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06/10/2021 | domtotal.com

Ex-analista do Facebook diz que empresa visa o lucro acima da segurança

Frances Haugen depõe no Senado dos EUA e abre caminho para regulação das redes

Os senadores Marsha Blackburn e Richard Blumenthal ouvem a denunciante Frances Haugen (C) durante uma audiência no Capitólio
Os senadores Marsha Blackburn e Richard Blumenthal ouvem a denunciante Frances Haugen (C) durante uma audiência no Capitólio (Drew Angerer/AFP)

O dia seguinte ao apagão que tirou do ar os aplicativos do Facebook, incluindo Instagram e WhatsApp, não foi menos tenso para a empresa de Mark Zuckerberg. Na terça-feira (5), Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook, participou de audiência no Senado dos EUA, em que expôs a lógica da companhia de priorizar o crescimento em detrimento da segurança e jogou luz sobre caminhos de regulação para as redes sociais.

O depoimento ocorre após a revelação de negligência da empresa na moderação de conteúdo - que caminha para ser a maior crise do Facebook desde o escândalo Cambridge Analytica, em 2018. "Acho que os produtos do Facebook prejudicam as crianças, atiçam a divisão e fragilizam a nossa democracia", destacou. "É necessário que o Congresso aja. Esta crise não será resolvida sem sua ajuda".

Frances, que trabalhou como gerente de produto na equipe de integridade cívica do Facebook, foi a responsável por trazer a público pesquisas internas que mostram que a empresa negligenciou a moderação de conteúdo de suas plataformas. Parte das denúncias envolve a relação do Facebook com crianças e adolescentes. Esse também foi o foco da audiência.

A analista repetiu o que vem sendo divulgado nas últimas semanas por meio dos documentos vazados. Ela afirmou que o Facebook priorizou o crescimento em detrimento da segurança dos usuários e que a empresa sabe do impacto negativo do Instagram sobre jovens.

Além de perguntas sobre como a rede manuseia dados, gerencia algoritmos e se dedica a problemas de segurança, os senadores fizeram questionamentos sobre a visão de Frances em relação a legislações americanas como a Seção 230, que garante regras sobre liberdade de expressão e moderação de conteúdo na internet a Lei de Proteção à Privacidade da Criança na Internet e também regulações de proteção de dados.

"Não consertaremos isso sem a ajuda do Congresso", afirmou Frances na audiência. "O Facebook não fará essas mudanças por conta própria. Aceitei o risco pessoal de vir a público porque acredito que ainda temos tempo para agir."

As sugestões de regulação da ex-funcionária podem virar o primeiro passo para uma regulação mais dura para as empresas de tecnologia - os EUA ainda não têm regulação nos moldes da Lei Geral de Proteção de Dados do Brasil (LGPD). "A empresa oculta intencionalmente informação vital aos usuários, ao governo dos Estados Unidos e aos governos de todo o mundo", disse Haugen. "A gravidade desta crise exige que deixemos nossos marcos normativos anteriores".

"Esta é minha mensagem para (o diretor executivo do Facebook) Mark Zuckerberg. O seu tempo de invadir nossa privacidade, promover conteúdo tóxico e se aproveitar de crianças e adolescentes acabou", disse o senador Ed Markey. "O Congresso tomará medidas. Não permitiremos que a sua empresa continue prejudicando nossas crianças, nossas famílias e nossa democracia", acrescentou.

Adolescentes na mira

Entre as sugestões para regulação, Frances defendeu que o Facebook aumente a idade mínima das plataformas para 16 ou 18 anos. Sobre a Seção 230, a ex-funcionária argumentou que a legislação deve se atentar mais ao funcionamento de algoritmos do que a conteúdos na plataforma.

Questionada sobre a necessidade de desmembrar o Facebook, que englobou na última década empresas como Instagram e WhatsApp, ela disse ser contra medidas do gênero.

Durante a sessão, numa tentativa de questionar a autoridade de Frances no depoimento, Andy Stone, um dos diretores de política de comunicação do Facebook, publicou no Twitter que a ex-funcionária não trabalhava diretamente com a áreas de segurança infantil e de Instagram. Ele foi convidado pela senadora republicana Marsha Blackburn a comparecer ao Senado americano e dar a sua versão dos fatos.

Em entrevista ao canal americano CNN, Monika Bickert, vice-presidente de políticas de conteúdo da plataforma, afirmou que as alegações feitas por Frances sobre o Facebook inflamar discussões em suas redes sociais não eram verdadeiras. Mesmo diante do ataque, Frances prometeu continuar a conversa com os legisladores.

Frances Haugen: ´Os produtos do Facebook prejudicam as crianças, atiçam a divisão e fragilizam a nossa democracia´ (Jim Watson/AFP)Frances Haugen: 'Os produtos do Facebook prejudicam as crianças, atiçam a divisão e fragilizam a nossa democracia' (Jim Watson/AFP)LEIA ALGUNS DESTAQUES DO DEPOIMENTO:

Facebook, o Frankenstein

"Se você separar Facebook e Instagram, é provável que a maior parte do dinheiro publicitário vá para o Instagram e o Facebook continue sendo este Frankenstein [...] que coloca vidas em risco em todo o mundo [...] esses sistemas continuarão existindo e existindo, e serão perigosos, inclusive se forem separados".

Investigações da empresa

"Acredito que é de vital importância que estabeleçamos mecanismos para que as investigações internas do Facebook sejam divulgadas ao público de forma regular".

Cultura insular

"O Facebook tem uma cultura que enfatiza que o caminho a ser seguido é o isolamento, porque se a informação for compartilhada com o público, ela simplesmente será mal interpretada".

As mudanças não serão ruins

"Muitas das mudanças das quais estou falando não farão com que o Facebook deixe de ser uma empresa rentável", disse. "Simplesmente não será uma empresa ridiculamente rentável como é hoje".

Limite etário

"Recomendo encarecidamente a elevação dos limites de idade para 16 ou 18 anos, com base na observação dos dados sobre uso problemático e vício na plataforma, e os problemas de autorregulação para crianças", disse. Atualmente, o limite oficial para entrar no Facebook é de 13 anos.

O Facebook precisa de ajuda

"Você pode declarar a falência moral, pode admitir que fez algo ruim. E podemos seguir em frente".

Transtornos alimentares

"Também quero enfatizar que os distúrbios alimentares são sérios, haverá mulheres caminhando por este planeta daqui 60 anos com ossos frágeis devido às decisões que o Facebook tomou hoje para privilegiar o lucro".

Os pais não entendem

"O Facebook sabe que os pais de hoje, que [...] nunca viveram esta experiência viciante com um pedaço de tecnologia, dão maus conselhos a seus filhos. Dizem coisas como: 'Por que simplesmente não deixa de usá-la?'"

Problemas estruturais

"O Facebook criou uma organização em que a parte responsável pelo crescimento e a expansão da companhia está separada e não se mistura regularmente com a parte que se concentra nos danos que a empresa causou".

Mark Zuckerberg decide

"No final, o dono da bola é o Mark [Zuckerberg]. Não existe ninguém atualmente a quem Mark preste contas, exceto a ele mesmo".

Doses de dopamina

"O Facebook sabe que existem conteúdos que provocam uma reação extrema dos usuários e têm maiores chances de receber um clique, um comentário ou de ser compartilhado", que "não necessariamente são benéficos ao usuário", mas que são priorizados para que "ofereçam pequenas doses de dopamina para os seus amigos, o que faz com que eles continuem a produzir mais conteúdo".

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Agência Estado/AFP/Dom Total



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