Religião

19/10/2021 | domtotal.com

Sinodalidade: Rosto de uma Igreja comunhão

O caminho sinodal é uma busca sincera de escuta da vontade de Deus para sua Igreja, por meio da voz viva do povo de Deus

O Sínodo quer ser expressão de unidade na diversidade que enriquece, comunhão de mente e de coração, no anseio de juntos buscarmos a vontade de Deus
O Sínodo quer ser expressão de unidade na diversidade que enriquece, comunhão de mente e de coração, no anseio de juntos buscarmos a vontade de Deus (Vlad Shalaginov / Unsplash)

Denilson Mariano*

No domingo, 10 de outubro 2021, o papa Francisco abriu oficialmente os trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade, a se realizar em 2023. Embora não compreendido e recebendo resistência de alguns grupos mais fechados, o grande anseio de Francisco é reforçar a comunhão e a participação na Igreja em todos os níveis, a ponto de fazer da comunhão, da sinodalidade, deste "caminhar juntos", o jeito de ser, a fisionomia, o rosto da própria Igreja.

No terceiro domingo de outubro, a abertura do processo de escuta sinodal em cada Igreja particular, cuja primeira fase vai de outubro de 2021 a abril de 2022. Cada (Arqui) Diocese deve envolver-se neste processo sinodal seguindo o documento de trabalho que orienta uma ampla consulta de todo o povo de Deus. Um esforço de escuta, de comunhão e discernimento a partir de baixo, a partir das comunidades, grupos, movimentos, paróquias e organismos vivos em cada Igreja local. Uma caminhada que exige ter sempre presente a comum dignidade de todos os batizados, como participantes ativos na missão salvífica da Igreja (LG 32-33).

Se bem entendida, esta proposta sinodal não expressa propriamente uma novidade na Igreja, antes, trata-se de uma volta às suas fontes primeiras, originárias, em que as decisões eram tomadas de maneira mais participativa. Na Igreja nascente, a comunhão eucarística e a comunhão de mesa, estendiam-se para outras instâncias da vida e para outros espaços de decisão, de tal forma que expressava o jeito de viver a fé, o jeito de a Igreja ser. O que era celebrado na fé devia ser traduzido na vida (Lex orandi, Lex credendi). 

Por outro lado, os sinais de divisão da comunidade, a quebra da comunhão, como que anulava o efeito da celebração eucarística, o que se pode ver, com relativa clareza, em um dos primeiros relatos bíblicos da eucaristia: "De fato, quando vos reunis não é para comer a ceia do Senhor..." (cf. 1Cor 11,17-34).

O que está em questão não é o predomínio ou a primazia de uns em detrimentos de outros, nem mesmo uma espécie de democratização eclesial. O caminho sinodal é uma busca sincera de escuta da vontade de Deus para sua Igreja, por meio da voz viva do povo de Deus. O anseio principal é ouvir o que o Espírito Santo diz à sua Igreja. 

Não é sem razão que o tripé que orienta os trabalhos do Sínodo, desde a sua fase inicial de consulta até à sua realização e consequente aplicação é: comunhão, participação e missão. E isso não como uma maquiagem temporária, para um evento ou comemoração, mas como a identidade e o jeito de ser da Igreja, tal como sonhada no projeto de Deus pela ação do Espírito. Por isso o processo sinodal é, no fundo, um caminho de conversão para toda a Igreja, para que recupere o seu rosto original e remodele o seu jeito de ser e de agir no jeito misericordioso e próximo do próprio Senhor.

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Embora estas três dimensões estejam profundamente entrelaçadas e mutuamente implicadas umas às outras, pois, em seu conjunto, formam a base de uma Igreja sinodal, vamos nos deter aqui, apenas neste primeiro eixo, o da comunhão. Deus nos constituiu um só povo, para vivermos a unidade, tendo como espelho e modelo a comunhão Trinitária do Pai, Filho e Espírito Santo. 

Cada pessoa, em sua identidade e missão próprias, partilha da mesma dignidade e da comum responsabilidade no plano da Salvação pelo amor. A Igreja, "ícone" da Trindade, tem a missão de ser e de fazer comunhão. Esta é a sua identidade, o seu rosto e se a perder essa fisionomia ou desfigurar-se, quebrando ou ignorando a comunhão, deixa de ser a Igreja de Jesus.

A sinodalidade é um caminho de conversão e de volta à comunhão desejada por Cristo: "Que todos sejam um para que o mundo creia" (Jo 17,21). Quanto maior o exercício e a prática da comunhão eclesial, maior a credibilidade da Igreja no mundo, maior a força do seu testemunho e profetismo. Assim o Sínodo, que em sua etimologia já indica um "caminhar juntos", quer ser expressão de unidade na diversidade que enriquece, comunhão de mente e de coração, no anseio de juntos buscarmos a vontade de Deus para bem realizarmos a missão que Ele nos confiou no mundo.

Esta busca da comunhão já aparece de forma especial na questão fundamental da consulta para o Sínodo: Como é que este "caminhar juntos" tem lugar, hoje, em diferentes níveis (desde o local ao universal), permitindo que a Igreja anuncie o Evangelho? E quais os passos que o Espírito nos convida a dar para crescermos como Igreja sinodal? (DP 2). 

Na prática, trata-se de uma pergunta pelo lugar da comunhão nos diferentes níveis de organização e de ação da Igreja, desde o local ao universal. E é na comunhão que se funda o verdadeiro anúncio do Evangelho. Por isso o Espírito que é o Amor entre o Pai e o Filho, o princípio da comunhão, nos aponta, nos conduz e leva a dar passos rumo a uma Igreja verdadeiramente sinodal.

O Sínodo em questão não se resume a um evento, ou simples acontecimento periódico na vida da Igreja, trata-se de a Igreja, fiel às suas origens, reapropriar-se de um jeito específico de ser e de agir quer em seu interior quer em sua missão no mundo. A Igreja que nasce e vive da Eucaristia, há de sempre deixar-se moldar, segundo às exigências de cada tempo, pelo mistério que celebra. 

Há de sempre buscar reconstruir sua própria identidade, recuperar a sua fisionomia mais própria, genuína e fecunda, à imagem e semelhança de Deus, que é ser comunhão. Por isso, sinodalidade, é a expressão feliz, alegre e vivificante de uma Igreja com rosto de comunhão. Que a comunhão seja o jeito de ser e de agir de toda a Igreja.

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*Denilson Mariano é doutor em Teologia, membro do Grupo de Pesquisa de Teologia Pastoral da FAJE-BH, Coordenador do Movimento da Boa Nova - Mobon, Redator da Revista O Lutador



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