Meio Ambiente

04/10/2021 | domtotal.com

Futuro incerto da humanidade: Como limitar o aquecimento global a +1,5 grau?

Redução pela metade na emissões de CO2 até 2030 é o primeiro passo, mas caminho para atingir tais metas é considerado bem 'espinhoso' por envolver escolhas radicais

Manifestante faz referência ao limite de +1,5 estipulado no Acordo de Paris sobre o Clima de 20-15, em protesto na cidade alemã de Frankfurt am Main, em 13 agosto de 2021
Manifestante faz referência ao limite de +1,5 estipulado no Acordo de Paris sobre o Clima de 20-15, em protesto na cidade alemã de Frankfurt am Main, em 13 agosto de 2021 (Aramndo Babani/AFP)

A ciência é clara: para limitar o aquecimento global a +1,5 grau, devemos primeiro reduzir as emissões de CO2 pela metade até 2030. O caminho para esse objetivo é mais espinhoso, porém, porque envolve um leque de escolhas radicais para transformar todos os setores da economia.

De acordo com o relatório de 2018 dos especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), para se respeitar o objetivo ideal do Acordo de Paris e, portanto, não ultrapassar +1,5 grau em comparação com a era pré-industrial, o mundo deve reduzir as emissões de CO2 em 45% até 2030, em comparação com 2010, e continuar seus esforços para alcançar a neutralidade de carbono por volta de 2050.

O que isso significa para a economia e para nosso estilo de vida? "Temos que transformar tudo, de uma forma muito radical", responde Henri Waisman, um dos autores deste relatório. "Mudar a forma como produzimos e consumimos energia, a forma como produzimos os principais bens industriais, a forma como nos movemos, a forma como nos aquecemos, a forma como comemos", explica.

Por onde começar?

Diante dessa tarefa titânica e assustadora, pode-se ficar tentado a enfrentar uma coisa de cada vez. Não há tempo para isso, insistem os especialistas. "Devemos fazer tudo ao mesmo tempo e imediatamente", diz Anne Ohloff, uma das autoras do relatório anual da ONU-Meio Ambiente, que mede a lacuna entre os compromissos dos Estados e as reduções reais de emissões.

Energia, agricultura, construção, transporte, indústria e florestas: de acordo com a ONU-Meio Ambiente, esses seis setores têm um potencial que, em conjunto, pode reduzir as emissões de todos os gases de efeito estufa (CO2, metano, NO2, etc., todos medidos em CO2 equivalente) em cerca de 25 gigatoneladas por ano em 2030, na comparação com quase 60 ao todo, por ano, nos dias atuais.

Energia, o ponto nevrálgico

Apesar de tudo, se tivéssemos de começar de algum lugar, a produção de eletricidade - um importante setor de emissões - parece um bom ponto de partida.

"Por ser o setor com maior potencial de redução e por termos as tecnologias para isso, é, antes de tudo, uma questão de vontade política", considera Anne Ohloff. A eletricidade sem carbono também teria um impacto positivo em todos os setores.

No centro dessa transição, está o carvão. "As usinas a carvão, que respondem por 40% das emissões da geração de energia, devem ser eliminadas em duas décadas", argumenta Matthew Gidden, pesquisador da Climate Analytics.

Qualquer nova construção deve, portanto, ser abandonada, e as instalações existentes, fechadas. Estatisticamente, "isso significa fechar duas fábricas a cada três semanas" na União Europeia (UE), ou "uma por semana" na China, disse.

O roteiro da Agência Internacional de Energia (AIE) prevê a neutralidade de carbono no setor elétrico para 2040, o que significa instalar quatro vezes mais capacidade solar e eólica até 2030 do que em 2020, um ano recorde.

Transporte, agricultura, indústria

Mas a eletricidade verde não é suficiente. Todos os setores devem encarar sua transição de frente, explicam os especialistas. Nos transportes, a AIE preconiza, em particular, o fim da venda de novos veículos de combustão em 2035.

Na agricultura, deve-se atacar os pesticidas responsáveis pelas emissões de dióxido de nitrogênio (NO2) e "mudar as dietas, comendo menos carne", insiste Matthew Gidden, referindo-se, em particular, à carne bovina, uma vez que as vacas geram emissões significativas de metano.

Sem esquecer a renovação energética das habitações e o desenvolvimento de novos processos produtivos em diversos setores industriais, como o do aço e do concreto. E o fim do desmatamento e a restauração de solos e florestas, sumidouros naturais de carbono.

Várias escolhas, uma 'visão'

Em quaisquer dos casos, não existe uma solução rápida, nem um caminho único. "É uma questão de escolha. Não há caminho que não devamos escolher", disse Joeri Rogelj, da Imperial College London.

São escolhas individuais, mas também da sociedade, sobre a energia nuclear, a bioenergia, as tecnologias de absorção de carbono ainda por inventar. E precisamos de "liderança e visão", continua ele, enfatizando o papel "essencial" dos governos.

O pesquisador tenta tranquilizar o que têm medo dos "sacrifícios" exigidos por essas mudanças radicais.  "Sim, teremos que mudar partes das nossas vidas, mas, provavelmente, para um estilo de vida melhor e mais saudável, com menos poluição do ar", afirma. Nada a ver com o fardo causado pela pandemia da Covid-19.

Mudanças climáticas e as catástrofes em série

"Cúpula de calor" sobre a América do Norte, inundações na Europa Ocidental, incêndios florestais no Mediterrâneo, furacão devastador nos Estados Unidos. Tantas catástrofes recentes "seriam impossíveis sem as mudanças climáticas causadas pelo homem", advertiu o secretário-geral da ONU, António Guterres, em meados de setembro.

Atribuir esse tipo de evento diretamente ao aquecimento é complexo, mas os fenômenos registrados e seu aumento estão em linha com as grandes tendências esperadas pelos especialistas. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o número de desastres se multiplicou por cinco em 50 anos.

Incêndios recordes

O oeste americano, a Sibéria ou o Mediterrâneo (pelo menos 90 mortos na Argélia) sofreram incêndios violentos e repetidos nos últimos meses, que causaram emissões recordes de CO2 em julho e agosto, de acordo com o Serviço Europeu de Observação da Terra Copernicus.

A agência enumera os efeitos do aquecimento: condições mais secas e quentes que aumentam o risco de início de incêndios e a inflamabilidade da vegetação. Até vimos "incêndios zumbis" ressurgindo na Sibéria, depois de terem ocorrido de um ano para o outro sob um solo que não tem mais um congelamento suficientemente profundo.

O consórcio de pesquisadores World Weather Attribution (WWA, que se especializou nesses estudos de "atribuição") estimou que a probabilidade de temporadas severas de incêndios que a Austrália experimentou nos últimos anos aumentou 30% desde 1900, devido ao aquecimento.

Onda de calor

No final de junho, o Canadá e o oeste americano sufocaram sob uma "cúpula de calor" que matou dezenas de pessoas. Um episódio "quase impossível" sem os efeitos das mudanças climáticas, segundo esta organização. E que também favoreceu os incêndios.

Em 2019, o consórcio WWA já havia calculado que o aquecimento tinha somado 3 graus à forte onda de calor de verão que atingiu a Europa. Globalmente, os anos desde 2015 foram os mais quentes já registrados.

Ondas de calor extremas têm 4,1 vezes mais probabilidade de ocorrer a +1,5 grau; 5,6 vezes, a +2 graus; e 9,4 vezes mais, a +4 graus. Para picos de calor ainda mais intensos e raros, os números aumentam para 8,6 vezes mais probabilidade a +1,5 grau; 13,9 vezes, a +2° e 39,2 vezes a +4 graus. Em termos de populações ameaçadas, 14% dos humanos estarão expostos pelo menos uma vez a cada cinco anos a +1,5°, mas 37%, a +2°.

Inundações

O aquecimento influencia diretamente o regime de chuvas, que vão aumentar nas altas latitudes dos hemisférios norte e sul, nos trópicos e em muitas áreas de monções, mas vão se tornar escassas nas áreas subtropicais, ameaçadas por secas recorrentes.

No atual nível de aquecimento, a ocorrência de precipitação extrema é 1,3 vez mais provável do que na era pré-industrial; 1,5 vez, a +1,5 grau, 1,7 vez, a +2 graus; e 2,7 vezes, a +4 graus. Quanto à intensidade dos episódios, o aumento é exponencial: 6,7% mais úmido hoje; 10,5% mais, a +1,5 grau; 14%, a +2 graus; e 30%, a +4 graus.

Em julho, Alemanha e Bélgica sofreram inundações catastróficas, com mais de 200 mortos e bilhões de euros em danos. Um episódio que viu sua probabilidade de ocorrência aumentar de 20% para 900% por causa do aquecimento, ainda segundo a WWA.

A intensidade do fenômeno também foi ampliada, chegando a 19% a mais de precipitação. O aumento da temperatura da atmosfera de fato aumenta mecanicamente a umidade que ela pode conter.

Furacões e monções

Não está estabelecida a influência do aquecimento no desencadeamento de tempestades tropicais, mas o aumento do calor do mar fornece um "combustível" que aumenta sua intensidade.

No início de setembro, resquícios do furacão Ida subiram da costa leste dos Estados Unidos para a região de Nova York, causando uma inundação espetacular no metrô e matando 47 pessoas. No total, segundo a OMM, seus danos poderiam ultrapassar os do Katrina (2005), até então o furacão mais custoso com US$ 163 bilhões em danos.

O furacão Harvey, que atingiu o Texas em 2017 e continua sendo o segundo furacão mais caro (mais de US$ 95 bilhões em danos), teve 3,5 vezes mais probabilidade de ter tal intensidade, de acordo com um estudo, devido às mudanças climáticas.

Em países pobres, onde esses fenômenos costumam matar muito mais pessoas, a WWA estimou que as inundações em Bangladesh durante a devastadora monção de 2017 tiveram até o dobro de probabilidade de ocorrer, devido às mudanças climáticas. Este fator aumentará, se nada mudar.

Fome e sede

Vários anos de seca em Madagascar causaram fome e mergulharam os moradores em um "filme de terror", a ponto de terem que comer lama, denunciaram as agências de ajuda da ONU em junho. Segundo elas, trata-se de uma crise provocada pelo aquecimento global.

Em 2018, os 3,7 milhões de habitantes da Cidade do Cabo, na África do Sul, viveram sob a ameaça de um "dia zero" sem água corrente. Em outras partes do continente, a alternância de variações climáticas extremas na África Oriental favoreceu, de acordo com especialistas, uma invasão de gafanhotos que ameaça milhões de pessoas.

Em um mundo a +2 graus, de 7% a 10% das pastagens desaparecem, com fortes consequências econômicas e sociais. As produções agrícolas também sofrem. Nos trópicos, as colheitas de milho caem 3%, a +1,5 grau, e 7%, a +2 graus.

Em abril, dois dos vinhedos mais prestigiosos da França, Burgundy e Champagne, foram atingidos por intensas geadas tardias, e mais de dois bilhões de euros em faturamento, perdidos. De acordo com a WWA, é "cerca de 60%" mais provável que tal evento ocorra durante um período de floração.

Uma pandemia por ano?

A queda nas emissões registradas em 2020 pelo confinamento e pelo desligamento da economia é da mesma ordem de magnitude que a redução média anual das emissões de gases de efeito estufa que seria necessária entre 2020 e 2030, ou -7,6% segundo a ONU.

"É um pouco enganador", estima Henri Waisman. "Não vamos ter uma redução nas emissões da noite para o dia", mas "devemos estabelecer hoje todas as condições para que caiam o mais rápido possível", insiste. "Parar as economias não é a solução", acrescenta Anne Ohloff. "Temos que mudar as economias", completa.

Todas essas mudanças têm efeitos diretos sobre os seres vivos em todas as suas formas, com 7% dos ecossistemas sendo modificados a +1,5 grau; e 13%, a +2 graus. Resultado, 6% dos insetos, 8% das plantas e 4% dos vertebrados têm seus habitats reduzidos em 50% na primeira hipótese. Estes números sobem para 18% dos insetos, 16% das plantas e 8% dos vertebrados a +2 graus. A +4 graus, metade das espécies animais e vegetais estaria ameaçada.


AFP/Dom Total



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