Religião

19/10/2021 | domtotal.com

A sinodalidade da Igreja de Crateús

Pensar criativamente e conjuntamente o presente à luz da sabedoria que nos foi transmitida do passado em vista do futuro é o caminho de uma Igreja que deseja ser sinodal

Pensar criativamente e conjuntamente o presente à luz da sabedoria que nos foi transmitida do passado em vista do futuro é o caminho de uma Igreja que deseja ser sinodal
Pensar criativamente e conjuntamente o presente à luz da sabedoria que nos foi transmitida do passado em vista do futuro é o caminho de uma Igreja que deseja ser sinodal (Pedro Lima / Unsplash)

Francisco Thallys Rodrigues*

Desde o início do ministério do papa Francisco, existe um esforço de gestar grandes mudanças no seio da Igreja. O sínodo tem sido um instrumento privilegiado para o processo de renovação eclesial a partir do Evangelho em consonância com o Concílio Vaticano II. Ele expressa a preocupação de escutar, discernir e indicar caminhos de superação para os problemas enfrentados pela humanidade de nosso tempo: a família, os jovens e o cuidado com a vida no planeta. 

Recentemente, o papa convocou um novo sínodo que se diferencia no caminho adotado até então na medida em que amplia o processo de escuta e de participação chamando a atenção para o valor das Igrejas locais (diocesanas) e a busca por uma eclesiologia de comunhão e participação. 

Entretanto, a Igreja no Brasil traz consigo uma vasta experiência de sinodalidade como caminho de comunhão e participação do conjunto dos fiéis e não somente dos bispos. Tendo isto presente, nossa reflexão apresentará elementos desta sinodalidade presentes na história de uma Igreja diocesana específica, mostrando sua contribuição para o conjunto de nossa tradição eclesial.

A partir do espírito de renovação conciliar, a Igreja diocesana de Crateús, no estado do Ceará, procurou desde seus primeiros dias (1964), enquanto circunscrição eclesiástica, colocar em curso as principais intuições conciliares, dando início a uma mudança radical. Desejava-se colocar em ação a eclesiologia de comunhão exposta no concílio. 

Leia também:

O primeiro passo foi despertar para a consciência batismal que nos torna irmãos e irmãs, membros do mesmo corpo na diversidade de ministérios e carismas. As semanas catequéticas (1965-1967) assumiram esta função, favorecendo o processo de autonomia e maturidade dos fiéis em sua dignidade batismal. Somados a outros esforços, os fiéis foram entendendo-se como participantes, membros ativos da vida das comunidades, descobrindo que sua voz, participação e ação eram importantes.

Na medida em que se toma consciência da vocação batismal, abrem-se espaços de deliberação em vista da caminhada conjunta, abrangendo desde instâncias comunitárias, paroquiais até o nível diocesano. Parte-se da célula menor da comunidade para chegar ao tecido eclesial formado pelo conjunto, de modo que as intuições e compromissos assumidos em âmbito maior retomam e ratificam os caminhos pensados desde as bases (a partir de 1974). 

Por conseguinte, tal processo é lento e gradual, cheio de avanços e recuos porque exige capacidade de escuta que supõe abertura diante das
diferentes compreensões e opiniões. Além disso, esta postura só foi possível porque o modo como o ministério ordenado e a vida consagrada estavam presentes era diferenciado.

O número reduzido de presbíteros e o desejo de ministerialidade levaram a constituição de equipes de batismo e matrimônio, sendo assumidos por religiosas, homens e mulheres animadores das comunidades (a partir de 1971). Inclusive, a condução pastoral paroquial chegou a ser assumida por religiosas que repensaram o seu processo de inserção pastoral, o seu ser religioso, deixando o espaço do colégio para dedicar-se à animação pastoral. 

Deve-se recordar também o espaço de comunhão mais estrito vivido nas comunidades mistas paroquiais, a partir de 1968, formadas por padres, religiosas, religiosos e animadores que moravam em uma casa comum, partilhando a vida, as atividades e os bens.

Além da preocupação pela escuta e pela partilha, havia todo um esforço de registrar as experiências ali vividas por meio da redação de boletins e coleções que narravam o novo jeito de ser Igreja que estava se desenvolvendo. Neste sentido, a coleção Fazendo a nossa história, redigida por ocasião dos 25 anos de constituição da Diocese de Crateús, apresentava um balanço crítico dos passos e avanços alcançados ao longo do tempo.

Outro elemento a ser destacado é o papel de decisão partilhado pelo conjunto dos agentes de pastoral da Diocese a partir de 1970. Durante um período considerável (algumas décadas), as decisões de transferências de equipes paroquiais, bem como outras situações de interesse comum eram tomadas após um longo processo de escuta, reflexão e partilha pelo conjunto de lideranças da diocese. Tal processo sinodal não impediu que houvesse problemas, descontentamentos, crises e tantas outras adversidades. 

Aos olhos externos, este poderia ser sinal de fracasso sinodal, da impossibilidade de pensar uma Igreja de comunhão e participação. Ser uma Igreja sinodal, não significa alcançar matematicamente o mais vantajoso, nem realizar "grandes" revoluções desde a compreensão dos mais "capacitados", mas assumir o rosto de uma Igreja pobre entre os pobres, samaritana e enlameada que caminha em meio às tempestades e trovoadas, sabendo que é o Espírito de Jesus que anima a partir de todos os seus membros.

O momento de maturidade desta caminhada de valorização batismal, de uma eclesiologia de comunhão e da procura por ensaiar um outro jeito de ser Igreja, desembocou no sínodo diocesano que realizou um balanço crítico da caminhada realizada até então, envolvendo leigos, religiosas, padres assessores e o bispo diocesano (1995-1996). Tal como nos inícios da Igreja, em que a fé cristã ao expandir-se assumia os traços e identidade do povo que a recebia, houve um esforço de pensar a identidade e missão desta Igreja local em comunhão com a Igreja como um todo.

No decurso destes quase 60 anos, a Igreja de Crateús, entre altos e baixos, aberturas e recuos, aggiornamento (atualização) e "seca eclesial", tem procurado viver a sinodalidade. Por isso, a convocação do papa Francisco, para um caminho sinodal, torna-se oportunidade de revisitar nossa história a fim de descobrir quais possibilidades ela nos oferece tendo presente as novas e contínuas necessidades de nosso tempo. 

O Espírito de Deus é dinâmico e não estático. Não basta simplesmente reproduzir aquilo que já foi realizado, nem o abandonar considerando ultrapassado. Portanto, pensar criativamente e conjuntamente o presente à luz da sabedoria que nos foi transmitida do passado em vista do futuro é o caminho de uma Igreja que deseja ser sinodal.

*Francisco Thallys Rodrigues é presbítero da Diocese de Crateú; mestrando em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), bolsista CAPES; especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR).



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!