Cultura

04/10/2021 | domtotal.com

E Deus fez o amor

Todo domingo lá está o nosso Zé, pensando em um jeito de vencer a timidez e se aproximar de Mariazinha

Acaba que o nosso Zé passa a gostar de ir à missa
Acaba que o nosso Zé passa a gostar de ir à missa (Unsplash/Jacky Watt)

Afonso Barroso*

Não me lembro o nome, mas como não quero contar o milagre sem identificar o santo, vou chamá-lo de Zé. Não um zé-ninguém ou zé-mané ou zé-dendágua, mas um Zé maiúsculo, protagonista do episódio mais lembrado e comentado da paróquia.

Sucedeu que o nosso Zé se viu atraído por uma garota (que vou ter de chamar de Mariazinha) e não sabia como abordá-la. Ela morava a alguns quarteirões da casa dele, mas raramente era vista nas ruas do bairro. Aos domingos, por ser de família católica, ia sempre à missa na igreja do bairro, a Igreja de Nossa Senhora do Amor Divino.

Zé, o nosso Zé, não tem religião, embora acredite piamente em Deus. Para ele, o que vale é a fé no Deus do Céu e da Terra, aquele que a tudo preside e tudo comanda. Nunca dorme sem rezar um Pai Nosso. Nunca deixa de agradecer pelas vitórias e pedir proteção para evitar derrotas. Mas nunca foi chegado a praticar uma religião qualquer, porque acha desnecessário.

Agora, porém, se vê impelido a ir à missa aos domingos, só pra ver se acha um jeito de se aproximar de Mariazinha. Dito e feito, passa a frequentar a missa, onde vê a bela garota sentadinha sempre no mesmo banco, no mesmo lugar, e atenta à cerimônia.

Todo domingo lá está o nosso Zé, pensando em um jeito de vencer a timidez e se aproximar de Mariazinha. Precisa criar coragem, e é isso agora o que mais pede a Deus.

Domingos e missas vão se sucedendo. Terminada a celebração ela vai embora, ele também.

Acaba que o nosso Zé passa a gostar de ir à missa. Da atração pela Mariazinha nasce o gosto pela cerimônia religiosa, muito por causa do celebrante, que ficou sabendo chamar-se padre Lauro. Um padre ao mesmo tempo piedoso e eloquente, profundo conhecedor da palavra de Cristo, palavra que interpreta com sabedoria a cada sermão, abrindo caminhos à fé e à esperança dos fiéis.

E todo domingo lá está o nosso Zé, dividido entre Deus e Mariazinha. Já sabe acompanhar a missa nas suas nuanças e orações e movimentos. Sabe a hora de sentar-se, de ficar de pé, de se ajoelhar. É agora um católico praticante, a absorver com interesse as parábolas e os ensinamentos dos Evangelhos.

Não seria verdade dizer que o nosso Zé esqueceu Mariazinha. Muito ao contrário, a cada missa, a cada oração, ele pede a Deus que lhe dê coragem de se aproximar dela, declarar seu amor e, se possível, fazer com que ela também goste dele.

Até que num certo domingo, dia de Pentecostes, suas preces são atendidas à moda de Deus, sem explicação plausível. Acontece de repente, na hora da Consagração, ele ajoelhado, contrito e atento, mãos postas, olhos fechados. Quando o celebrante pronuncia as palavras mágicas e ergue a taça do vinho que simboliza o sangue de Cristo, o nosso Zé sente algo a roçar-lhe os braços. Olha de esguelha e o coração dispara.

É doce o milagre: Mariazinha ali está, bem ao seu lado, encostada nele. Olham-se e, num apelo inesperado de corações em chama, beijam-se apaixonadamente, sem se importar com o espanto em redor. Mas logo a igreja inteira rompe o silêncio e prorrompe em aplausos.

Do alto do altar, Padre Lauro abençoa o casal in nomine patris, como se aquele beijo fizesse parte da liturgia. E a celebração do domingo de pentecostes passa a ser conhecida entre os paroquianos como a Missa do Beijo.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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