Religião

03/10/2021 | domtotal.com

Relacionamentos não acabam de uma hora para outra, mas aos poucos

Reflexão sobre o Evangelho do 27º Domingo Comum, Marcos 10,2-16

Certas crises não se resolvem sem generosidade e espírito de nobreza
Certas crises não se resolvem sem generosidade e espírito de nobreza (Unsplash/Kelly Sikkema)

José Antonio Pagola*
RD

Hoje fala-se cada vez menos de fidelidade. Basta ouvir certas conversas para constatar um clima muito diferente: "Passamos as férias cada um por sua conta", "o meu marido tem uma paquera, tive dificuldade em aceitá-la, mas o que poderia fazer? ", "é que sozinha com o meu marido me entedio".

Alguns casais consideram que o amor é algo espontâneo. Se brota e permanece vivo, tudo vai bem. Se arrefece e desaparece, a convivência torna-se intolerável. Então, o melhor é separar-se "de forma civilizada".

Nem todos reagem assim. Há casais que percebem que já não se amam, mas continuam juntos, sem que possam explicar exatamente o porquê. Só se perguntam até quando poderá durar esta situação. Há também aqueles que encontraram um amor fora do seu casamento e estão tão atraídos por essa nova relação que não querem renunciar a ela. Não querem perder nada, nem o seu casamento nem esse amor extraconjugal.

As situações são muitas e com frequência muito dolorosas. Mulheres que choram em segredo o seu abandono e humilhação. Maridos que se entediam numa relação insuportável. Crianças tristes que sofrem a falta de amor dos pais. Estes casais não precisam de uma "receita" para sair da sua situação. Seria demasiado fácil. O primeiro que lhe podemos oferecer é respeito, escuta discreta, alento para viver e, talvez, uma palavra lúcida de orientação. No entanto, pode ser oportuno recordar alguns passos fundamentais que sempre é necessário dar.

A primeira coisa é não renunciar ao diálogo. Há que esclarecer a relação. Revelar com sinceridade o que sente e vive cada um. Tratar de entender o que se oculta por trás desse mal-estar crescente. Descobrir o que não funciona. Dar nome a tantos agravos mútuos que se foram acumulando sem nunca serem elucidados.

Mas o diálogo não basta. Certas crises não se resolvem sem generosidade e espírito de nobreza. Se cada um se encerra numa postura de egoísmo mesquinho, o conflito agrava-se, os ânimos crispam-se e o que um dia foi amor pode converter-se em ódio secreto e mútua agressividade.

Há que recordar também que o amor se vive na vida comum e repetida do quotidiano. Cada dia vivido juntos, cada alegria e cada sofrimento partilhados, cada problema vivido como um casal, dão consistência real ao amor. A frase de Jesus: "O que Deus uniu, que não o separe o homem", tem as suas exigências muito antes de que chegue a ruptura, pois os casais vão-se separando pouco a pouco, na vida de cada dia.

Publicado originalmente por RDe traduzido por IHU

*José Antonio Pagola é padre e tem dedicado a sua vida aos estudos bíblicos, nomeadamente à investigação sobre o Jesus histórico. Nascido em 1937, é licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma (1962), licenciado em Sagradas Escrituras pelo Instituto Bíblico de Roma (1965), e diplomado em Ciências Bíblicas pela École Biblique de Jerusalém (1966). Professor no seminário de San Sebastián (Espanha) e na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha (sede de Vitória), foi também reitor do seminário diocesano de San Sebastián e vigário-geral da diocese de San Sebastián.



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