Meio Ambiente

09/10/2021 | domtotal.com

Colapso ambiental: catastrofismo ou princípio da precaução?

Sem respeitar a capacidade do planeta, o equilíbrio está ameaçado

Jovens marcham em Nova York para protestar contra a inação dos governos diante das mudanças climáticas
Jovens marcham em Nova York para protestar contra a inação dos governos diante das mudanças climáticas (Acott Heins/Getty Images/AFP)

José Eustáquio Diniz Alves*

Visões mais pessimistas ou mais otimistas fazem parte da história. Existem derrotas e vitórias que acontecem de maneira cíclica, sendo ora trágicas e ora épicas. Na mitologia grega, Cassandra representava a ideia pessimista e o lado da possibilidade de destruição, enquanto a Cornucópia representava a abundância e criação de riqueza.

A Revolução Industrial e Energética liberou as forças produtivas globais que ao mesmo tempo "ergueu e destruiu coisas belas", como disse Caetano Veloso, na música Sampa. Para muitas pessoas o último relatório do IPCC (de 9/8/2021) tem um tom catastrofista, mas para outras o relatório tem o mérito de alertar e precaver.

Existe uma corrente de pensamento que busca destacar as conquistas e as coisas boas do progresso econômico e social e podem ser classificados como "tecnófilos cornucopianos", pois acreditam que a ciência, a tecnologia, o mercado e a democracia vão construir um mundo de bem-estar para a maioria da humanidade.

Mas existe toda uma corrente que destaca o lado negativo do progresso, especialmente a degradação climática e ambiental, que ocorrem em função do aquecimento global e da perda de biodiversidade. Aqueles que consideram que a crise ecológica está se agravando são chamados de catastrofistas. Mas existe uma diferença entre ser simplesmente catastrofista e ser um estudioso que faz uma análise científica e advoga pelo princípio da precaução.

Por exemplo, o escritor e divulgador científico David Quammen publicou o livro Spillover: Animal infections and the next human pandemic (em tradução livre, Contágio: infecções animais e a próxima pandemia humana), em 2012, onde analisou a história do contato humano com os animais e seus vírus e de maneira presciente, previu uma pandemia altamente letal e de escala global (The next big one), algo semelhante à pandemia do novo coronavírus. Na época, a obra foi considerada catastrofista e a maioria dos governos não se preparou para o pior.

Mas Quammen diz que apenas ouviu os cientistas e descreveu os problemas que vinham se acumulando há tempos. Os negacionistas zombaram da possibilidade de uma pandemia, mas a Covid-19 mostrou que a forma como a humanidade trata os animais é perigosa e o mundo todo está pagando um alto preço, não pelas previsões catastróficas, mas por ignorar fatos científicos básicos.

Da mesma forma que a emergência sanitária foi ignorada ou subestimada, o mundo caminha no rumo de uma emergência climática e ambiental que também está sendo negada ou tratada com a panaceia (cloroquina) da solução milagrosa da tecnologia. A geoengenharia promete sequestrar carbono e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) prometem uma relação mais amigável entre a produção econômica e a natureza, para evitar o aquecimento global e a sexta extinção em massa das espécies. Porém, os dados mostram que o desenvolvimento econômico virou um oximoro e o tripé da sustentabilidade virou um trilema (Martine e Alves, 2015).

A concentração de CO2 na atmosfera ficou abaixo de 280 partes por milhão (ppm) durante todo o Holoceno (últimos 12 mil anos). Mas após a grande arrancada do crescimento demoeconômico global propiciado pela Revolução Industrial e Energética ?" que iniciou a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento das florestas em larga escala ?" a concentração de CO2 chegou a 300ppm em 1920, atingiu 317ppm em março de 1960 e pulou para 419ppm em maio de 2021 e continua subindo, mesmo com as quarentenas provocadas pela Covid-19.

As emissões globais de CO2 estavam em 2 bilhões de toneladas em 1900, passaram para 6 bilhões de toneladas em 1950, chegaram a 25 bilhões de toneladas no ano 2000 e atingiram 37 bilhões de toneladas em 2019. Em consequência do efeito estufa, as temperaturas do planeta estão subindo e acelerando as mudanças climáticas e seus efeitos danosos sobre a vida na Terra.

A última década (2011-20) foi a mais quente do Antropoceno e nada indica que a humanidade consiga conter o aquecimento abaixo de 2 graus, como previsto no Acordo de Paris e em tantas COPs que discutem a questão climática.

Insegurança alimentar

Como consequência do aquecimento global haverá degelo dos polos, da Groenlândia e dos glaciares, o que vai elevar o nível dos mares e afetar a vida de mais de 2 bilhões de pessoas que vivem em regiões costeiras. Haverá acidificação das águas e dos solos reduzindo a vida marinha e dificultando a produção agrícola. Ondas de calor serão, cada vez, mais letais e milhões de pessoas (especialmente idosos) morrerão nas próximas décadas. O aumento da desertificação e uma crise na produção agrícola deve aumentar a insegurança alimentar no mundo e aumentar o número de pessoas passando fome ou subnutridas. Tempestades, furacões e ciclones vão ficar cada vez mais frequentes e com maior potencial de destruição.

No dia 9 de julho de 2017, o jornalista David Wallace-Wells publicou uma matéria denominada The uninhabitable Earth, na revista New York Magazine, pintando um cenário apocalíptico para o planeta ?" um Armagedon climático ?" caso as tendências atuais se mantenham. O texto começou com a intenção de assustar: "Prometo, é pior do que você pensa"). Muitos críticos disseram que o artigo era catastrofista e não ajudava na luta contra o aquecimento global. Mas o artigo se tornou viral e foi comentado amplamente em diversos países e passou a ser o artigo mais lido da revista.

Em 2019, foi publicado o livro The uninhabitable Earth: Life after warming, enquanto os indicadores climáticos mostram que o equilíbrio homeostático do planeta está sendo alterado e Terra está ficando cada vez mais inóspita e inabitável (Alves, 2019).

Mas não será somente a humanidade que sofrerá com a crise climática e ambiental, mas principalmente as demais espécies vivas do planeta. A perda de biodiversidade e a sexta extinção em massa das espécies vai provocar não apenas uma tragédia ecológica, mas também deve reverberar sobre a civilização, pois a extinção dos polinizadores e a destruição das florestas vão acelerar o aquecimento global e agravar a crise alimentar.

Blá-blá-blá

Portanto, a emergência climática e ambiental deve provocar mais mortes e mais sofrimento do que a emergência sanitária da Covid-19. Mas os negacionistas acusam os verdadeiros ambientalistas de catastrofistas e nada fazem para conter a catástrofe ambiental. Mas, indubitavelmente, é preciso saber ouvir os "catastrofistas" e colocar em prática o princípio da precaução e não ficar procrastinando as ações.

Como disse Greta Thunberg em atividade preparatória para a COP26: "Isso é tudo o que ouvimos por parte dos nossos líderes: palavras. Palavras que soam bem, mas que não provocaram ação alguma. Nossas esperanças e sonhos se afogam em suas palavras de promessas vazias. Não existe um planeta B, não existe um planeta blá-blá-blá, economia verde blá-blá-blá, neutralidade do carbono para 2050 blá-blá-blá". Ela completou: "30 anos de blá-blá-blá dos líderes mundiais e sua traição com as gerações atuais e futuras".

A humanidade precisa reconhecer os seus erros e parar de acreditar em notícias falsas (fake news). A Terra é esférica e finita, mas existem alguns negacionistas que dizem que a Terra é plana e outros que negam os limites do crescimento e agem como se a Terra fosse infinita. Como mostrou Vicki Robin (6/1/2021): "Nós estamos destruindo a vida no planeta". E sem respeitar a capacidade de carga do planeta, o equilíbrio climático e a biodiversidade nenhuma espécie conseguirá sobreviver em uma Terra cada vez mais inabitável.

Artigo originalmente publicado por EcoDebate


EcoDebate

José Eustáquio Diniz Alves tem graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestrado em Economia, doutorado em Demografia pelo Cedeplar-UFMG e pós-doutorado pelo Nepo/Unicamp.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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