Brasil Política

18/10/2021 | domtotal.com

Assista e leia os depoimentos comoventes das vítimas da Covid à CPI da Pandemia

Comissão ouve familiares de pessoas que tiveram a vida levada pela doença

Taxista Marcio Antônio do Nascimento Silva, que perdeu o filho para a Covid-19 se emociona durante depoimento
Taxista Marcio Antônio do Nascimento Silva, que perdeu o filho para a Covid-19 se emociona durante depoimento (Pedro França/Agência Senado)

Na penúltima sessão com depoimentos, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid receberá nesta segunda-feira (18), sete pessoas que foram atingidas direta ou indiretamente pela pandemia. As falas devem ser curtas e têm como objetivo retratar o impacto da Covid-19 na vida das famílias brasileiras.

Inicialmente, a sessão de hoje teria ainda o depoimento do representante do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Nelson Mussolini, e Elton da Silva Chaves, do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). Ambos integram a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do Sistema Único de Saúde (Conitec). No entanto, houve uma reviravolta na agenda, que levou ao cancelamento das falas, e ao adiamento da leitura do relatório final após divergência em indiciar o presidente Jair Bolsonaro por homicídio qualificado.

O momento mais emocionante do forte depoimento da enfermeira Mayra Pires Lima à CPI da Covid foi quando ela falou sobre os cuidados que teve com a irmã, quando esteve internada em Manaus. Também quando falou sobre os sobrinhos, que ficaram órfãos após o falecimento da mãe.

"Muitas vezes eu assumia a assistência de saúde da minha irmã porque nós tínhamos cinco técnicos de enfermagem para cuidar de 80 pacientes graves", relatou Mayra aos senadores. "Só em Manaus nós temos mais de 80 órfãos da covid. Só na minha família são quatro", disse a enfermeira. "O que está se fazendo por essas crianças e por essas famílias?", questionou Mayra. Assista:

Pai perdeu o filho de 25 anos

Merecíamos um pedido de desculpas, diz taxista que perdeu filho e irmã
O taxista Marcio Antônio do Nascimento da Silva relatou aos senadores que perdeu a irmã e o filho Hugo Dutra do Nascimento Silva, de 25 anos. Hugo foi atendido em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Copacabana, no Rio de Janeiro, transferido para um hospital e intubado por 15 dias.

Marcio contou que estava andando na praia de Copacabana, em abril de 2020, quando viu uma pessoa derrubando cruzes de uma manifestação simbólica pelo combate à pandemia. Ele foi filmado recolocando as cruzes que homenageavam as 100 mil vítimas da doença.

"Naquele dia, eles começaram a me agredir não pelas palavras, porque me chamaram de comunista, petista, etc. Quando descobriram que era apenas um pai que estava triste pelo seu filho, foi um constrangimento geral".

Marcio também se disse indignado com a falta de orientação do governo no início da pandemia e a demora para a vacinação. "Nós merecíamos um pedido de desculpas da maior autoridade do país. Não é questão politica, se é de um partido ou de outro, nós estamos falando de vidas. A nossa dor não é 'mimimi'. Nós não somos palhaços. É real", afirmou.

Violações e reparações às vítimas

Rosane Maria Brandão, que perdeu o marido para a Covid-19, pediu que entre as proposições da CPI esteja a criação de uma comissão nacional com civis, nos moldes da Comissão da Verdade, criada para investigar as violações aos direitos dos cidadãos durante a Ditadura Militar. Ela conclamou os senadores a honrar as vítimas da doença, garantam a memória, a verdade e a reparação contra o desprezo do Estado pela ciência e pela negligencia e o descaso sofridos pela população.

Ela ainda afirmou que as milhares de vítimas da Covid-19 tiveram a vida abreviada em razão da “política genocida” patrocinada pelo governo federal. Rosane Brandão lembrou que essas pessoas esperaram por uma vacina que chegou a “conta gotas”. Os mortos por Covid-19, ressaltou Roseane, foram vítimas do negacionismo, da ignorância, da maldade, e das fakenews.

"Tem várias maneiras de o Estado matar seu povo, e a falta de política pública é uma delas. Saúde publica depende de ações políticas", declarou a depoente, que representou a Região Sul.

Jornalista perdeu seis parentes

Representando o Centro-Oeste, o jornalista Arquivaldo Bites Leão Leite contou aos senadores que perdeu seis parentes para a Covid-19: o irmão caçula, dois primos, um tio e dois sobrinhos, além de amigos e de outras pessoas conhecidas. Arquivaldo pegou o vírus há três meses e disse que teve um AVC, perdeu a audição de um dos ouvidos e hoje não consegue andar sozinho. 

Ele aproveitou para fazer críticas ao comportamento do presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia e pediu que a CPI faça justiça e garanta a memória das vítimas. Para Arquivaldo, se não fosse a comissão de inquérito, os brasileiros "estariam chorando ainda mais vítimas agora".

Órfã

Giovanna Gomes Mendes da Silva, de 19 anos, ficou órfã e agora vai ter a guarda da irmã de 11 anos. Ela contou à CPI da Pandemia ter perdido a mãe, que era transplantada e fazia hemodiálise, para o Covid-19, e o pai, que sofria de câncer e também teve Covid-19. Segundo Giovanna, a mãe ficou intubada por oito dias.

"Eu vi que eu precisava da minha irmã e ela precisava de mim. A partir daí eu pensei que eu não poderia mais ficar sem ela, então decidi que precisava mesmo ficar com a guarda dela. Eu assumi esse desafio por amor", disse a depoente, que relatou as dificuldades para o tratamento dos pais e o desafio de cuidar da irmã.

Durante o depoimento, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), reforçou a necessidade de garantir apoio do Estado aos órfãos da Covid.

Omar Aziz

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), negou ter recebido telefonema do presidente da República, Jair Bolsonaro, conforme noticiado. O senador disse que a única vez que falou com o presidente foi pessoalmente, no início do mandato, em 2019, com a bancada do Amazonas.

"Tentaram dessa forma fazer com que eu me indispusesse com os senadores. Eu não faço jogo, faço as coisas pela frente. Nunca pedi absolutamente nada a ele". Segundo Omar, a jornalista que fez a publicação lhe pediu desculpas na sequência por ter publicado a informação sem averiguar com ele anteriormente.

O senador enfatizou que erroneamente alguns chamam a CPI de "circo", o que não é “porque circo tem alegria, as pessoas vão para se divertir", "diferentemente da CPI onde não há como rir diante da morte de mais de 600 mil pessoas".


Agência Estado/DomTotal



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