Religião

18/10/2021 | domtotal.com

São João XXIII, Igreja e mundo contemporâneo

Com o concílio, papa abriu as portas para a renovação do catolicismo

Imagem de João XXIII, nas ruas de Roma, por ocasião de sua santificação
Imagem de João XXIII, nas ruas de Roma, por ocasião de sua santificação (AFP)

Luís Corrêa Lima*

No dia 11 de outubro, a Igreja Católica celebra São João XXIII, papa. Nesta data, em 1962, teve início o Concílio Vaticano II, que foi um grande marco na relação entre a Igreja e o mundo contemporâneo. O concílio iniciou neste dia porque então se celebrava a maternidade divina de Maria, cujo título de Mãe de Deus foi proclamado pelo Concílio de Éfeso em 431.

Antes de ser papa, João XXIII viveu muitos anos em países de maioria não católica, como a Bulgária, ortodoxa, e a Turquia, muçulmana. Neste tempo ocorreu a Segunda Guerra Mundial, quando ele colaborou com a fuga de judeus do nazismo. Depois, como papa, enfrentou o auge da Guerra Fria, clamando pela paz em meio a fortes tensões entre Estados Unidos e União Soviética. Em seus ensinamentos, reconheceu a elevada importância da Declaração Universal de Direitos Humanos, da ONU; prestigiou o ingresso da mulher na vida pública, bem como sua reivindicação de direitos iguais na vida familiar e social; e divulgou para toda a Igreja o método de teologia e pastoral Ver-Julgar-Agir, oriundo da Ação Católica Operária da Bélgica, que tanto marca até hoje as conferências dos bispos e as Campanhas da Fraternidade.

O Concílio Vaticano II, convocado e inaugurado por João XXIII, reconheceu a legitimidade do Estado laico, onde há separação entre Igreja e Estado, algo já consolidado em muitos países; reconheceu a autonomia da ciência e a liberdade religiosa e de consciência, impulsionou o ecumenismo e o diálogo com as religiões não cristãs, e fez a liturgia católica passar do latim às línguas modernas.

O concílio afirmou que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Toda a realidade humana deve encontrar eco em seu coração, pois a Igreja está intimamente ligada à humanidade e à sua história. Isto trouxe para a Igreja uma nova maneira de olhar a realidade, sem o desprezo e a fuga do mundo que prevaleceram durante tantos séculos na história do cristianismo.

O pontificado de Francisco, em favor de um Igreja em saída que se dirija às periferias existenciais, está na linha do concílio, bem como sua exortação aos teólogos para a releitura do Evangelho na perspectiva da cultura contemporânea. No discurso de abertura do concílio, João XXIII fez uma advertência enérgica contra os profetas da catástrofe, que só veem prevaricação e ruína, sempre anunciando acontecimentos infelizes como se o fim do mundo fosse iminente. Eles repetem que em nossa época, em comparação com as passadas, as coisas só pioraram e se portam como quem nada aprendeu da história (aqui).

Também hoje há profetas da catástrofe, com diferentes matizes, que disseminam o pânico moral e obstinadamente enxergam em tudo ameaças de destruição da família e da pátria. Para eles, só resta à Igreja reiterar antigos dogmas, preceitos e proibições, bem como manter-se longe das questões sociais e da vida terrestre.

O papa Francisco recordou a célebre advertência de seu antecessor sobre tais profetas, e mostrou exatamente o oposto deste catastrofismo, que é a perspectiva positiva: o olhar de quem crê é capaz de reconhecer a luz do Espírito Santo irradiando na escuridão, de entrever o vinho em que a água pode ser transformada, e de descobrir o trigo que cresce no meio do joio (Evangelii gaudium, 84). Na missa, há uma oração eucarística que muito bem expressa o espírito do Concílio, o maior legado de São João XXIII:

"Ó Pai [...] Fazei que todos os membros da Igreja, à luz da fé, saibam reconhecer os sinais dos tempos e empenhem-se, de verdade, no serviço do evangelho. Tornai-nos abertos e disponíveis para todos, para que possamos partilhar as dores e as angústias, as alegrias e as esperanças, e andar juntos no caminho do vosso reino."

*Luís Corrêa Lima é sacerdote jesuíta, historiador e professor da PUC-Rio.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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