Cultura

08/10/2021 | domtotal.com

Não deixar escapar

Aqui, uma digressão íntima que serve como passaporte de deslocamento por imensas e intrincadas pátrias interiores

No baú das lembranças colhidas sem método aparente, mas carregadas de sentido e coerência, a revisita a passagens acolhedoras, amistosas, assim como os revezes
No baú das lembranças colhidas sem método aparente, mas carregadas de sentido e coerência, a revisita a passagens acolhedoras, amistosas, assim como os revezes (Ryu Orn / Unsplash)

Eleonora Santa Rosa*

Quando nos mudamos de residência, somos instados a "remexer" papéis, documentos, cartas, correspondências afetivas, bilhetinhos, fotos, pequenos guardados de simbologia única, individual, intransferível, além de uma série de outros materiais e objetos que nos conferem identidade, formando nossa memória, nossa memorabilia, registros de nossos rastros, cometimentos e percursos.

Em modo "arqueologia", escavamos e resgatamos restos, estilhaços, fragmentos "bricolados" que compõem um complexo mapa, repleto de paisagens geográficas sinuosas, povoadas por depressões, elevações, barreiras sinalizando as linhas e divisas de transposição dos obstáculos e de descoberta de novos caminhos.

No baú das lembranças colhidas sem método aparente, mas carregadas de sentido e coerência, a revisita a passagens acolhedoras, amistosas, assim como aos revezes, conduzindo a imersões e reflexões ora apaziguadoras, ora severas, ora agregadoras, ora disruptivas. Nada de novo sob o sol, por suposto. Aqui, uma digressão íntima que serve como passaporte de deslocamento por imensas e intrincadas pátrias interiores.

Não só com nostalgia vivemos esses momentos, marcados também pela forte presença do amadurecimento conquistado a muitas rugas, rusgas, afetos, desafetos, teimosias, acomodamentos, displicências, alianças, êxitos, derrotas, danos e tantas outras coisas mais. Nesses interregnos da vida, difícil não pensarmos sobre a perda de oportunidades, em sentido amplo, da sensação, às vezes, recorrente, de termos deixado escapar entre os dedos vivências e experiências que poderiam ter ensejado outras rotas.

Nesse périplo pessoal de relembranças, o sentimento emergente de não mais deixar escapar, de não mais deixar escorrer pelos dedos, de não mais desperdiçar o que, ao fim e ao cabo, nos toca, nos transforma, nos (e)leva a outras dimensões de sensibilidade e aprendizado em direção à plenitude humana.

Voltando ao tesouro íntimo recém-perscrutado, em meio aos papéis de afeto e devoção, o reencontro com a beleza da poesia de Han Yu, poeta chinês (século 8):

"Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio das coisas. As árvores e as ervas são silenciosas: se o vento as agita, elas ressoam. A água está silenciosa: o ar a move, e ela ressoa. As ondas mugem: é que algo as oprime. A cascata se precipita: é porque falta-lhe solo. O lago ferve: algo o aquece. Os metais e as pedras são mudos, mas ressoam se algo os golpeia. Assim também o homem. Se fala, é porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se sofre, lamenta-se. Tudo o que sai de sua boca em forma de som se deve a um rompimento do seu equilíbrio... A palavra é o mais perfeito dos sons humanos; a literatura, por sua vez, é a mais perfeita forma de palavra. E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens os que são mais sensíveis e os faz ressoarem".

*Eleonora Santa Rosa - Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ex-presidente do Conselho do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais - IEPHA, instituiu em sua gestão o Conselho Estadual do Patrimônio Cultural de Minas Gerais - CONEP. Implantou a primeira fase do Circuito Cultural da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte e foi diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR. Concebeu e implementou inúmeras ações e iniciativas referenciais no campo do Patrimônio Cultural, da Educação Patrimonial e de museus. Gestora, consultora e estrategista da área da Cultura, é autora de diversos artigos e do livro Interstício.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos