgência da obra, atualíssima nas máscaras de proteção cobrindo o rosto de toda a equipe, além de declaração de vínculo com o tempo presente, o artifício metalinguístico lembra a introdução de Tio Vanya em Nova York, filme notável de Louis Malle.

No interior de um teatro da Broadway em ruínas, um grupo de atores se prepara para mais um ensaio da célebre peça de Tchékhov. Enquanto a trupe ainda está tomando café e se preparando para o início dos trabalhos, dois dos atores, entretidos em uma conversa banal, engatam o primeiro diálogo do texto e, sem aviso, já são o médico Astrov e a velha ama Marina. Uma vez borradas as fronteiras entre real e encenação, somos tragados para dentro da história com mais força, mais cúmplices do que assistentes passivos.

Dado o tom intimista da minissérie, é bem-vinda esta convocação para que entremos a bordo do casamento em vias de naufrágio dos protagonistas. Porém, com a repetição do expediente nos episódios seguintes, a estratégia perde força e o que era trunfo torna-se truque barato, já sem muito sentido de existir.

Fiel à estrutura e estilo teatral da obra original,  o primeiro episódio se resume às mesmas quatro cenas imaginadas há quase 50 anos atrás: uma entrevista, um jantar com o casal de amigos, uma conversa no leito matrimonial e o desfecho em uma clínica médica. A supressão de um capítulo parece ter sido a única mudança efetuada, mantendo-se os cinco episódios remanescentes circunscritos nos dez anos após a separação do casal. 

Enxuto na ação e direto ao ponto, é o texto dos diálogos que faz avançar a narrativa. Fala-se muito como no original sueco (uma longa DR), mas os silêncios que Bergman usava tão bem se resumem agora às elipses entre um e outro episódio. E não foi apenas isso que se perdeu.

O que na origem pretendia ser uma crítica feroz à instituição pequeno burguesa do casamento e da falsa impressão de segurança proporcionada por ele, foi dissolvido e superficializado. Se em 1973 a exibição do programa fez aumentar exponencialmente a abertura de processos de divórcio na Suécia, dessa vez o impacto do remake nos nossos costumes deverá ser pífio.

Ainda que seja cada vez mais recorrente o modelo de casal em que a mulher trabalha e provê o sustento da casa, deixando o marido à frente dos serviços domésticos do dia a dia, é difícil nos identificarmos com os personagens - pela maneira como foram construídos. Um judeu ortodoxo em eterna crise existencial-religiosa e uma executiva milionária do ramo das startups tecnológicas. Você conhece alguém como eles? Eu também não.

Em nome de uma pretensa atualização, fala-se de maneira breve e rasa de poliamor e relacionamentos abertos, tentando-se atingir um colorido de contemporaneidade. Mas há algumas boas sacadas. Se antes pedia-se que o casal protagonista determinasse o sentido da palavra "felicidade", agora a palavra eleita é "sucesso"; uma boa mostra do que se tornou essencial com o passar dos anos.

O que a série tem de melhor é aquilo que copia mais fielmente de sua matriz. O ato patético de arrumar a mala daquele que está partindo; como um e outro se define perante a entrevistadora; o choro desesperado com a cabeça coberta por um lençol, magnífico ícone para representar a vergonha, a dor do desamparo e da solidão.

As questões existenciais ficam em segundo plano e o roteiro que era baseado em arquétipos se perde em lugares comuns. Toda a insegurança que migrava, ora para o marido, ora para a mulher, se torna mero ressentimento e, apesar de todo o drama da separação, o registro é mais cínico do que qualquer outra coisa. Bergman postulou que o casamento era um impedimento ao amor; no remake o amor nem chega a ser discutido, a decepção é o tema principal.

Mesmo com boas interpretações de Jessica Chastain e Oscar Isaac, e da evidente química entre os dois, falta algo de íntimo a ligar seus personagens; não se vê o amor - apenas o precipício e a indiferença. Esperava-se mais de Hagar Levi, criador da série e responsável pelo sucesso The Affair, que tratou de temas correlatos com muito mais desenvoltura e delicadeza.

Apesar das falhas, Cenas de um casamento merece uma olhada, nem que seja para nos lembrar do óbvio que esquecemos tantas vezes: as expectativas podem criar e destruir relacionamentos; o amor não precisa ser uma ilusão e por mais que não nos descuidemos, um casamento está sempre por um fio.         

(CENAS DE UM CASAMENTO - Episódios semanais aos domingos às 22:00 na HBO; disponível no HBO MAX)

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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