Religião

08/10/2021 | domtotal.com

O porão dos negacionistas católicos

Depois de alguns cardeais, jovens oficiais que prestam serviço ao papa se unem ao movimento contrário à vacina contra a Covid-19

A onda de negacionismo não poupa nem o Vaticano de Francisco
A onda de negacionismo não poupa nem o Vaticano de Francisco (AFP)

Mirticeli Medeiros*

Todos os anos, um grupo de jovens que completou a escola de recrutas do exército suíço se candidata para prestar serviço ao Vaticano. Após um longo processo seletivo, que é feito todos os anos, cerca de 40 soldados assumem a missão de proteger o papa a todo custo.

Com suas roupas coloridas, a guarda suíça pontifícia não passa despercebida aos olhos dos turistas que visitam a sede da Igreja Católica. Isso porque, além de atuar na defesa do santo padre tanto em Roma quanto em suas viagens apostólicas, são eles que controlam os acessos à Cidade do Vaticano. Quando o papa morre, também são eles que garantem a segurança do território durante o período da sé vacante.

As regras para se alistar ao menor exército do mundo são bastante exigentes. Eles precisam ser solteiros, católicos praticantes, ter entre 19 e 30 anos e morar em Roma por pelo menos três anos. Caso queiram se casar, só poderão fazê-lo depois dos 25 anos, com cinco anos de serviço prestado à instituição na bagagem e o compromisso de estender a permanência na cidade eterna por mais três anos.

Olhar para esses militares, que se exibem com suas vestes renascentistas e levam adiante uma tradição de mais de 500 anos - iniciada pelo papa Júlio II, cujo emblema está cravado em seus capacetes - passa a ideia de uma obediência irrepreensível ao papa. No ato de juramento dos novos oficiais, que ocorre sempre no mês de maio, a fórmula é bastante sugestiva:

"Juro servir fielmente, lealmente e honradamente o pontífice reinante e seus legítimos sucessores, de dedicar-me a eles com todas as forças, sacrificando, se necessário, a minha vida em sua defesa".

Porém, parece que, em tempos de pandemia, muitos votos são quebrados. E não vemos isso só na guarda suíça, mas até no colégio de cardeais, como bem disse o papa Francisco, recentemente.

Esta semana, a assessoria de imprensa da corporação confirmou que seis membros da guarda suíça não se vacinaram. Três deles aceitaram iniciar o ciclo de vacinação, mas os outros três preferiram renunciar ao cargo por não concordarem com a norma que exige passaporte sanitário a todos os funcionários da instituição, em vigor desde o dia 1º de outubro. A regra é de autoria do secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin (o número 2 do Vaticano), e conta com o total apoio de Francisco.

No caso deles, o teste negativo, cujo valor deve ser arcado pelo próprio funcionário do Vaticano (uma opção para quem não se vacina), segundo o novo decreto, não vale como substituto do passaporte sanitário. A instituição alega que pelo fato de eles trabalharem muito próximos ao pontífice, que é do grupo risco, a imunização precisa ser garantida.

Aqui na Itália, o chamado Green Pass, que é reconhecido por toda a comunidade europeia, é exigido em todos os ambientes fechados. Até para entrar nas universidades pontifícias ou mesmo nos famosos bares de café que estão espalhados pela cidade de Roma, há sempre alguém na porta, exigindo o certificado de imunização.

E, claro, a Igreja precisa seguir o exemplo.

O papa está atento a esses movimentos, e está disposto a endurecer ainda mais as regras, se for necessário. Quando a campanha de imunização começou no Vaticano, em fevereiro deste ano, ele e o papa emérito Bento XVI foram os primeiros a garantir a primeira dose da Pfizer-Biontech.

Francisco tem alfinetado os negacionistas com frequência. Deixa claro que quem se opõe a algo capaz de garantir o bem de todos trai o próprio cristianismo, que é a religião na qual o egoísmo é tido como uma violação da própria doutrina. Mas no submundo de teorias conspiratórias, do qual alguns católicos fazem parte, os gurus ditam as regras canônicas.

O papa atual sabe o quanto é desafiador governar na era das redes sociais, um espaço no qual a imbecilidade e a grosseria são aplaudidas. Mas ele segue firme e não dá mole a quem caricatura o catolicismo como uma espécie de associação de alienados.

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O catecismo dos negacionistas católicos, aliás, é muito contraditório: ensina a ser pró-vida "da concepção à morte natural", mas pouco se importa com a vida de quem saiu da barriga da mãe; defende a "identidade católica", mas cria o menu dos ritos litúrgicos (uns têm estrela Michelin, outros não), promovendo a segregação dos fiéis. Milita dizendo que "vacinação tolhe a liberdade", mas se o assunto for ditadura, é "repressão do bem"; traz o manual de conduta da mulher "feminina, não feminista”, mas na parte dedicada ao homem, há apenas um ensaio tomista intitulado "Basta ser macho". 

A Igreja tem que ser "de-derecha", como se ela tivesse partido. O papa precisa se adequar a esse catecismo, seguindo as orientações "iluminadas" de um "filósofo" que não sabe ler Platão, mas é altamente gabaritado para a função por falar palavrão e exibir uma enorme biblioteca como pano de fundo para seus vídeos.

Sem vacina, sem papa, sem bispos, sem amor: o mundo fantástico dos papagaios de entidades da internet.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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