Brasil

11/10/2021 | domtotal.com

Plano de saúde vai à guerra

Há um punhado de indagações cabíveis nesse caso. Primeiro, por que um plano de saúde precisa de hino?

Beneficiário da Prevent Senior, Tadeu Frederico de Andrade; advogada Bruna Morato; ex-médico da Prevent Senior, Walter Correa de Souza Neto; advogada Priscila Pamela Cesário dos Santos na CPI Pandemia no Senado
Beneficiário da Prevent Senior, Tadeu Frederico de Andrade; advogada Bruna Morato; ex-médico da Prevent Senior, Walter Correa de Souza Neto; advogada Priscila Pamela Cesário dos Santos na CPI Pandemia no Senado (Leopoldo Silva/Agência Senado)

Afonso Barroso*

Nascemos para trilhar / Um caminho a desbravar/ Nascemos para viver/ De lutas até morrer/ E juntos nós estaremos / E juntos nós vencermos / Com espadas e com canhões/ Nós somos os guardiões / Nós somos os guardiões / Nós somos os guardiões.

Estes são versos de um hino. Mas que hino? Hino militar? Um canto de guerra? Hino de preparação para um embate mortal? Hino de avanço da tropa para o extermínio do inimigo?

Nada disso (ou tudo isso). É o hino da Prevent Senior, poderosa empresa dona de um plano de saúde cuja especialidade é atender pessoas da terceira idade. De acordo com a advogada Bruna Morato, em depoimento na CPI da Pandemia, os médicos chamados guardiões formam um grupo especial, espécie de tropa de elite, encarregado de fiscalizar o trabalho dos plantonistas. E são obrigados a cantar o hino com a mão no peito, o que a empresa nega. Diz que eles não são obrigados a cantar e nem o fazer com a mão no peito. Mas que cantam, cantam. E em coro solene.

Há um punhado de indagações cabíveis nesse caso. Primeiro, por que um plano de saúde precisa de hino? Por que médicos são chamados de guardiões? E por que essa necessidade de proclamar a disposição de combater com espadas e canhões?

De acordo com a prática usual da profissão de médico, as armas que esses profissionais, ditos discípulos de Hipócrates, usam não são espadas e canhões, mas bisturis, agulhas, luvas, máscaras, estetoscópios, aparelhos de pressão, balões de oxigênio e, principalmente, remédios contra os mais variados tipos de doenças. O inimigo que eles devem combater não são ameaça para eles, e sim para os pacientes. Portanto, não precisam viver de lutas até morrer, como diz a letra do hino. Mais parece que querem viver de lutas não até morrer, e sim até matar, como ficou demonstrado nas mortes ocorridas durante o tratamento de Covid por essa organização médico-militar.

Não há dúvida quanto à inspiração nazifascista dessa organização, o que se torna mais evidente no slogan que adota: Lealdade e obediência. No caso de uma equipe médica, em especial quando encarregada de cuidar da saúde de idosos, seria mais apropriado usar palavras bem diferentes, como Ciência e solidariedade, ou Sabedoria e caridade, em vez de Lealdade e obediência.

Lealdade e obediência podem ser normas de algum batalhão, de uma associação de milicianos ou até de um colégio militar, jamais de um plano de saúde. Lealdade a quem e obediência a quê?

E fica outra dúvida cruel no ar: serão mesmo médicos os plantonistas e "guardiões" da Prevent Senior, a receitar medicamentos como a cloroquina, comprovadamente ineficazes e até nocivos à saúde dos velhinhos?

Não haverá entre eles generais, tenentes e coronéis fantasiados, todos de jaleco e sob o comando de algum capitão sanguinário?

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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