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12/10/2021 | domtotal.com

Um Nobel para o jornalismo

Os jornalistas e o verdadeiro sentido de seu ofício

A cofundadora e CEO do site de notícias Rappler, Maria Ressa, e Dmitry Muratov, editor-chefe do principal jornal russo de oposição, o Novaya Gazeta
A cofundadora e CEO do site de notícias Rappler, Maria Ressa, e Dmitry Muratov, editor-chefe do principal jornal russo de oposição, o Novaya Gazeta (Isaac LAWRENCE, Yuri KADOBNOV/AFP)

Alexis Parrot*

O anúncio dos vencedores do Nobel da Paz 2021 ilumina ainda mais a tribuna naturalmente ocupada pela imprensa. Ao consagrar a trajetória jornalística do russo Dmitry Muratov e da  filipina Maria Ressa, o comitê sueco do prêmio executa bem dado e merecido tapa na cara de todos aqueles que se opõem à liberdade de expressão e perpetram ou apoiam a disseminação de fake news.

Ou alguém ainda duvida que as notícias falsas espalhadas durante o longo inverno pandêmico da Covid que se abateu sobre nós competiram para agravar a situação? Infelizmente, não há como mensurar o estrago causado cada vez que Alexandre Garcia defendia a eficácia da cloroquina e questionava a utilização de máscaras ou medidas de isolamento social na CNN Brasil – o que não deveria ser empecilho para responsabilizá-lo judicialmente pelos desserviços prestados.

Antes tarde do que nunca, a emissora acabou por demiti-lo, da mesma forma como tardiamente foram retiradas do ar contas em redes sociais de canais pseudojornalísticos operados por blogueiros bolsonaristas. Na contramão do mundo, que exige maior rigor na moderação de Facebooks, Instagrams e que tais, por aqui o presidente assinou medida provisória (providencialmente vetada pelo Congresso) defendendo exatamente o oposto, minimizando o impacto negativo das fake news e postagens de ódio nas redes. 

Ressa e Muratov são o outro lado da moeda. Porta-vozes da legalidade em regimes autoritários, representam o repórter na linha de frente que coloca a própria vida em risco para noticiar tudo aquilo que seja de interesse público. Editor-chefe da Novaya Gazeta de Moscou, Muratov enterrou 6 colegas de redação assassinados desde a primeira edição do jornal, em 1993. Lembrando que no Brasil 24 jornalistas já encontraram morte semelhante só em 2021, somos obrigados a admitir que o tema eleito pelo Nobel nos concerne diretamente.   

O prêmio honra também a memória de inúmeros jornalistas ao redor do mundo que caíram em nome de um ideal. Como o siciliano Pippo Fava, executado pela máfia nos anos 1970; ou o dissidente Jamal Khashoggi, morto por agentes governamentais no consulado saudita em Istambul, em 2018; ou os profissionais do parisiense Charlie Hebdo, cuja redação sofreu um ataque terrorista em 2015; ou Vladimir Herzog, vítima da ditadura militar brasileira em 1975... A lista é quilométrica e ultrajante.  

Se real, o repórter investigativo Mikael Blomkvist (da trilogia Millennium do escritor sueco Stieg Larsson) estaria na primeira fila aplaudindo os companheiros premiados, enquanto o Chuck Tatum de Kirk Douglas (protagonista do filme A montanha dos sete abutres, de Billy Wilder) sairia de cena à francesa, envergonhado, antes que alguém se lembrasse o quanto a láurea se opõe à maneira com que sempre encarou o ofício.

Chamado jocosamente de "a segunda profissão mais antiga do mundo", ou a sério de "quarto poder", o jornalismo, bem como seus agentes, é prolífico em representações ficcionais, ora o louvando como iniciativa heroica, ora o denunciando como potencial artifício de manipulação da verdade.

Ao contrário do cinema, que tem por hábito retratar a imprensa como contrapeso moral face às escaramuças do poder, as tintas usadas na televisão são mais diversificadas. Estampam a figura do jornalista com um lastro maior de humanidade, recheada de erros, dúvidas e vaidades passíveis de acometer qualquer um de nós.

A matéria utilizada pela televisão para moldar este tipo de personagem é recolhida a léguas de distância dos pedestais em que as lendas da profissão foram colocadas. Enquanto Woodward, Bernstein e o caso Watergate se prestam à tela grande (como visto em Todos os homens do presidente), a TV rejeita o épico e prefere a crônica como estilo para desenvolver suas teses.      

De Mary Tyler Moore a Murphy Brown, várias gerações de mulheres norte-americanas foram encorajadas na luta por respeito e igualdade enquanto assistiam às duas repórteres se dividindo entre o lado familiar e profissional de suas vidas – com uma coisa interferindo na outra, comme il faut.

Para o cinema o que importa é a narrativa da construção da reportagem e a denúncia de algum aspecto corrompido do sistema (como no vencedor do Oscar Spotlight, que recria a série de artigos do Boston Globe sobre pedofilia na Igreja católica). Já para a televisão, o que está no centro das atenções da sua ficção seriada é o repórter e seu cotidiano, além da crítica (ácida ou bem-humorada, dependendo do programa) ao próprio meio televisivo. 

Em The Newsroom, memorável série da HBO criada por Aaron Sorkin e com Jeff Daniels à frente do elenco, a pauta de um canal a cabo de notícias destacava acontecimentos da vida real em meio aos dilemas pessoais e éticos de sua equipe fictícia. Assuntos fervilhantes como a morte de Bin Laden e a ascensão do grupo radical Tea Party dentro do Partido Republicano (que mais tarde desaguaria na eleição presidencial de Trump) foram temas discutidos pelo personagem de Daniels na bancada de seu telejornal. 

Na segunda temporada, The Morning Show (Apple TV+) mantém acesa a chama de The Newsroom e dá um passo além. Não existe outro programa de TV no ar que consiga refletir tão bem o tempo atual, marcado pela redefinição de tantos paradigmas culturais. Não por acaso, a série movimenta os bastidores de um programa de notícias matinal de uma grande emissora de TV baseada em Nova York.  

No primeiro ano a série atacou com destreza a presença avassaladora do assédio no ambiente de trabalho (cuja visibilidade se potencializou a partir das denúncias de vítimas da indústria do cinema, no movimento #Metoo). Sem abandonar o assunto, o foco agora começa a se delimitar em torno de questões raciais e de preconceito, ecoando o clamor do Black Lives Matter e discutindo bandeiras da comunidade LGBTQ+.

Ambientado em 2020, o programa também propõe uma visão sem romantismo sobre o estouro da pandemia e na descrença inicial da mídia acerca da periculosidade do coronavírus.

Com tudo isso no cardápio, a trama bem urdida de rivalidade entre apresentadoras acaba sendo apenas mais um item dentro da rica narrativa. Entre tantas discussões oferecidas, vemos desfilar diante de nós um retrato crítico e articulado do zeitgeist de nossa era. 

Em um tempo tão extraordinariamente confuso e de cisão como o nosso, é importante que a TV e sua ficção se ocupem em produzir reflexões sobre o real – uma vez que nem sempre a imprensa tradicional e o telejornalismo cumprem a função a contento. Daí a acertada escolha em premiar o jornalismo investigativo (na figura de dois de seus representantes mais contundentes) com o Nobel da Paz.

Porque informação é sim caso de vida ou morte.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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