Religião

06/10/2021 | domtotal.com

Sobre o Deus da teologia da retribuição

A relação com Deus não é uma relação contábil

Apesar de ser chamado Pai amoroso por muitos, vários  se relacionam com Deus como sendo retribucionista
Apesar de ser chamado Pai amoroso por muitos, vários se relacionam com Deus como sendo retribucionista (Unsplash/Kelly Sikkema)

Fabrício Veliq*

A teologia retribucionista é uma das mais presentes na Bíblia, tendo perdurado muito tempo na sociedade de Israel. Seus traços são perceptíveis tanto nos textos do Antigo Testamento quanto do Novo. Em síntese, ela afirma que Deus retribui com o bem àqueles e àquelas que fazem o bem e, com o mal, àqueles e àquelas que fazem o mal.

O capítulo 28 de Deuteronômio mostra essa mentalidade de forma muito clara. Seus primeiros 14 versículos trazem uma lista de bênçãos em decorrência da obediência da nação e seus outros 53 versículos, maldições que virão caso não se obedeça aos mandamentos de Javé. Em outras palavras, Deus estabeleceu uma aliança com seu povo de maneira que a este caberia obedecer aos mandamentos daquele a quem compete proteger Israel de seus inimigos.

No Novo Testamento, alguns textos, como o Apocalipse, resgatam essa visão retribucionista, mostrando um Deus que aniquila os ímpios por causa de sua maldade e dá o galardão aos justos. Contudo, esse tipo de compreensão da pessoa de Deus já havia sido questionado no próprio Antigo Testamento. Livros como e o Eclesiastes mostram muito bem que esse tipo de teologia não era verdadeira, uma vez que diversos justos recebiam males e muitas pessoas perversas eram bem-sucedidas.

À luz dos Evangelhos, a teologia retribucionista também não encontra guarita. Neles, Jesus apresenta Deus como Pai de todos e todas, que faz cair sua chuva sobre todos e todas, sejam bons ou maus, porque se trata do fruto de sua misericórdia e amor sem medidas, não do mérito humano. Nesse sentido, toda tentativa de colocar Deus como um contabilista, que fica calculando débitos e créditos em seu "livro caixa", para ao final conceder salvação ou condenação, não tem nada a ver com o Deus que Jesus revela.

Embora muito se fale a respeito do Evangelho de Jesus, ainda hoje é comum ouvirmos que uma desgraça aconteceu a determinada nação por causa de algum de seus pecados; ou ainda, que determinada pessoa não é abençoada porque está sem dar o dízimo, não orar ou qualquer outra coisa que não teria feito e que se julga demandada por Deus.

Tudo isso mostra que, apesar de ser chamado Pai amoroso por muitos, vários  se relacionam com Deus como sendo retribucionista, uma divindade que estaria sentada num trono observando todos os passos das pessoas para lhes "dar a paga" devida. Quando tal perspectiva é levada para o âmbito financeiro, prega-se que a ausência de riquezas é fruto do afastamento de Deus por quem está na pobreza. É disso que surgem charlatões da fé, com pregações baseadas na teologia da prosperidade, gerando riquezas para os grandes líderes de igrejas pseudopentecostais (considero esse nome melhor que neopentecostais, visto que muito do pentecostalismo se faz ausente em diversas dessas denominações seguidoras da teologia da prosperidade).

A partir de Jesus Cristo, percebemos que a relação demandada por Deus não é de medo, ou ainda, de contabilidade. Muito pelo contrário! Jesus revela um Pai que deseja se relacionar em amor com seus filhos e filhas e, portanto, quer a cada um livre de qualquer jugo ou imposição. No lugar da "justa retribuição", entra o transbordamento do amor livre de Deus, que convida a todas as pessoas a viverem uma nova vida por meio do seu Espírito.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG). É coautor do livro: Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras. Editora Saber Criativo. E-mail: fveliq@gmail.com. Site: www.fabricioveliq.com.br.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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