Religião

05/10/2021 | domtotal.com

Igreja na França encomenda relatório sobre abusos para sua reparação e é impactada

Papa Francisco terá audiência privada com o primeiro-ministro francês

François Devaux, fundador da associação de vítimas 'La Parole Libérée', fala durante a apresentação do relatório da comissão independente de abusos sexuais a menores de idade da Igreja Católica na França
François Devaux, fundador da associação de vítimas 'La Parole Libérée', fala durante a apresentação do relatório da comissão independente de abusos sexuais a menores de idade da Igreja Católica na França (Thomas Coex/AFP)

Mais de 216 mil menores de idade foram vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica da França desde 1950 - revela um aguardado relatório divulgado nesta terça-feira (5) por uma comissão independente, que mostra a dimensão do problema que já atingiu países como Estados Unidos e Austrália.

Padres e religiosos abusaram de 216 mil menores na França entre 1950 e 2020, mas o número alcança 330 mil quando levados em consideração os laicos que trabalharam nas instituições católicas, afirmou a Comissão Independente sobre os Abusos Sexuais na Igreja (Ciase).

Até o início dos anos 2000, a Igreja Católica francesa mostrou uma "cruel indiferença" com as vítimas dos abusos, que tiveram um "caráter sistêmico", destacou, durante a apresentação do relatório, o presidente da Ciase, Jean-Marc Sauvé, que já foi vice-presidente do Conselho de Estado.

Este católico praticante de 72 anos apresentou o relatório de mais de 2 mil páginas, que considerou "uma carga pesada tanto no sentido literal como figurado", à Conferência Episcopal (CEF) e à Conferência de Religiosos e Religiosas da França (Corref). Esta investigação foi solicitada por ambas as instituições.

A resposta do episcopado não demorou.

"Meu desejo no dia de hoje é pedir perdão", declarou o presidente da CEF, dom Éric de Moulins-Beaufort, que expressou "vergonha" e "determinação de atuar" com as vítimas.

Mais de 216.000 menores de idade foram vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica na França desde 1950, afirma relatório de comissão independente (Eric Cabanis/AFP)Mais de 216.000 menores de idade foram vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica na França desde 1950, afirma relatório de comissão independente (Eric Cabanis/AFP)

A França não é um caso isolado. Ao menos 3.677 crianças foram vítimas de abusos de religiosos na Alemanha entre 1946 e 2014, segundo um relatório de 2018. E, de acordo com advogados independentes, mais de 11 mil denúncias foram apresentadas nos Estados Unidos.

Outros escândalos explodiram no Chile, no Canadá e na Austrália. Em abril, especialistas com mandato da ONU, mas que não falavam em nome da organização, pediram uma ação ao papa Francisco e expressaram "grande preocupação" com as muitas acusações.

O pontífice argentino transformou a luta contra as agressões sexuais em uma de suas prioridades e publicou, em 2020, um manual para a gestão das denúncias na Igreja Católica.

"Retornam do inferno"

Os 22 membros da Ciase iniciaram os trabalhos em fevereiro de 2019, após uma série de escândalos. Entre eles, está o do padre Bernard Preynat, condenado em 2020 a cinco anos de prisão por abusos cometidos nos anos 1970 e 1980. Este caso inspirou o premiado filme Graças a Deus, de François Ozon.

"Vocês, membros da comissão, retornam do inferno", afirmou, durante a apresentação, François Devaux, fundador da associação de vítimas La Parole Libérée.

Em 2016, esta organização denunciou o caso de Preynat, diante da inação do cardeal Philippe Barbarin.

Os primeiros números revelados já demonstram um quadro de horror. Dos 115 mil padres ou religiosos homens registrados nos últimos 70 anos na França, havia "entre 2.900 e 3.200 pedófilos", disse Sauvé no domingo (3), ao destacar que esta é uma "estimativa mínima".

Além de avaliar o alcance dos fatos, os especialistas (advogados, teólogos, psicólogos, historiadores, entre outros profissionais) avaliaram a resposta da Igreja e apresentaram 45 propostas para se reconhecer a dor das vítimas, evitar outros casos e reformar o direito canônico.

"Quero que a Igreja reconheça esta violência extrema, que dê novas diretrizes aos clérigos, mas, sobretudo, que não vire a página", afirmou Jean-Marie, um homem de 82 anos que foi vítima de abusos por religiosos durante a infância.

A Ciase pede à Igreja que reconheça sua responsabilidade "sistêmica", que inicie cerimônias públicas para homenagear as vítimas e que deixe claro que o sigilo da confissão não cobre estes crimes, os quais devem ser denunciados à Justiça.

Outra recomendação é indenizar as vítimas pelos "danos sofridos", mas com o patrimônio dos agressores, ou da Igreja, e não com as contribuições dos fiéis.

"Vocês devem pagar por todos estes crimes", disse François Devaux.

Os fatos já prescreveram na maioria dos casos, e muitos de seus autores faleceram, o que torna improvável um recurso à Justiça. Para 2022, o episcopado francês prometeu indenizações financeiras, algo que não gera unanimidade entre as vítimas.

Papa Francisco

O relatório será examinado pelo Vaticano. O papa Francisco, que deve ter uma audiência privada em 18 de outubro com o primeiro-ministro francês, Jean Castex, já abordou a questão com bispos franceses em setembro.

O pontífice assume ter acolhido com tristeza as conclusões da investigação sobre abusos na Igreja Católica francesa. Numa declaração emitida pelo Vaticano, o papa dirige os seus primeiros pensamentos para as vítimas, manifestando "grande tristeza pelas suas feridas".

Por outro lado, Francisco assume, também, ter sentido gratidão pela coragem demonstrada ao denunciar tudo pelo que passaram. De acordo com a declaração da Santa Sé, os pensamentos do papa vão, ainda, para a Igreja de França, para que, na consciência do que diz ser uma terrível realidade, possa "embarcar num caminho de redenção".


AFP/Rádio Renascença/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!