Coronavírus

10/10/2021 | domtotal.com

A pressão sofrida por jovens médicos em meio à pandemia no Amazonas

Falta de insumos, equipamentos e leitos para o tratamento da Covid-19, bem como a pressão pelo uso do 'kit covid' foram relatados por médicos recém-formados

Paciente com Covid-19 é tratado no pátio do Hospital Vinte Oito de Agosto, em Manaus, enquanto aguarda vaga para internação
Paciente com Covid-19 é tratado no pátio do Hospital Vinte Oito de Agosto, em Manaus, enquanto aguarda vaga para internação (Michael Dantas/AFP)

Wérica Lima
Amazônia Real

Recém-formada, a médica Dayana Lopes, de 28 anos, trabalhou na UTI de Covid-19 do Hospital de Campanha Delphina Aziz, em Manaus. Mas não só lá. Nesta pandemia, passou também, durante algumas semanas, pelo único hospital de Maués, interior do Amazonas, experiência que resume como traumática. Como outros colegas que complementam a renda em mais de um local de trabalho, atuou ainda em hospitais privados e, particularmente em um deles, se sentiu intimidada. Eles queriam que a jovem profissional receitasse medicamentos como hidroxicloroquina e ivermectina.

A realidade vivenciada por Dayana mostra que não foi só a Prevent Senior, atual alvo da CPI da Covid, que utilizou medicamentos ineficazes no tratamento de pacientes com o coronavírus. A jovem médica fez o que deveria ser feito ao ouvir a recomendação: questionou se era protocolo do hospital (cujo nome não será revelado para não prejudicar a médica) ou se só por que todos da equipe médica estavam fazendo uso ela também deveria adotar o procedimento incorreto.

"Logo no início quando comecei a trabalhar vi que alguém estava querendo me forçar, até perguntei se era protocolo do hospital ou se era algo que todo mundo estava fazendo e por isso automaticamente eu teria que fazer, se era obrigada a prescrever, porque eu não concordo com  o protocolo de tratamento", afirmou à Amazônia Real

De um colega médico, ouviu que havia alguns artigos no Google Acadêmico. Descobriu  que eram artigos de revisão, nada era comprovado, como agora já se sabe que jamais será. "Muitos profissionais seguiram condutas de outros e não por que chegou a estudar se era ou não correto os protocolos com ivermectina, hidroxicloroquina, eu nunca prescrevi para nenhum paciente meu. Ivermectina eu prescrevo para escabiose".

Sem comprovação científica, o chamado "tratamento precoce" e outros tratamentos alternativos foram prescritos indiscriminadamente pelo país, e agora os defensores tentam se eximir de responsabilidade sob o álibi da autonomia do médico. Foi essa a fala de Bolsonaro, inclusive em seu discurso na ONU, e é também a de entidades médicas, que nunca condenaram o uso de hidroxicloroquina e ivermectina, além de outras experimentações.

Nos dois últimos dois anos, médicos em início de carreira foram direto para o front da pandemia. Encontraram uma batalha campal. O "kit-covid" foi só uma das bombas deixadas pelo caminho. Thierry Brasil, de 25 anos, se formou em janeiro deste ano e teve de enfrentar a grave crise de falta de oxigênio nos hospitais de Manaus. No seu dia-a-dia, também se deparou com médicos que prescrevem o uso do kit. Ele dá "graças a Deus" por ter tido, até agora, o direito de adotar uma conduta médica com base em evidências.

"Eu ainda acabo vivenciando esse tipo de situação, da gente chegar em algum local e médicos utilizarem esses medicamentos [do tratamento precoce]. A gente, infelizmente, vive um momento de saúde pública bem bipolar no sentido de ideologias políticas interferirem nesse tipo de situação", afirma o jovem médico.

Thierry Brasil, 25, teve a formatura antecipada para ajudar a aliviar um sistema de saúde sobrecarregado. Era janeiro deste ano e o Amazonas estava em estado de calamidade. Pacientes morriam asfixiados por falta de oxigênio nos hospitais. Faltavam medicamentos até para atenuar o sofrimento da intubação. As Unidades de Saúde Básica (UBS) e grandes unidades hospitalares da região estavam lotados. Familiares buscavam desesperados por oxigênio para reabastecer os cilindros para pacientes que estavam em casa.

Da formatura para o front

Ao receber o diploma, o médico de Manaus imaginava estar preparado para trabalhar naquele cenário de guerra. Àquela altura, as notícias da pandemia mostravam uma realidade dramática, e seus professores já alertavam sobre as dificuldades. Mas a realidade cobrou seu preço. Em fevereiro, Thierry foi alocado para trabalhar no Hospital Regional José Mendes, no município de Itacoatiara, interior do Amazonas. Lá, o quadro de funcionários estava defasado e a demanda por atendimento só aumentava. A segunda onda de Covid-19 avançava severamente para o interior do estado.

"Ficava na porta de entrada recebendo as pessoas passando mal. Cheguei a atender uns 80 a 100 pacientes, era um fluxo muito grande, com pacientes muito graves, internados tinha uns 30 a 40 na ala onde eu estava", conta Thierry.

Ainda nas duas primeiras semanas trabalhando como médico, Thierry afirma já ter vivido o que será um dos seus piores plantões de uma carreira que está só começando. "Tinha paciente morrendo no corredor, precisando de mim em várias alas de hospital. Era um plantão noturno e tinha apenas dois plantonistas. No meu primeiro plantão, infelizmente pessoas morreram porque a gente estava enfrentando uma crise muito grande. Eu não estava preparado psicologicamente para aquele momento", relata o médico.

Sem Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no interior do Amazonas, diversas pessoas no Hospital José Mendes enfrentaram complicações decorrentes da Covid-19. Enquanto Thierry tentava reanimar um paciente, outros pacientes internados tinham parada respiratória. Os dilemas éticos de um médico se tornaram uma escolha entre aqueles que tinham mais chances de sobreviver.

"Eu vivenciei momentos que vão ficar marcados. Um deles é quando estava em um quarto que tinha vários leitos fazendo a reanimação de um paciente e no mesmo quarto outro paciente começou a parar também. O outro plantonista também estava ocupado fazendo outra reanimação. Ali você se vê sem ter o que fazer, por já estar ocupado com um paciente e sua equipe estar ocupada também. Você tem que se desdobrar para resolver toda a situação, enquanto tinham outros com risco de parada cardíaca", lembra. Na ocasião, um dos pacientes foi a óbito, apesar de Thierry ter se esforçado com sua equipe de técnicos e enfermeiros para prestar atendimento a todos.

De mãos atadas

A médica Dayana Lopes também enfrentou o drama de ter de atender no interior amazonense, onde constatou que as unidades de saúde não estavam preparadas para enfrentar a pandemia do novo coronavírus. "Uma das piores cenas foi em Maués, de ter que sair da enfermaria, porque eu não aguentei ver o paciente gaspeando, precisando de oxigênio, já com esforço respiratório e ter que colocar morfina para ele não sofrer tanto. Não foi só um paciente, foi mais dois ou três que vi nessa situação. E fiquei de mãos atadas por falta de estrutura mesmo", lembra.

O hospital de Maués, o único do município, só tinha um ventilador mecânico de transporte. Os suportes de oxigênio também não tinham uma boa pressão para serem conectados a um ventilador mecânico. Num dia, a médica recém-formada viu cerca de cinco pacientes morrendo por falta de intubação. "Foi uma das piores experiências da minha vida", admite.

"Chegava um horário que baixava a pressão de oxigênio e todo mundo saturava, a enfermaria lotada com paciente e a gente precisando de oxigênio. Eu tinha que fazer alguma medicação de broncodilatador pulmonar para não cair tanto a saturação. A gente chega a um certo ponto que não consegue mais avançar, a gente precisa de estrutura, de equipamentos e a gente não tinha, né? Fiquei tão traumatizada que não voltei mais", afirma.

Nas comunidades indígenas

O médico Israel Dutra, indígena da etnia Tuyuka, se formou no início da pandemia, em 2020. Passando por diversos hospitais, unidades de pronto atendimento (UPA) e comunidades indígenas, encarou a luta contra a Covid-19 como uma guerra. "Era um clima péssimo, com as coisas de todo lado bombardeando, o povo em pânico. Os mais novos tiveram que encarar tudo praticamente, além da falta de experiência tinha a falta de saber quais medicamentos administrar para os pacientes. Juntou tudo isso e para mim foi uma situação muito complicada, a perda de pacientes foi uma consequência de tudo isso", relembra.

O Amazonas registrou 13.723 mortes por Covid-19 até o momento, enquanto o total de casos notificados está na faixa dos 426 mil. "Era uma coisa de outro mundo, toda hora no seu ouvido, a todo minuto 'maqueiro no necrotério, maqueiro no necrotério'. Em outro minuto, era ambulância com a sirene chegando na porta, gente gritando desesperada. Somos preparados para sermos frios, mas claro que nós somos humanos e em algum momento sentimos isso, eu senti isso, mas tive que me conter", afirma Israel Dutra.

Apesar de jovem médico, Israel Dutra logo percebeu em suas visitas a comunidades indígenas com casos de Covid-19 que o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) seguia o protocolo do Ministério da Saúde. Mas, em sua opinião, essa opção fugia da realidade indígena. Foi quando Israel decidiu criar o próprio protocolo com base no que vivenciou nos hospitais da capital amazonense.

A solução encontrada foi colocar os pacientes debaixo de árvores, onde havia uma ventilação melhor. O médico explica que as casas de zinco eram super abafadas e a forma de isolar os pacientes em quartos quentes com máscara estava matando mais indígenas. Ao serem colocados embaixo das árvores, a saturação melhorava.

"O pessoal do Dsei diziam que eu era contra a regra. Disse para eles que eu era e fazia o que achasse melhor. Eu disse que comunidade indígena não é hospital, então tem que ser tratado de forma diferente. Quebrei um monte de regras do protocolo", complementa o médico.

"Tanto os médicos dos grandes hospitais quanto o Ministério da Saúde não tinham muita noção da doença e não tinham muitos estudos para cuidar das comunidades indígenas", acrescenta. Israel lembra que as previsões do Ministério da Saúde e de muitas pessoas eram de que houvesse uma extinção dos indígenas por conta da imunidade. "Não vingou", conclui o jovem médico, e acredita que o que permitiu a resistência dos indígenas foi o ambiente de floresta onde vivem, com ar puro e por não terem muitas comorbidades.

Experiências dolorosas

O jovem médico Thierry Brasil chegou a ficar de plantão quatro dias seguidos, por 24 horas por dia, no Hospital Regional José Mendes. Os intervalos eram de 20 minutos para comer e 30 para cochilar e ter a "bateria recarregada". Mas até estas mínimas paradas costumavam ser interrompidas com as urgências nas alas hospitalares.

A possibilidade de transferir os pacientes para Manaus praticamente não existia, mas fechar as portas do hospital não era uma opção. "A gente tinha que fazer nosso mil por cento lá, não era nem cem por cento. A gente fazia o que podia e não podia. A gente colocava vários pacientes na mesma sala, a porta ficava aberta, qualquer paciente que chegava era atendido, não tinha essa de limite, a gente colocava paciente literalmente onde dava", descreve.

Alguns dos pacientes conseguiram ser transferidos para hospitais de outros estados. Itacoatiara teve uma usina de produção de oxigênio instalada no hospital semanas depois da chegada do médico Thierry. Apesar da crise de oxigênio ter durado menos que em outros municípios, os casos de Covid-19 ainda perduraram por bastante tempo no município.

A pressão psicológica

"Quando falaram 'o estado do Amazonas precisa de vocês', a gente se viu com o sentimento de medo. Apesar de ver a todo momento as notícias e todos os outros profissionais falando, quando a gente vivencia na pele a realidade é bem diferente", comenta Thierry. A pressão e o medo vinham da responsabilidade de ser responsáveis por vidas durante a pandemia. As conexões, o afeto pelos pacientes que não estavam em boas condições estruturais deixavam a mente do médico sobrecarregada.  

"Essa questão psicológica vai ficando bem estraçalhada, porque você não tem muita escolha e acaba vivenciando coisas que não gostaria, perdendo pacientes que têm certo carinho. Infelizmente a vida acaba naquele momento, te trazendo sinais não desejáveis", desabafa Thierry. Na pandemia, o jovem médico optou em alguns momentos em não ler notícias ou conversar com outros médicos que passavam por situações parecidas.

"A gente já imaginava que ia ser difícil, mas não que ia ser tão traumatizante a ponto de não conseguir fazer nada pelo paciente. A gente estuda para salvar vidas e no livro é um conto de fadas, a gente tem tudo. Mas quando chega na vida real, principalmente no interior do Amazonas, não tem estrutura suficiente para atender paciente de alta complexidade", acrescenta a médica Dayana.

Depois de meses trabalhando na linha de frente, a médica percebeu o quão cansada está, com o psicológico abalado e sobrecarga de trabalho. "Estou sentindo isso agora, no início a gente não tinha tempo para pensar nessas coisas, é tanto paciente grave que até o que não era para ser normal  automaticamente fica natural, de tanto a gente ver morrer por falta de estrutura".

'A conta histórica vai chegar'

Para o médico Thierry, o Brasil foi vítima da negligência e negacionismo. Boa parte das vidas perdidas no Amazonas e no país foram pela falta de políticas claras no enfrentamento da pandemia. "As questões de gestão de política ficaram bem aquém no nosso estado. Eu acho que a conta histórica vai chegar para essas pessoas. A conta não está nas costas dos médicos, dos enfermeiros, dos funcionários que estavam lá todo dia dando sua vida e se abdicando de muita coisa. Não é culpa da população, é um vírus que chegou de surpresa e tomou conta do mundo todo. Essa conta histórica vai pesar na mão desses governantes que não entenderam, não aceitaram a ciência e que não se propuseram a criar políticas mais contundentes para que o vírus fosse erradicado ou pelo menos controlado", afirma.

A médica Dayana, depois de passar por problemas psicológicos devido à crise do oxigênio, também chegou à conclusão de que a culpa não era das equipes hospitalares. "Eu comecei a pensar que não podia carregar uma culpa que não é minha, estava tentando dar o meu melhor para o paciente, só que não dependia só de mim, mas da gestão do hospital que depende da gestão dos políticos".

Até hoje, em um hospital onde a médica faz plantão no interior do estado, chega a faltar medicamentos básicos de inalação. "Não tem uma maca, um lugar que eu possa ter privacidade com o paciente para examinar. A higiene é péssima e é um problema que vem de muitos anos. Muita gente morre por culpa de políticos, seja indiretamente ou diretamente. Não tenho dúvida de que muita gente morreu por culpa de políticos", critica.

O Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam) denunciou, desde o início da pandemia e até antes dela, a falta de leitos de UTI, demanda reprimida de leitos e as péssimas condições de trabalho para os profissionais de saúde. "Todos os níveis de atendimento de saúde do estado, de Manaus e do interior, são muito precários. Essa é uma verdade, e a pandemia tornou isso mais evidente", explica Mário Viana, presidente do Simeam.

Formatura adiantada

Os médicos recém-formados foram autorizados pelo Ministério da Saúde, na época da gestão do ministro Luiz Mandetta, a anteciparem suas formaturas para trabalhar no combate à Covid-19 no Amazonas. "Eu acredito que a ajuda desses recém-formados foi muito importante para aliviar a situação de sobrecarga do sistema, que na pandemia aumentou muito. A presença desses jovens médicos foi com certeza importantíssima", atesta o presidente do Simeam.

As colações antecipadas foram permitidas pela Medida Provisória nº 934, de 1º de abril de 2020, que orientou as Instituições de Ensino Superior a abreviarem a duração dos cursos de Medicina, Farmácia, Enfermagem e Fisioterapia. O único critério é que o estudante tenha cumprido a carga horária mínima de 75% do estágio curricular obrigatório de seu curso.

"Por se tratar de uma situação de ordem mundial, de uma pandemia, onde ninguém estava preparado para isso, tivemos que se adequar de acordo com a realidade de cada local de trabalho. Foi um desafio não só para os recém-formados, mas para todos os profissionais da área de saúde que atuaram fortemente nesse combate", diz o professor Diego Regalado, diretor da Escola Superior de Ciência da Saúde da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Publicada originalmente em Amazônia Real.


Amazônia Real



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