Brasil Política

07/10/2021 | domtotal.com

CPI da Covid ouve médico e paciente que denunciaram a Prevent Senior

Walter Correa de Souza Neto e Tadeu Frederico de Andrade trazem denúncias graves a respeito da forma como a empresa agiu com seus colaboradores e pacientes durante a pandemia

O paciente da Prevent Senior Tadeu Frederico de Andrade e o médico Walter Correa de Souza Neto, que atuou na empresa
O paciente da Prevent Senior Tadeu Frederico de Andrade e o médico Walter Correa de Souza Neto, que atuou na empresa (Pedro França/Agência Senado)

Nesta quinta-feira (7), a Comissão Parlamentar de Investigação (CPI) da Covid ouve o paciente da Prevent Senior Tadeu Frederico de Andrade e o médico Walter Correa de Souza Neto, que atuou na empresa. Ambos prestaram compromisso de dizer a verdade durante o depoimento. Souza Neto conta com habeas corpus do Supremo Tribunal Federal. Concedida pelo do ministro Gilmar Mendes, a decisão permite que o depoente fique em silêncio em perguntas que possam incriminá-lo ou ofender o sigilo médico. 

Em sua exposição inicial, Tadeu Frederico de Andrade relatou seu drama nos 120 dias em que ficou internado. Ele foi intubado duas vezes, teve pneumonia, passou por hemodiálise e traqueostomia, além de ter sofrido com outros problemas por consequência da Covid-19.

Tadeu Frederico disse que sobreviveu porque a família dele lutou "contra uma poderosa organização" e não aceitou a imposição de tratamento paliativo - prática adotada pela empresa para eliminar pacientes de alto custo, segundo ele.

O ex-segurado da Prevent Senior informou aos senadores que ouviu o termo "tratamento paliativo" pela primeira vez numa reunião da CPI. A partir daí, foi incentivado a denunciar. Após fazer uma ressalva e elogiar a atuação de dezenas de profissionais de saúde que o atenderam, ele disse ser "testemunha viva da politica criminosa da corporação e de seu dirigentes". Tadeu Frederico de Andrade disse que, tendo sobrevivido, tem a obrigação de denunciar os fatos graves que vivenciou.

Acompanhe a sessão

'Eles pagarão muito caro por seus crimes'

Renan Calheiros disse que os responsáveis pelo agravamento da pandemia de coronavírus no Brasil "pagarão muito caro por seus crimes". O relator da CPI fez um balanço dos mais de 160 dias de trabalhos da comissão e criticou a ação de integrantes do governo federal durante a crise sanitária provocada pela covid-19.

"Estamos perto de 600 mil mortes. Um dos piores percentuais de letalidade no mundo. Uma triste necrópole. Vítimas indefesas da estupidez do governo federal. No que depender deste relator e desta CPI, eles pagarão muito caro por seus crimes", afirmou.

Renan Calheiros disse que a comissão de inquérito "cumpriu seu papel". Ele destacou que, no início dos trabalhos, apenas 6,6% dos brasileiros tinham a imunização completa. Hoje mais de 45% têm as duas doses da vacina.

"Esta CPI já deu certo. Evitamos a corrupção na aquisição de vacinas, forçamos a aceleração da vacinação, retiramos o governo da abulia mortal e soterramos o negacionismo medieval. Muitos tentaram rebaixar essa CPI. Esse debate nunca foi político. Sempre se deu em torno da defesa de valores civilizatórios, opondo opções elementares entre o bem e o mal", afirmou.

Tadeu Frederico de Andrade acredita que outros pacientes da Prevent Senior foram encaminhados para os chamados "cuidados paliativos". Segundo parlamentares da CPI, a medida era adotada pela operadora de saúde para retirar pacientes dos leitos de UTI e reduzir custos.

"Pelo menos um caso. Uma das minhas filhas relatou que fez amizade com uma mulher que estava acompanhando a avó dela num leito de UTI próximo ao meu. Elas se encontraram várias vezes. Pelo que a gente sabe, essa senhora foi para cuidados paliativos e veio a óbito. Não posso generalizar, mas esse caso minha filha testemunhou. Eu não fui o único. Acredito que muitos mais tenham ido a cuidados paliativos" disse Tadeu de Andrade.

Declarações de Bolsonaro podem ter influenciado pacientes

Questionado pelo relator se as declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro, sobre o "kit covid" podem ter influenciado pacientes, o médico Walter Correa de Souza Neto disse que sim. Anteriormente, Renan exibiu vídeos em que Bolsonaro estimula o uso de medicamentos como cloroquina e hidroxicloroquina.

"Pode induzir as pessoas ao erro. É uma desinformação que pode fazer com que as pessoas deixem de tomar outras medidas. Acreditando que há um tratamento inicial eficaz, podem deixar de se proteger, evitar vacinas e outras condições que podem acabar levando a pessoa ao óbito", afirmou o médico.

Prevent queria reduzir custos antes da pandemia

O médico Walter Neto disse que a busca da Prevent Senior pela redução de custos no tratamento de pacientes é anterior à pandemia de coronavírus. O profissional disse ainda que a empresa cerceava a autonomia médica e restringia a realização de exames.

"Era um modelo basicamente voltado para os custos, e não para o bem-estar que o paciente precisava. Algumas situações não são exclusivas da pandemia. São coisas que acontecem na Prevent de forma crônica e estão inseridas na cultura da empresa. Existe um pequeno número de médicos, muitas vezes evolvidos com a direção, que acaba até induzindo outros médicos ao erro. Pela imposição de não ter autonomia médica, não poder pedir determinado exame. Às vezes, você tinha que negociar com quem era seu superior para fazer determinada coisa e aquilo não era autorizado. Às vezes, o paciente evoluía com gravidade ao óbito. Isso era uma política antiga da empresa", disse Walter Correa.

CPI aprova 3ª convocação de Queiroga

A CPI da Pandemia aprovou requerimento para nova convocação do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Este será o terceiro depoimento dele à comissão. O requerimento foi apresentado por Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

A data do depoimento será marcada por Omar Aziz (PSD-AM). O presidente da comissão criticou a postura de Marcelo Queiroga ao ser infectado pelo coronavírus durante viagem aos Estados Unidos. Segundo Aziz, o ministro compartilhou em uma rede social o comentário de um internauta que questionava a eficácia das vacinas.

"Eu vou dizer qual o dia que vamos ouvi-lo. No dia em que foi acometido de covid, o ministro repostou uma mensagem de uma pessoa dizendo: 'O senhor não foi vacinado? Tomou as duas doses e pegou Covid mesmo assim?'. Ministro Queiroga, a gente não esqueceu que o senhor repostou isso. Se o senhor passou 15 dias nos Estados Unidos e já está aqui no Brasil é porque teve a oportunidade de tomar a vacina. Por isso o senhor está vivo", disse Aziz.


Agência Senado/Dom Total



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