Religião

12/10/2021 | domtotal.com

Conselheira do papa Francisco fala sobre o Sínodo

Irmã María Luisa Berzosa, uma das pessoas de confiança de Francisco, fala o quanto o pontífice anseia por uma igreja mais 'relacional' e menos 'institucional'

María Luisa Berzosa conhece Francisco há anos. Após participar do Sínodo dos jovens (2018), se tornou consultora permanente do Sínodo dos bispos
María Luisa Berzosa conhece Francisco há anos. Após participar do Sínodo dos jovens (2018), se tornou consultora permanente do Sínodo dos bispos (Angelus News)

Mirticeli Medeiros*

Após as missas com o papa, é aquela confusão de sempre. As equipes de serviço desmontam as cadeiras, as pessoas se cumprimentam, e todos tentam sair pela porta principal. Nem parece que, minutos atrás, aquele clima solene pairava pelos ares. E eu estava na Basílica de São Pedro, no último domingo (10), após participar da missa de abertura do sínodo sobre a sinodalidade, colhendo algumas entrevistas.

E foi em meio a essa correria toda que encontrei a irmã María Luisa Berzosa González, cujo sorriso se destacou no meio da multidão. E nessas horas vemos que o papa Francisco sabe escolher muito bem seus amigos. Uma das religiosas mais gentis e simpáticas que já entrevistei. Que fique registrado.

A abordei em espanhol: “Podemos hacer una entrevista de 5 minutos?”. E ela respondeu prontamente: “Claro que sí!”.

Os guardas do Vaticano pediam que deixássemos a basílica o mais rápido possível. Então conversamos na saída, em pé, sem muitas formalidades. Parecia que eu a conhecia há anos. E a conversa foi fluindo.

Percebi que quando o papa fala de uma Igreja da ternura, não é só uma frase de impacto. Quem ele traz para perto, é gente como a gente, e gosta de gente. Eu estava diante de uma religiosa missionária, da Congregación Hijas de Jesus, que fundou sucursais do movimento Fé y alegria, focado na educação popular, integral e na promoção social, na Argentina e na Itália. Ou seja, conversei com alguém que levou esperança às periferias existenciais que papa Francisco tanto fala. É uma mulher da pastoral concreta e com uma grande capacidade de liderança.

Irmã Berzosa, que é natural da Espanha, faz história no atual pontificado. Ela, juntamente com outras três mulheres (duas religiosas e uma leiga), integra o time de consultoras permanentes do sínodo dos bispos. Repito: dos bispos!. Quem imaginaria que um dia isso poderia acontecer? Acredito que nem ela, nos seus melhores sonhos. Na época, ela, com 75 anos, foi pega de surpresa com a nomeação, que aconteceu em 2019.

E, claro, ela também participa ativamente do sínodo recém-iniciado, pois ocupa um cargo que exige sua colaboração ativa. Na entrevista, falamos sobre a assembleia e sobre sua visão de sinodalidade, enquanto agente de uma igreja em saída, o modelo eclesial por excelência do pontificado de Francisco.

Dom total: O que é a sinodalidade?

María Luisa Berzosa: “Gosto da etimologia da própria palavra. No grego, significa caminhar juntos. E incluo nesse caminhar juntos todo o povo de Deus, todos os carismas, todas as vocações, todas as pessoas que estão unidas pelo batismo, em meio à essa multiplicidade que observamos na sociedade e na Igreja, como povo de Deus em caminho. O encontro, o caminhar juntos, a escuta. Isso é o sínodo da sinodalidade.

Uma continuação do Vaticano II?

Sim, eu diria que é uma retomada da raiz do Concílio Vaticano II. Já se falou de igreja enquanto povo de Deus, enquanto comunidade das comunidades. A grande mudança que ocorreu foi a consciência do ser igreja. De uma igreja hierárquica para uma Igreja circular, de igualdade, de relações mútuas, etc. E como os acontecimentos na história vão se tornando mais obscuros ou mais iluminados, às vezes precisamos rever o que ficou obscuro para irmos adiante. João XXIIII, na época, falou de ‘primavera da Igreja’. E podemos dizer que estamos entrando em outra primavera. É sempre necessário mudar os ares, como ele dizia: “abrir as portas e as janelas”. Então estamos neste momento novamente: de renovar, de abrir.

A senhora que conhece bem o papa Francisco, quais mudanças concretas ele traz em mente?

Na última entrevista que concedeu à COPE, da Espanha, Francisco disse várias vezes que estava fazendo o que lhe tinham encomendado. Antes do conclave, quando os cardeais se reuniram, fizeram o mesmo que as congregações religiosas fazem, em seus capítulos gerais, ao colocarem nas mãos dos capitulares o estado da situação, seja ela econômica, conjuntural; avaliando os pontos fortes, fracos, as obras, etc. Em seguida, vem a eleição da equipe de governo, depois de avaliarem qual perfil melhor se adequa àquele momento histórico. E isso se faz no conclave, quando ocorrem as congregações prévias, anteriores ao conclave. A Igreja está assim, precisamos disso, daquilo, e avaliam as reformas necessárias. E naquele contexto também aconteceu a renúncia de Bento XVI. De repente, olharam para Francisco, e disseram: “É você! Você que deve levar adiante essa reforma”. Acho que ele tem em mente mais coisas do que ele pode fazer, porque os acontecimentos, a própria história marcam o ritmo da coisa. Às vezes, a própria história tem um ritmo, e ele tem outro. Às vezes, ele parece ter pressa, mas não é possível agir daquela forma naquele momento específico. Mas ele tem uma profunda consciência, como tantos bispos e como muitos de nós, que fazemos parte da Igreja, da deterioração provocada pelos abusos, dos pecados da Igreja. E isso precisa ser reformado. Ele começou criando uma comissão para a reforma da cúria. As suas encíclicas também acabam seguindo uma linha comum, que é a da mudança, a de não ficar no “sempre foi feito assim e basta”, como ele tem dito no sínodo. Portanto, Francisco tem em mente o que foi encomendado a ele: uma Igreja dinâmica, que caminha, que não se limita a repetir coisas, mas que precisa adequar-se, como dizia o Vaticano II, que esteja disposta a fazer o famoso “aggiornamento”.

Sendo assim, na sua opinião, podemos considerar Francisco um dos grandes reformadores da história da Igreja?

Francisco é, sim, um grande reformador. E digo mais: seus documentos são a expressão dessa postura. Na Evangelii Gaudium, Laudato Si’, Fratelli Tutti vemos um “substrato” dessa reforma.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras



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