Religião

19/10/2021 | domtotal.com

Sinodalidade para além do clero

É preciso ampliar a visão sobre o conceito de sinodalidade e com isso perceber seu sentido, abrangência e fundamento teológico

A sinodalidade é um termo abrangente pois diz respeito a todos
A sinodalidade é um termo abrangente pois diz respeito a todos Foto (Thomas Vitali / Unsplash)

Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*

Em 2023 a Igreja celebrará mais uma Assembleia do Sínodo dos Bispos com o tema "Por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão". Trata-se de uma temática de alta relevância para compreender a própria identidade e missão da Igreja. A sinodalidade, termo que significa "caminhar juntos", é algo de fundamental importância para a Igreja e tem sido posto no centro das discussões do magistério do papa Francisco.

Ao falar de sinodalidade é comum confundi-la com colegialidade episcopal ou com o evento do Sínodo dos bispos e seu procedimento operativo. Com isso, acaba-se restringindo a sinodalidade ao ministério hierárquico. Porém, é preciso ampliar a visão e com isso perceber seu sentido, abrangência e seu fundamento teológico. É isso que buscaremos fazer com o papa Francisco que, em 2015, no discurso por ocasião do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos (todas as referências sem outra indicação remetem a esse discurso), nos brindou com balizas fundamentais para pensarmos e discutirmos a sinodalidade.

Quanto ao primeiro ponto, sentido da sinodalidade, o bispo de Roma afirma que esta é "dimensão constitutiva da Igreja" e por ela se tem o "quadro interpretativo mais apropriado para compreender o próprio ministério hierárquico". A afirmação da sinodalidade como dimensão constitutiva da Igreja permite-se compreender que faz parte da natureza mesma da Igreja, mistério de comunhão e Povo de Deus (caps. 1 e 2 da Lumen Gentium). 

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Não se trata, pois de mero procedimento técnico, mas faz parte do ser mesmo da Igreja: "a sinodalidade não designa um simples procedimento operativo, mas a forma peculiar na qual a Igreja vive e opera"; e, de modo bem preciso, o papa Bento XVI, na missa de inauguração da Conferência de Aparecida, a propósito do chamado "Concílio de Jerusalém", afirmou que ela é "expressão da própria natureza da Igreja, mistério de comunhão com Cristo no Espírito" (Comissão Teológica Internacional, A sinodalidade na vida e na missão da Igreja, n.42). 

Por isso, o papa Francisco, retomando São João Crisóstomo, recorda que a sinodalidade diz respeito à própria caminhada do povo de Deus: "como diz São João Crisóstomo, 'Igreja e Sínodo são sinônimos', [...] pois a Igreja nada mais é do que este 'caminhar juntos' do Rebanho de Deus pelas sendas da história ao encontro de Cristo Senhor".

É aqui que se pode perceber a abrangência do termo sinodalidade. Ela diz respeito a todos: "Um (sic) Igreja sinodal é uma Igreja da escuta, ciente de que escutar 'é mais do que ouvir' [...] É uma escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender. Povo fiel, Colégio Episcopal, Bispo de Roma: cada um à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo, o 'Espírito da verdade' (Jo 14,17), para conhecer aquilo que Ele 'diz às Igrejas' (Ap 2,7)". 

Há aqui todo um dinamismo sinodal que passa por diversos níveis de instância: Igrejas particulares e seus "organismos de comunhão [...] ligados a 'baixo' e [partindo] do povo, dos problemas do dia a dia, [por onde] pode começar a tomar forma uma Igreja sinodal"; Províncias, Regiões eclesiásticas e Conferências Episcopais como expressão de colegialidade episcopal e Igreja Universal na qual "o Sínodo dos Bispos, representando o episcopado católico, torna-se expressão da colegialidade episcopal dentro duma Igreja toda sinodal. [...] Duas palavras diferentes: 'colegialidade episcopal' e 'Igreja toda sinodal'". Dessa forma, "numa Igreja sinodal, o Sínodo dos Bispos é apenas a manifestação mais evidente dum dinamismo de comunhão que inspira todas as decisões eclesiais".

O terceiro elemento é o fundamento teológico da sinodalidade. Aqui se verifica o influxo do Concílio Vaticano II que, na Lumen Gentium, antepõe o capítulo sobre o Povo de Deus ao capítulo sobre os ministérios, recordando a igualdade e dignidade fundamental de todos os fiéis pelo Batismo. Assim se pode compreender também que os ministérios não estão fora ou acima da comunidade, mas dentro dela.

Nesse mesmo capítulo sobre o Povo de Deus, o n.12 que fala sobre o senso sobrenatural da fé dos fiéis que é dom do Espírito Santo, foi retomado pelo papa Francisco para fundamentar teologicamente a sinodalidade: "a totalidade dos fiéis que receberam a unção do Santo (cf. 1 Jo 2,20.27), não pode enganar-se na fé; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do Povo todo, quando este, desde os bispos até ao último dos leigos fiéis, manifesta consenso universal em matéria de fé e costumes" (LG 12). 

Assim, "reina entre todos verdadeira igualdade quanto à dignidade e ação comum de todos os fiéis na edificação do Corpo de Cristo" (LG 32). Partindo dessa noção, Francisco, na Evangelii Gaudium, recorda que "o povo de Deus é santo em virtude desta unção, que o torna infalível in credendo" (EG 119) e, assim, "cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ações" (EG 120). 

Desse modo, "o sensus fidei impede uma rígida separação entre Ecclesia docens e Ecclesia discens, já que também o Rebanho possui a sua 'intuição' para discernir as novas estradas que o Senhor revela à Igreja". Se todos os batizados têm a fundamental igualdade e dignidade, e se há entre todos o mesmo sentir sobrenatural da fé e todos são sujeitos ativos de evangelização sem que haja separação rígida entre os que ensinam e os que aprendem, pois é todo o Povo que possui a "intuição" para discernir os caminhos que o Senhor quer para a sua Igreja, então o ministério ordenado deve se saber dentro desse dinamismo sinodal. 

Assim se expressa Francisco: "[...] dentro dela [da Igreja] ninguém pode ser 'elevado' acima dos outros. Pelo contrário, na Igreja, é necessário que alguém 'se abaixe' pondo-se ao serviço dos irmãos ao longo do caminho. [...] Por isso, aqueles que exercem a autoridade chamam-se 'ministros', porque, segundo o significado original da palavra, são os menores no meio de todos". E arremata: "Nunca nos esqueçamos disto! Para os discípulos de Jesus, ontem, hoje e sempre, a única autoridade é a autoridade do serviço, o único poder é o poder da cruz".

Uma Igreja sinodal é testemunho para a humanidade inteira: 

"Uma Igreja sinodal é como estandarte erguido entre as nações (cf. Is 11, 12) num mundo que, apesar de invocar participação, solidariedade e transparência na administração dos assuntos públicos, frequentemente entrega o destino de populações inteiras nas mãos gananciosas de grupos restritos de poder. Como Igreja que 'caminha junta' com os homens, compartilhando as dificuldades da história, cultivamos o sonho de que a redescoberta da dignidade inviolável dos povos e da função de serviço da autoridade poderá ajudar também a sociedade civil a edificar-se na justiça e na fraternidade, gerando um mundo mais belo e mais digno do homem para as gerações que hão-de (sic) vir depois de nós".

A beleza da constituição e dinamismo sinodal da Igreja deverá enfrentar inúmeras resistências em nossas comunidades eclesiais, tão fortemente marcadas pelo clericalismo, arrogância e busca de poder. Essa tarefa urgente e necessária a que nos conclama o papa Francisco exigirá de nós coragem, criatividade e ousadia para se tornar efetiva. 

Não nos deixemos abater pelos partidários do "sempre se fez assim", mas deixemos que o Espírito configure em nós o estilo de Deus que caminha com seu povo pelas vicissitudes da história. Deixemos que o Espírito haja na Igreja, pois Ele o faz sempre e por onde ela menos espera.

*Antônio Ronaldo Vieira Nogueira é presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte (CE); mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) de Belo Horizonte (MG); professor e coordenador do Bacharelado em Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF)



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