Ciência e Tecnologia

14/10/2021 | domtotal.com

Pensata sobre mal entendidos

'Faltam mais ensaios e digressões a respeito desse espinhoso tema'

'O tema aqui abordado nessa crônica parece pueril, mas não é'
'O tema aqui abordado nessa crônica parece pueril, mas não é' (Pixabay)

Ricardo Soares*

Há muito vivo da palavra, sobretudo a escrita. E se vocês acham que viver ao lado delas nos dá o controle sobre as ditas cujas é ledo engano. “Palavra escrita vem sem bula. Ela pode ser dura ou amorosa. Tudo depende da nossa leitura. Freud explica. E bem”, como bem disse uma querida amiga acerca de um lamentável episódio em que me envolvi recentemente quando melindrei sem intenção um velho conhecido ao tentar fazer um chiste sobre a elegância quase “metrossexual” dele numa foto “nos estrangeiro”. 

Sabe-se lá o motivo ele achou que ao marcar a foto dele numa rede social para alguns amigos eu tinha a intenção em colocar foco nos comentários ali contidos. E eu sequer tinha lido os comentários. Mais um lamentável mal-entendido que valeu uma série de duras palavras dele contra mim e a sua saída do nosso grupo em comum. Lamento por ele e lamento por mim. Ele por não ter entendido, eu por ter sido mal interpretado talvez por falta de clareza de minha parte.

Cito o que aconteceu comigo com a certeza de que muita gente aqui já passou pelo mesmo. E não é apenas uma questão de interpretação de texto e sim dessa tal diversidade que hoje serve para tudo, inclusive para os melindres e suscetibilidades de cada um. É difícil entender que, as vezes, na tentativa de levantar o bom humor em tempos azedos nem sempre as pessoas curtem brincadeiras, por mais inocentes que sejam. Então o que fazer? Entrar no tempo dos silêncios nesse tempo que é de ausências inclusive de  encontros e de  abraços? O ideal é ficar quieto, em todos os sentidos? Não demonstrar estar irritado ou ofendido?

No meu caso o que incomoda é quando você não teve a menor intenção de melindrar, mas melindrou. Nós e nossas emoções baratas que as vezes nos deixam dúvidas se o melhor fórum é ligar, encontrar presencialmente apesar dos receios atuais, mandar áudio ou escrever que para mim é a melhor forma de comunicação entre as pessoas mesmo que todas as evidências se provem ao contrário. Repito: viver de escrever não dá para ninguém o controle das palavras e o que elas atingem.

De tudo isso concluo o seguinte: faltam mais ensaios e digressões a respeito desse espinhoso tema. Essa absurda, obsessiva, fragmentada e excessiva chuva de informações, dados e recados atuais nos levam muitas vezes a tolerância zero em relação aos erros do próximo. E chega uma hora que além da óbvia constatação de que devemos usar menos e parcimoniosamente as redes sociais devemos pensar no que e como estamos nos comunicando. No meu caso, como não é a primeira vez, devo repensar onde peso a mão ou onde erro a dose. Não faz muito tempo inclusive, em outro episódio, fui “cancelado” por um velho colega da mídia porque fiz um trocadilho usando o termo “pé de chinelo” associado a um carinhoso apelido que lhe pespeguei. Era só para rimar, mas ele achou por bem a amizade acabar.

O tema aqui abordado nessa crônica parece pueril, mas não é. É uma variação do texto que fiz não faz muito tempo falando dos “ex-amigos”. Ex-amigos, ex-amores, sabores e dissabores. O impressionante é o paradoxo embutido nisso tudo : nessa enorme Babel virtual nunca nos comunicamos tão mal.

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros , dirigiu 12 documentários.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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