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19/10/2021 | domtotal.com

Crime, castigo e risadas

'Only murders in the building', uma série policial para o nosso tempo

Selena Gomez, Steve Martin e Martin Short formam um trio hilário na série 'Only murders in the building'
Selena Gomez, Steve Martin e Martin Short formam um trio hilário na série 'Only murders in the building' (Star+/Divulgação)

Alexis Parrot*

Da clássica comédia Three amigos, sobraram dois: Steve Martin e Martin Short. Amigos na vida real e parceiros constantes em filmes e espetáculos de humor (vale a pena dar uma conferida em Uma noite que você esquecerá para o resto de sua vida, disponível na Netflix), as duas lendas se uniram para um novo projeto, dessa vez na TV - e o resultado é memorável.

Trata-se de Only murders in the building. Na série, Martin é Charles e Short é Oliver, dois artistas no ostracismo que se empolgam com a possibilidade de serem novamente notados pelo público. O primeiro viveu seus dias de glória quando encarnava o detetive Brazzos em um seriado policial dos anos 80 e o outro, um diretor falido, sonha com a volta triunfal aos palcos da Broadway, após um acidente ter encerrado prematuramente sua última produção.

Um assassinato no prédio em que moram, o fictício Arconia, (o edifício usado como locação é um ícone de Manhattan, o Belnord, na esquina da Broadway com a 86th), é a senha para a produção de um podcast criminal, na onda da febre que vive o gênero em escala global. A eles, une-se a misteriosa personagem de Selena Gomez, Mabel. A partir daí, a comédia reina.

A junção da jovem cantora-atriz à dupla (que já anda pela casa dos 70 anos) faz um contraponto interessante e rende ótimas piadas. Obviamente, sua presença na série serve também como chamariz para uma audiência mais juvenil, pouco ou nada familiarizada com os melhores momentos da carreira dos dois veteranos. Ainda que consideremos a limitada capacidade dramática de Gomez, o saldo ainda resulta positivo.

(Para comprovar a afirmação, depois de ver a série, dê uma olhada em Um dia de chuva em Nova York, penúltimo filme de Woody Allen. Rica ou pobre, feliz ou triste, independente do personagem, Selena é sempre Gomez.)

Além do trio de investigadores (e podcasters) de primeira viagem, o elenco é recheado com deliciosas participações especiais, de Nathan Lane a Jane Lynch, além de breve aparição do cantor Sting, interpretando a si mesmo - e o mais importante, rindo de si mesmo para nos fazer rir com ele.

Há exageros no roteiro? É evidente que sim, afinal se trata de uma comédia escrita pelo próprio Martin, o mesmo amalucado e genial autor que nos deu Roxanne e Cliente morto não paga. Os dois protagonistas são histriônicos? Para quem os conhece bem, espantaria se fosse diferente. Porém, até mesmo Steve Martin parece tímido ao lado do amigo Martin Short - este sim o verdadeiro capeta do duo, um eterno menino. Impossível não concordar com Mabel, se referindo aos dois: "os 70 são os novos 40".

São tiradas como esta que tornam tudo ainda mais hilariante. Abaixo, uma pequena amostra:

- Oliver (Martin Short), sobre a interação entre Charles (Steve Martin) e Mabel (Selena Gomez): "Ah, vocês dois... é como se eu estivesse assistindo Lua de papel novamente."

- Charles, fazendo menção à excessiva palidez de sua pele: "Vou te levar para um lugar ensolarado. Você vai ver que eu consigo me bronzear, mas fico cor de lavanda".

- Charles, sobre Mabel: "Ela não é uma criança, a gente só acha isso porque somos velhos".

- Mabel: "Mulheres que batem à porta raramente fazem história."

- Teddy (Nathan Lane): "Eu tinha vergonha da surdez de meu filho e foi isso que acabou com meu casamento... bom, isso e as prostitutas".

Já com a próxima temporada garantida (com início de filmagens previstas para ainda este ano), o último episódio do primeiro ciclo encerra com um dos melhores e mais surpreendentes desfechos de temporada já vistos. Não contente em garantir um poderoso gancho para a narrativa, o epílogo subverte todo o conceito do programa, com interessantíssima troca de papéis dos personagens centrais. Mais não digo, para evitar o spoiler.

Os artistas decadentes de sucessos pretéritos finalmente conseguem se encaixar no tempo presente. Ironicamente, o veículo que lhes proporciona a ressurreição é o podcast (que, cá entre nós, nada mais é que um programa de rádio transmitido pela internet). Da mesma forma, Steve Martin e Martin Short acertaram na mosca ao ingressarem de cabeça no mundo do streaming - que nada mais é do que a boa e velha TV, agora via internet e on demand.

A narrativa policial acaba sendo apenas um álibi para que os dois velhos amigos possam refletir com bom humor (e alguma melancolia) sobre os significados de envelhecer. Como acontece com um bom vinho, pelo menos para eles, a idade só tem feito bem.

ONLY MURDERS IN THE BUILDING
Primeira temporada em cartaz no Star+


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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