Cultura TV

05/10/2021 | domtotal.com

Tony Soprano está de volta, 'capice'?

'The many saints of Newark' está à altura do legado da série?

O adolescente Tony Soprano (Michael Gandolfini, à esquerda) e seu mentor Dickie Moltisanti (Alessandro Nivola) em 'The many saints of Newark'
O adolescente Tony Soprano (Michael Gandolfini, à esquerda) e seu mentor Dickie Moltisanti (Alessandro Nivola) em 'The many saints of Newark' (Divulgação/Warner Bros.)

Alexis Parrot*

Entre gangsters e fantasmas, chegou ao fim uma longa temporada de expectativas e especulações. Podem culpar a lua ou mesmo o conhaque mas, comovidos como o diabo, poderemos finalmente reencontrar Tony Soprano. 

Com lançamento simultâneo nos cinemas e streaming (leia-se HBO Max), estreou na última sexta-feira nos EUA The many saints of Newark, o esperado filme prequel dos Sopranos, a mais importante (e melhor) série de TV dos últimos 20 anos.

Apesar de David Chase, o criador da série, ter avisado com todas as letras e em inúmeras ocasiões que Gentleman Dickie Moltisanti seria o protagonista do filme, o que se esperava da produção era o testemunho dos primeiros passos de Tony no mundo do crime. Ao contrário do trailer e do material de promoção, feitos com a intenção de nos iludir nesse sentido, acabou valendo mesmo a palavra de Chase.

Para quem sonhava com a possibilidade de ver a lendária passagem em que os jovens Tony e Jackie Aprile invadiram e assaltaram o jogo de cartas do capo Feech LaManna (o ponto de virada em que ambos começaram a criar uma reputação no meio mafioso), sinto informar que o filme termina bem antes disso; talvez exatamente no ponto onde todo fã gostaria que de fato começasse. De qualquer forma, a peripécia ficou para uma provável sequel da prequel, (ou até um futuro spin-off) dentro da recém-inaugurada franquia.    

Como contado na série, Dickie (Alessandro Nivola) era o tio por afinidade de Tony, executado nos início dos anos 70 quando seu filho Christopher era ainda um bebê recém-nascido. A influência do mafioso na formação do futuro chefe da famiglia DiMeo de Nova Jersey é trazida à luz e finalmente entendemos a trama que levou ao seu assassinato. Por falar em Christopher, é seu fantasma o eleito para narrar o filme, em voz off e diretamente do inferno (para onde foi mandado pelo próprio Tony, a quem também chamava de tio). Moltisanti, many saints, muitos santos - todos do pau oco. 

Sua vontade de agir corretamente não é o suficiente para impedi-lo de se comportar conforme manda sua real natureza machista e agressiva, como diz já no título a canção The beast in me, de Johny Cash, trilha dos créditos finais do episódio piloto da série e revelador cartão de apresentações da essência de Tony. Tal tio, tal sobrinho, diria o oráculo.

Mesmo sendo o foco declarado do filme, Gentleman Dickie e sua trajetória acabam soterrados por um sem número de subtramas, outras figuras muito mais interessantes e diversas referências à série original. As muitas narrativas paralelas e o excesso de easter eggs (ainda que deliciosos) desviam nossa atenção e transformam todos os personagens em coadjuvantes, inclusive o protagonista. Parece mais o condensado de vários episódios de uma série do que propriamente um filme. 

O capanga Harold McBryer (Leslie Odom Jr., catapultado ao estrelato graças ao sucesso de Hamilton) acaba sendo tão central na narrativa quanto Dickie. Inspirado pelos Black Panthers, decide desafiar os mafiosos de plantão e tomar para si uma parte do território dominado por Dickie, seu ex-patrão. A questão racial explode tendo como pano de fundo as reais e violentas manifestações pelo direito dos negros ocorridas em Newark em 1967. Apesar de Os Sopranos nunca ter sido um programa que abordasse diretamente a política (embora uma obra essencialmente política), relembrar as jornadas daquela época em 2021 constitui bem-vindo manifesto de endosso ao movimento Black Lives Matter.   

Para além da presença de personagens já conhecidos, a série original é uma força onipresente, o que não seria mau por princípio. Dá gosto descobrir que o açougue Satriale's já estava lá desde o princípio ou ver reencenada a cena clássica em que Tony testemunha a prisão do pai no parque de diversões (vista em flashback na segunda temporada); ou o incidente em que Tony sequestra um caminhãozinho de sorvete, evocando a presença sutil mas reiterada deste ícone da vida suburbana dos EUA durante todo o percurso da série.   

Pela primeira vez temos certeza de que as perucas usadas por Steven Van Zandt também eram um adereço de Silvio Dante, o personagem. A calvície do consiglieri de Tony nunca chegou a ser citada na série (pelo contrário, em várias ocasiões o vimos dormindo e até na banheira de peruca). Como Sil, Pussy e Paulie também são apresentados em versão juventude transviada, apenas para dizer que sempre foram como já os conhecíamos.

Da mesma forma com que o caráter mesquinho e invejoso de Tio Junior é reafirmado, testemunhamos as questões edipianas de Tony emergindo já em tenra idade, muito antes das sessões psiquiátricas com a dra. Melfi. Carmela, Artie Bucco e Jackie Aprile surgem em pontas desnecessárias somente para agradar aos fãs, com pouca ou nenhuma função dramática.

Michael Gandolfini assume o papel que imortalizou seu pai, James, morto precocemente em 2013. A semelhança entre os dois é tão grande que chega a dar arrepios, trazendo muita verdade ao papel, embora o filho não seja de fato um ator. Mas para que CGI quando se tem DNA? Com boas aulas de atuação e alguns anos de experiência na profissão, esperemos que esteja mais pronto quando chegar o momento de rodar o próximo filme. (Ou alguém ainda duvida que haverá um próximo filme?)

Até lá, pode-se dizer que a categoria de atuação coadjuvante do Oscar ganhou dois grandes concorrentes à indicação: Ray Liotta (no melhor trabalho de sua carreira desde Os bons companheiros) e Vera Farmiga (recriando com perfeição, gusto e uma prótese no nariz a Livia Soprano de Nancy Marchand).   

De resto, Chase continua imbatível nos diálogos, especialmente no small talk, quando os personagens parecem não estar dizendo nada para poder falar abertamente aquilo que de fato importa. Um bom exemplo é a conversa entre dois quase figurantes, uma enfermeira e um comerciante, sobre bilhetes de loteria, sorte, aleatoriedade e destino (este, um tema central em toda a saga).

Porém, ainda que tenhamos matado algumas curiosidades (como a identidade do mandante da morte de Dickie), a gênese de Tony como o Soprano que conhecemos, a besta-fera da canção, ficou mesmo para The many saints II, o que é uma pena.  

Abertas as comportas da nostalgia, qualquer um que se considere viúvo dos Sopranos vai se empolgar - mas será o suficiente diante do legado da obra? No final reverbera apenas uma pergunta: para que fazer um filme que não aprofunda em nada o que a série já havia nos dado? O sentimento que fica é de desperdício.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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