Religião

11/10/2021 | domtotal.com

Missão deve ser vivida em chave decolonial e libertadora para ser fiel a Cristo

Avançar no reconhecimento dos equívocos e injustiças do passado não enfraquece em nada a missão atual da Igreja

Padre Lancellotti, missionário nas ruas de São Paulo
Padre Lancellotti, missionário nas ruas de São Paulo (Reprodução/Vatian Media)

Gabriel Vilardi, SJ*

"Jesus pede a todos nós, e a ti também, que sejamos discípulos missionários. Estás preparado?", provoca o papa Francisco, em videomensagem para este mês de outubro, em que se celebra o Dia Mundial das Missões. "Recordemos que a missão não é fazer proselitismo", adverte o pontífice. Mas "a missão baseia-se no encontro entre as pessoas, no testemunho de homens e mulheres que dizem: "Eu conheço Jesus, gostaria que tu também O conhecesses". Diante dessas ponderações permanece o questionamento: qual Jesus foi e continua sendo anunciado hodiernamente?

Desde que os ditos civilizados aqui chegaram decretou-se que o Brasil era o país do futuro. Um futuro que há mais de quinhentos anos nunca chegou. É disso que se tem saudades? Ou chora-se desconsoladamente a música silenciada, as línguas aportuguesadas, as culturas europeizadas? Sobrevive na memória os massacres dos povos desta terra, brutalmente oprimidos, em nome da necessária domesticação? Ou tudo não passa de um sonho distante a ser rapidamente esquecido em busca de um futuro promissor?

Tem-se saudades de uma pátria distante, há muito trocada pela ordem e progresso de uma colônia de exploração? Ou já se esqueceu das raízes da mãe África de onde foram arrancados milhões de seus filhos, escravizados pela ganância e crueldade humana? Choram-se os sofrimentos inimagináveis e os gritos sufocantes vindos dos navios negreiros e das senzalas das fazendas? Ou se aceitou as migalhas, dadas como um "cala-boca", com a encenação da abolição da escravidão, concedida pela piedosa princesa imperial?

Como é comum se repetir há décadas no noticiário nacional, o Brasil foi e continua sendo uma das nações mais desiguais do planeta, com imensos abismos políticos e econômicos. Conta com um vasto território, uma grande população e encontra-se entre as dez maiores economias do mundo, o que torna as injustiças sociais mais escandalosas ainda.

A concentração de renda é brutal: poucos bilionários detém uma enorme quantidade de recursos, enquanto uma imensa maioria sofre as agruras da pobreza. Esse mesmo contingente é obrigado a recorrer aos péssimos e deficitários serviços públicos de saúde, educação e cultura, segurança pública... Com menos conscientização política e precário acesso aos instrumentos jurídicos, estes cidadãos de segunda classe são diariamente maltratados e usurpados nos seus direitos. O conquistador é rico.

Como se não bastasse toda a espoliação, histórica e tão atual, em tempos de extremismo e intolerância política, as exclusões se aprofundam. O machismo e o patriarcado ainda reinam nas famílias, na política, nas empresas, nas igrejas. Basta uma rápida consulta às estatísticas para constatar a baixa representação feminina no Congresso, na Esplanada dos Ministérios, nos tribunais superiores, nas cúpulas dos grandes grupos empresariais. O conquistador é homem.

Apesar do mito de ser uma democracia racial, o racismo no Brasil é profundamente estrutural. A Lei Áurea não passou de uma decisão simplista para se livrar das pressões internacionais. Uma enorme massa analfabeta e empobrecida foi jogada nas ruas e empurrada para os morros e favelas. Esquecida pelos antigos senhores, ignorada pelas elites intelectuais, substituída parcialmente pelos novos patrões. Um contingente sem terra, sem teto, sem trabalho, como o papa Francisco tem denunciado em seus discursos aos movimentos sociais.

E, não obstante toda essa carga de humilhações e explorações, muitos ainda hoje se escandalizam com quaisquer sugestões de políticas afirmativas, como as cotas. Alguns ousam afirmar que o Brasil é um país pacífico em que não há discriminação. Quantos corpos negros mais terão que ser violentados e exterminados para que os brasileiros despertem desse sono alienado? O conquistador é branco.

Em um país em que a "tradicional família brasileira" deveria ser aquela formada por indígenas, ainda se utiliza de interpretações religiosas distorcidas e fundamentalistas para perseguir e discriminar a população LGBTQIA+. Causa mais escândalo uma foto publicada nas redes sociais em que o padre Júlio Lancellotti acolhe fraternalmente mulheres trans do que o fato da expectativa de vida dessa população não passar dos 35 anos. Esses números se tornam banalizadas estatísticas e muitos poucos se importam realmente!

Tristemente, os avanços jurídicos existentes nessas matérias só vieram a muito custo por meio de interpretações jurisprudenciais dos tribunais e não por mudanças legislativas. Os políticos só têm se ocupado dessa temática para defenderem retrocessos, desejosos que os transviados se mantenham bem trancados no armário. O conquistador é heterossexual.

Mulheres, negros, LGBTQIA+, povos indígenas e quilombolas, nordestinos, praticantes das religiões afro, pessoas em situação de rua, encarcerados, sem-terra e sem-teto, desempregados, moradores das periferias, trabalhadores informais... São tantos e mesmo assim tão invisibilizados! Ainda faz sentido nomeá-los como minorias? Ou é preciso se reconhecer parte de uma maioria oprimida e historicamente massacrada?

Com humildade e ousadia, em entrevista dada ao retornar da viagem apostólica para a Armênia, em junho de 2016, o sumo pontífice afirmou que a Igreja deveria buscar o perdão das pessoas homossexuais, das mulheres e dos pobres pela forma com que foram tradados ao longo da história. No mesmo sentido, acrescentou a necessidade da instituição se desculpar também pela omissão com as vítimas do trabalho infantil e por ter abençoado tantas armas. Defendeu que os LGBTQIA+ não podem ser discriminados, mas devem ser respeitados e acompanhados pastoralmente pela Igreja. Em outras ocasiões, inclusive, não teve medo de dizer que é favorável a proteção civil das uniões homossexuais.

Recentemente, o papa enviou uma mensagem ao presidente da Conferência Episcopal do México, por ocasião do bicentenário da independência do país. Nessa carta, Francisco diz que "celebrar a independência é afirmar a liberdade, e a liberdade é um dom e uma conquista permanente". E que para tanto é preciso "fortalecer as raízes e reafirmar os valores que os constroem como nação". Cheio de coragem aponta que "esse olhar retrospectivo inclui necessariamente um processo de purificação da memória, quer dizer, reconhecer os erros cometidos no passado, que foram muito dolorosos". Palavras extremamente cabíveis para o contexto brasileiro!

É verdade que seria injusto desconsiderar uma Igreja profética, inculturada e comprometida que se colocou e se coloca ao lado, como uma importante aliada, na luta pela resistência dos povos originários e dos empobrecidos do continente latino-americano. Uma Igreja que se reconhece como Povo de Deus, formada por homens e mulheres implicados na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Igreja essa banhada pelo sangue dos mártires da caminhada, leigos e leigas, padres e bispos, religiosas e religiosos que entregaram a vida até o fim pelas causas do Reino. E que, com seus testemunhos cheios de utopia evangélica, iluminam com intensidade as trevas da opressão: Santo Oscar Romero, Chico Mendes, frei Bartolomeu de las Casas, irmão Vicente Cañas, padre Josimo Tavares, irmã Dorothy Stang, Marçal de Souza Tupã-i, padre João Bosco Burnier, irmã Cleusa Coelho, padre Ezequiel Ramin...

Avançar no reconhecimento dos equívocos e injustiças do passado, não enfraquece em nada a missão atual da Igreja. Ao contrário, só fortalece a sua força missionária, agora sob um olhar purificado e convertido. Revela-se imprescindível adotar, sem medo ou qualquer posição defensiva, uma perspectiva decolonial e libertadora, para que se possa promover um longo, paciente e respeitoso processo de reconciliação com as vítimas dos erros e abusos de épocas longínquas e outras não tão distantes assim. Só dessa forma os cristãos poderão ser fiéis ao frescor da Boa Nova que é Jesus Cristo, o Deus da Ternura, da Amizade e da Justiça. Um Deus que Se fez pura fragilidade e, sempre respeitando a liberdade humana, jamais Se impôs a ninguém.

*Jesuíta; bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP - São Paulo/SP) e graduando em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE - Belo Horizonte/MG). E-mail: gabrielvilardi@hotmail.com



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