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11/10/2021 | domtotal.com

O 'Livro-dos-rostos' está mostrando a sua verdadeira cara


Não é a primeira vez, nem será a última, que o Facebook é criticado por, basicamente, transformar os usuários em mercadoria que os anunciantes (e outras entidades obscuras) compram a bom preço. Mas desta vez a crítica vem de dentro da empresa.

A ex-funcionária do Facebook e denunciante Frances Haugen presta depoimento no Senado dos EUA
A ex-funcionária do Facebook e denunciante Frances Haugen presta depoimento no Senado dos EUA (Jim WATSON/AFP)

José Couto Nogueira*

Frances Haugen, uma ex-gestora de produto do Facebook, no dia 3 de outubro, deu uma entrevista ao icônico programa 60 Minutos e fez declarações estarrecedoras sobre como Mark Zuckerberg, que é dono e senhor da plataforma (e ainda do WhatsApp e do Instagram) dá mais prioridade ao lucro do que ao bem-estar dos assinantes.

A posição tão previlegiada que Haugen tinha dento do império com mais de 1,69 bilhão de "habitantes", levaram a que os seus comentários tivessem um impacto formidável. Além de abrir a boca, Haugen tinha fotocópias de milhares de documentos comprovando o que dizia, e muitos tinham sido publicados pelo conservador Wall Street Journal durante três semanas.

Em menos de três dias já estava depondo na Comissão do Senado de Comércio, Ciência e Transportes – que já estava investigando a plataforma. É de notar que o controle ou descontrole das plataformas sociais é a única temática em que republicanos e democratas estão de acordo. A ideia, cada vez mais real, é que é preciso regular o Facebook, já que o Facebook não se auto-regula.

Segundo Haugen, Zuckerberg não o faz por um misto de negação (da sua influência nefasta), de irresponsabilidade e de ganância. Parece que 120 bilhões de dólares não lhe chegam. (Ainda não está ao par com Jeff Bezos, Bernard Arnault, Elon Musk e Bill Gates, o que implanta chips nas vacinas...)

Zuckerberg, que começou a carreira inventando o Facebook e ao mesmo tempo trapaceando os sócios iniciais, como se vê no filme A rede social ou no livro Uma feia verdade, nunca teria realmente sonhado com uma sociedade universal de pessoas interagindo para o bem comum, como gosta de dizer; ao princípio terá pensado apenas em fazer sucesso, mas, logo que conseguiu monetarizar a sua invenção, passou a sonhar com a forma de fazer mais dinheiro. O truque, como sabemos hoje, não é vender anúncios, mas vender informações aos anunciantes. Quanto mais personalizadas essas informações (pessoas louras, com preocupações de calvície, de médio rendimento, vivendo em certa área, amantes de desenhos animados e gatos, etc. etc. por exemplo) mais certeiros os anúncios e mais valiosos para os vendedores.

Para complicar a questão, há ainda a política, a moral e uma série de parâmetros que não podem passar despercebidos e são usados por partidos, grupos de influência, etc. etc.)

Mesmo que Zuckerberg fosse um humanista místico, preocupado com o bem-estar de todos e cada um, seria muito difícil avaliar, e ainda menos controlar, o que dizem os seus assinantes. Mas, primeiro, certamente que não é; segundo, mesmo que fosse, não conseguiria encontrar um algoritmo que desse voz a todos sem censurar ninguém.

"O meio é a mensagem" como disse profeticamente o canadense Marshall MacLullan em 1964, numa época em que a internet não passava dum brilho nos olhos de Vinton Cerf e Bob Kahn. Talvez nem ele percebesse o que estava dizendo, mas acertou em cheio. Aos olhos de Zuckerberg, o conteúdo das mensagens não interessa, desde que elas se reproduzam aos bilhões. Daí o famigerado algoritmo, tantas vezes remexido pelo próprio Facebook, à procura da viralidade (capacidade de se multiplicar) máxima para as mensagens que os assinantes escrevem, com todo o tipo de intenções, desde mostrar o gatinho a massacrar toda a gente.

A discussão tem girado em torno da responsabilidade do mensageiro, sem levar em conta o que Haugen acaba de provar, que o mensageiro não é responsável ou irresponsável, antes um sociopata que não vê, literalmente, as consequências da sua irresponsabilidade.

Não pode ser acusado de ter sido assim inicialmente. Ninguém podia prever os desvios perversos que o conceito iria permitir. Tratava-se, vale a pena lembrar, de conectar os alunos de Harvard, sobretudo para permitir aos rapazes "avaliar" as moças. Era só essa intenção, um tanto ingênua e outro tanto machista, de universitários que queriam se divertir. Foi a pressão social que levou Zuckerberg e o ainda sócio Eduardo Savarin (que depois seria miseravelmente escorraçado, como outros) a alargar o The Facebook às outras oito universidades da Ivy League, depois a todas as universidades dos Estados Unidos, a seguir ao país todo, e finalmente ao mundo inteiro. Até esta fase, a plataforma não ganhava dinheiro, só gastava.

A segunda invenção formidável do jovem que nem chegou a terminar o curso de Harvard foi precisamente essa, como pagar as contas dos servidores cada vez maiores.

Numa sociedade totalitária, como a chinesa, estas questões não se levantam. As redes são uma forma de controlar os cidadãos, e não custa nada ao poder censurar uns e incentivar outros, aberta e orgulhosamente. A questão levanta-se nos países onde se pretende, talvez ingenuamente, dar liberdade e responsabilidade ao mesmo tempo. É essa a questão que nenhum governo ou regulador conseguiu ainda resolver.

Talvez a solução esteja na educação das massas – já pensadores do século 17 achavam que um povo educado saberia distinguir o bem do mal, embora até hoje esse nível de educação ainda não exista. Talvez nunca venha a existir.

Entretanto, as "forças do mal", sejam elas a empresas a querer vender mais produtos inúteis, seja governos a influenciar a política dum país estrangeiro, vão agindo alegre e impunemente. Entretanto, como Haugen acaba de confirmar, o Dono Daquilo Tudo mostra-se perplexo e diz que tem boas intenções, mas não quer fazer nada.

As redes sociais em geral, o Facebook em particular, destruiram a comunicação social tradional que, apesar dos seus muitos defeitos e insuficiências, era de fato o "quarto poder", e podia meter na ordem os outros três. Agora, esse poder está na rua.

Uma solução imediata, parcial, mas com efeitos visíveis a curto prazo, seria obrigar o Facebook a divestir (vender) as outras plataformas que possui. O mais estranho é que ninguém fala nisso. O Congresso norte-americano, cuja decisão nesse sentido teria repercussões mundiais automáticas, nem sequer aflorou a ideia. A própria Haugen é contra. 

Já houve precedentes de divestimento, como em 1984, quando a AT&T, a telefônica nacional, foi obrigada a dividir-se em sete empresas regionais. Contudo, nestes 22 anos está quase terminada a junção dum novo monopólio. Quer dizer, não serviu de nada. Mas os telefones formam uma única rede, era inexorável que acabassem por se juntar. O mesmo não acontece com as redes sociais, que funcionam separadamente. Não é preciso ter Facebook para se aceder ao Youtube (que pertence a outro gigante, a Google).

É verdade, a Google! Já nos tínhamos esquecido... Também está metida em vários processos, basicamente pela mesma razão, de usar os clientes como mercadoria. E também de priorizar os anunciantes nas buscas, e ainda de registrar a navegação dos usuários.

Mas essa é outra história.

Por ora deixemos Larry Page em paz a vejamos o que dá a guerra a Zuckerberg.

Títeres a precisar que lhe encurtem as rédeas não faltam.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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