Economia

04/10/2021 | domtotal.com

Com queda nas ações e dívidas, chinesa Evergrande suspende operações na Bolsa

Grupo imobiliário reconhece possibilidade de calote e analistas temem 'contaminação'

Sede da Evergrande em Xangai: valor das ações despencou 80% desde o início do ano
Sede da Evergrande em Xangai: valor das ações despencou 80% desde o início do ano Foto (Hector Retamal/AFP)

O grupo imobiliário chinês Evergrande, que enfrenta grandes dificuldades, suspendeu nesta segunda-feira (4) as operações na Bolsa de Hong Kong sem apresentar um motivo. As ações da empresa registraram queda de quase 80% desde o início do ano, com o grupo à beira de um colapso por uma dívida gigantesca.

"A negociação de ações do Grupo China Evergrande será interrompida", afirmou um comunicado da Bolsa. "Assim, o comércio de todos os produtos relacionados com a empresa será suspenso ao mesmo tempo".

As ações da empresa de veículos elétricos do grupo, que na semana passada desistiu de entrar na Bolsa de Xangai, não foram suspensas mas operavam em queda de 6% nas primeiras negociações.

Executivos da empresa lutam contra uma crise que provocou uma dívida de mais de US$ 300 bilhões, o que gera temores de contágio na economia chinesa, que alguns acreditam que poderia afetar o resto do planeta.

A empresa anunciou na semana passada que venderia suas ações por US$ 1,5 bilhão em um banco regional chinês para levantar capital, enquanto tenta pagar os juros aos proprietários de seus títulos.

As autoridades chinesas pediram aos governos locais que se preparem para um possível colapso da Evergrande, segundo informações da imprensa estatal, o que sugere que é pouco provável uma intervenção do governo para resgatar o gigante do setor imobiliário.

A empresa contratou especialistas, como a empresa de serviços financeiro Houlihan Lokey, que aconselhou a reestruturação do Lehman Brothers quando o banco faliu durante a crise financeira mundial de 2008, ao tentar evitar um colapso. Agências reguladoras da China também enviaram uma equipe de assessores financeiros para avaliar a empresa, de acordo com a imprensa oficial.

O grupo concordou em setembro em pagar juros sobre um título local, mas não há indicações sobre o pagamento de duas notas offshore, embora exista um período de carência de 30 dias antes de ser considerado inadimplente.

"A primeira obrigação será assegurar que as pessoas que compraram casas recebam o que adquiriram", disse Bruce Richards, presidente da Marathon Asset Management. "No fim da lista de prioridades estão os proprietários de títulos offshore".

A falta de liquidez provocou irritação pública e protestos diante dos prédios da Evergrande na China, com investidores e fornecedores exigindo seu dinheiro. O grupo admitiu que enfrenta "desafios sem precedentes" e advertiu que pode não ter condições de cumprir seus compromissos.

O mercado imobiliário chinês enfrenta um rigoroso escrutínio nos últimos meses, com base nas novas medidas do governo para evitar a especulação no setor e conter o endividamento.

ENTREVISTA COM ARTHUR KROEBER
Analista de mercado e consultor

Com US$ 300 bilhões em dívidas, a incorporadora imobiliária chinesa Evergrande tem balançado o mercado financeiro global com a possibilidade de entrar em falência. Já deixou de pagar juros de parte da dívida e, mesmo assim, o governo de Xi Jinping diz que não fará seu resgate.

Para Arthur Kroeber, fundador da consultoria Gavekal Dragonomics e autor do livro China's economy: What everyone needs to know (Economia chinesa: O que todo mundo precisa saber), a saída mais provável para esse imbróglio é que empresas estatais comprem ativos do conglomerado - como já está ocorrendo com um banco do grupo - e que credores sejam pagos conforme sua importância política. "Uma solução politizada." Kroeber destaca que o caso não deve desencadear uma crise no sistema financeiro, mas afirma que uma desaceleração da China vai ocorrer, prejudicando emergentes como o Brasil.

A Evergrande já deixou de pagar juros da dívida, mas o governo chinês continua afirmando que não vai salvá-la. Ao mesmo tempo, o Banco Central do país disse que ajudará os compradores de imóveis da empresa. Como avalia a situação atual da Evergrande?

O governo está tentando realizar algumas coisas. O objetivo é reduzir a especulação e o risco financeiro do mercado imobiliário, obrigando os incorporadores a contrair menos dívidas. A Evergrande é vítima dessa mudança de política do governo. A questão é: o governo vai intervir para salvar a Evergrande por ela ser muito grande e ter uma implicação sistêmica? Ou vai deixá-la fracassar e manter a agenda de reduzir os riscos no setor imobiliário? Acho que o que está tentando fazer é atingir o objetivo principal, mas minimizando o impacto do colapso da Evergrande. Está negociando com empresas estatais para que assumam projetos de construção da Evergrande e trazê-los para quem comprou os imóveis. Está tentando evitar o pânico entre os compradores. O problema é se ele vai deixar a Evergrande ir à falência. Ele não pode fazer isso sem criar um problema financeiro maior, mas também não quer fazer nada que pareça estar salvando a Evergrande.

O governo deve forçar um acordo entre empresas e credores?

É provável. O governo também está pressionando a empresa para ela arrecadar dinheiro com a venda de ativos e pagar pelo menos alguns dos credores. Meu palpite é que haverá uma aquisição de certos ativos da Evergrande por companhias estatais. A partir disso, eles devem classificar os credores de acordo com a importância política deles e pagá-los. Não completamente, mas uma parte. Uma solução politizada.

O senhor disse que a empresa foi "vítima" de uma mudança de política, mas ela também não errou?

Vítima no sentido de que tinha um modelo de negócios que funcionava bem em um determinado ambiente de políticas. Aí o ambiente mudou, e seu modelo de negócios deixou de ser adequado. Foi vítima não porque era alvo do governo, mas porque não estava preparada para uma mudança. Aí o governo disse: 'Cabe a você resolver seus problemas'.

Podemos ver outras empresas em situação semelhante à da Evergrande e gerando outras crises dessa magnitude?

A Evergrande é a maior incorporadora imobiliária. Mas há milhares de outras incorporadoras. É uma indústria muito fragmentada e muitas empresas estão inadimplentes. Se olharmos para o setor, a cada mês há pelo menos 1 bilhão de renmimbi (cerca de R$ 845 milhões) de inadimplência em títulos, o que é sem precedentes. Mas a maioria é de empresas menores. Se elas fecharem, não terá um impacto sistêmico. A questão é: se você tem a Evergrande e muitas dessas empresas em crise, isso cria um efeito cascata. Mas a preocupação seria maior se as pessoas parassem de comprar imóveis. Enquanto as pessoas continuarem comprando, as empresas ruins sairão do mercado, mas as boas ainda serão capazes de ganhar dinheiro, e o fluxo continua. Acho que é isso que o governo espera que aconteça. No entanto, pode haver um problema se os compradores olharem para o setor e disserem: 'Não quero dar uma entrada em um apartamento, porque não sei se essa empresa vai estar funcionando até terminar o apartamento; então, vou esperar'.

Alguns analistas estão comparando essa crise com a de 2008/2009. O senhor já disse que não é a mesma coisa. Se não vamos ter algo semelhante ao caso do Lehman Brothers (banco americano que faliu em 2008), o que devemos esperar?

A diferença é que o governo chinês tem a capacidade de intervir de maneira muito rápida. O governo também aprendeu a administrar colapsos corporativos, porque houve vários casos no país nos últimos cinco anos. O maior risco é uma desaceleração econômica mais acentuada do que imaginamos. As implicações disso para o resto do mundo seriam uma desaceleração significativa na demanda chinesa por commodities.

Além da queda na exportação de commodities, quais impactos países emergentes como o Brasil devem esperar?

Já vimos uma redução enorme no preço do minério de ferro. Isso está menos relacionado à Evergrande e mais ao fato de que o governo está tentando frear a capacidade de aço por questões ambientais. Mas, se você tem uma desaceleração na demanda imobiliária chinesa, o preço do minério de ferro cai. O quadro geral é de risco de desaceleração econômica, e isso é negativo para os preços das commodities na maioria dos casos. Portanto, será difícil para os mercados emergentes que dependem do comércio de commodities com a China.


AFP/Agência Estado/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.