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07/10/2021 | domtotal.com

Em Cuba, restaurantes reabrem, mas poucos cubanos podem pagar para frequentá-los

Crise econômica, desabastecimento e variação de preços dificultam a vida na ilha

Garçonete serve clientes em restaurante em Havana: alta de preços e falta de alimentos
Garçonete serve clientes em restaurante em Havana: alta de preços e falta de alimentos (Yamil Lage/AFP)

Miguel Carcache contempla, deslumbrado, restaurantes e bares do Paseo Marítimo 1ra y 70, em Havana, mas reclama que se sentar em uma mesa é um luxo impossível. "Nem em Dubai os preços estão assim", critica. "Claro, gostaria de me sentar, mas não posso", resigna-se Carcache, de 30 anos, enquanto olha para a área externa do restaurante Bom Apetite, onde cerca de 20 pessoas conversam, bebem e comem tapas.

Sob rígidas medidas de distanciamento social e de controle sanitário, bares e restaurantes reabriram há duas semanas em oito das 15 províncias cubanas. Estavam fechados desde janeiro, devido ao coronavírus.

Depois da alegria com a notícia da reabertura, chegou a dura realidade: preços exorbitantes, que levaram muitos a publicar fotos de suas notas fiscais nas redes sociais, acompanhadas de comentários escandalizados.

Empregado da construção civil, Carcache optou por dividir uma garrafa de tequila com os amigos no recife, aproveitando a brisa do mar, um dos principais atrativos do calçadão, na zona oeste da capital.

"Se eu ganho 3.000 pesos por mês (R$ 688), e uma cerveja sai por 150 (em torno de R$ 33), posso vir aqui (ao restaurante)? Não. Isso é uma loucura, uma coisa louca, nem em Dubai os preços estão assim", insiste.

Preços astronômicos e restaurantes cheios, uma aparente contradição que encontra lógica nas vias ocultas de uma economia subterrânea, onde é o dólar que manda. "Minha tia Nena e eu tivemos que vender celulares para fazer um lanche na 1ra y 70", ironizou a comediante cubana Adrea Doimeadiós, em entrevista recente.

"Um pouquinho altos"

Na varanda, os médicos Cary Merlin e Alexis Fernández, ambos de 36 anos, aliviam o fardo causado pela pandemia da Covid-19 sobre a categoria, há 18 meses. "Temos consciência de que tem gente que não pode (pagar) e, às vezes, a gente também não", afirmou o médico. Para Fernández, "os preços estão um pouquinho acima do que se pode pedir".

Ao anunciar "uma reabertura necessária", a ministra do Comércio Interior, Betsy Díaz, destacou que isso se dá em meio a uma "complexa situação econômica", marcada por "um desabastecimento de produtos básicos", e alertou que "o cenário dos preços" vai ser "diferente".

A reforma monetária aplicada em janeiro incluiu um aumento nos salários do funcionalismo público, mas também nos preços, o que disparou um processo inflacionário.

Cuba vive sua pior crise econômica desde 1993, devido ao impacto da pandemia no turismo, um de seus principais motores econômicos, e ao recrudescimento do embargo norte-americano. Suas importações despencaram, agravando a escassez de alimentos e de remédios.

Moraima Cabrera, de 59 anos, dona do Bom Apetite, admite que seus preços "estão um pouquinho altos". Alegou, no entanto, que "não são os mais caros" do Paseo. Seu prato mais barato, uma pizza napolitana, custa o equivalente a R$ 44.

A tequila que Carcache e seus amigos compraram na rua por 700 pesos cubanos (US$ 160), custa, no Paseo, o equivalente a R$ 550, cerca de R$ 70 a menos do que o salário mínimo em Cuba. "Os preços oscilam todos os dias, infelizmente", lamenta Moraima. "Se hoje a carne "de porco aumentar para mim, tenho que aumentar o preço", justifica.

Dólar pressiona

Item básico da dieta nacional, a carne de porco saltou de R$ 8 para R$ 29,80 a libra (0,45 kg) nos últimos dois anos, um preço inatingível para o bolso médio. O economista Pedro Monreal explicou no Twitter que "o aumento do preço das carnes populares da pecuária nacional transformou-as em comida 'gourmet'".

Além disso, os proprietários de negócios são obrigados a importar em moeda estrangeira os insumos de que precisam, ou comprá-los nos escassos mercados atacadistas existentes na ilha e que operam em dólares.

E, em meio a uma inflação galopante, enfrentam outro agravante: têm de comprar o dólar no mercado informal, onde já está cotado a 65 pesos a unidade, mais do que o dobro dos 24 do câmbio oficial, pois não podem adquirir nos bancos nem nas casas cambiais do país.


AFP/Dom Total



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