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20/10/2021 | domtotal.com

Artista cria painel gigante em SP com cinzas para denunciar queimadas no país

Obra é releitura de tela de Candido Portinari e presta homenagem a brigadistas

Mural pintado em um edifício de São Paulo, no centro da cidade, ocupa 1 mil metros quadrados
Mural pintado em um edifício de São Paulo, no centro da cidade, ocupa 1 mil metros quadrados (Miguel Schincariol/AFP)

As cinzas escorrem pela peneira em um recipiente onde se prepara a tinta. Os traços com estes restos da natureza na Amazônia e no Pantanal dão forma a um brigadista na parede de um edifício no centro de São Paulo.

O artista e muralista paulistano Mundano, que vincula suas obras a causas sociais, percorreu milhares de quilômetros de expedição pela Amazônia, Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica ao longo de um mês. Do combate ao fogo por brigadistas voluntários a conversas com cientistas que monitoram os incêndios diariamente, Mundano, de 36 anos, testemunhou de perto a devastação de biomas brasileiros.

Em equipe, ele recolheu 220 quilos de cinzas e restos de árvores que viraram carvão e os transformou em mais de 50 tonalidades de tinta cinza para produzir o mural gigante O brigadista da floresta. O painel tem 46 metros de altura e 1 mil metros quadrados, numa fachada no centro de São Paulo e foi inaugurado nesta semana.

Trata-se de uma releitura do quadro O lavrador de café, de Cândido Portinari. Assim como a icônica tela de 1934, o mural exalta a figura do trabalhador em uma paisagem de desmatamento e avanço do agronegócio, mas com elementos do presente. João Cândido Portinari, filho de Cândido Portinari, ficou emocionado com a releitura da obra. "Eu achei extraordinário. Essa questão do meio ambiente tomou um relevo que não tinha tanto assim antes. Esse trabalho do Mundano é essencial, é oportuno, atualíssimo", afirmou João Cândido à GloboNews.

´O lavrador de café´, de Portinari, de 1934'O lavrador de café', de Portinari, de 1934

"Releituras são uma forma de atualizar. É a mesma denúncia que Portinari já fazia nas suas telas, da invisibilidade do trabalhador. O cafezal já era o agro desmatando a Mata Atlântica", compara. No mural, o artista retratou o brigadista voluntário Vinícius Curva de Vento, de 36 anos, morador da Vila de São Jorge, em Alto Paraíso de Goiás. O brigadista conta que o combate às chamas é extenuante. "É perigoso, insalubre, com muita fumaça. Dá ferida, intoxica."

"A ideia surge de uma impotência. A gente está acompanhando nas últimas décadas e mais forte nos últimos anos um aumento das queimadas em um nível alarmante, batendo todos os recordes", diz o 'artivista', cujo nome artístico faz alusão ao compromisso da sua arte com um ativismo "terreno".

Agora, busca "trazer as cinzas para as pessoas (da cidade) e criar um pouco mais de empatia", diz Mundano, que percorreu quatro biomas brasileiros: Amazônia, Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica. "Só quando [o problema] chega perto, impacta", assegura. Ele mesmo experimentou isso entre junho e julho passados, quando sentiu o calor do fogo, o cansaço dos que combatem as chamas e a dor de ver árvores e animais serem reduzidos a pó.

Esse resíduo de um "crime climático" se espalha no alto do muro e nas latas etiquetadas no chão. A paleta de tons acinzentados, que varia segundo a origem das cinzas e a água que dilui a mistura com verniz, contrasta com as cores vivas de outros murais de São Paulo.

Mas sua arte, diz Mundano, não busca embelezar, mas "provocar as pessoas a gerarem mudanças internas". "A gente está em uma cidade cinza. O asfalto é cinza, a calçada é cinza, a poluição... E a gente está virando cinza", reflete.

Outras referências

Esta é a terceira vez que Mundano usa em sua arte o que chama de "resíduos de crimes ambientais". Com lama coletada em Brumadinho (MG) após o rompimento da barragem da Vale, criou outro mural gigante, inspirado em Operários, de Tarsila do Amaral, próximo do Mercadão, em 2020. No mesmo ano, usou amostras de óleo que surgiram na costa brasileira em uma releitura de Grande onda de Kanagawa, do japonês Katsushika Hokusai.

Trabalho de Mundano com lama coletada em Brumadinho (MG) faz referência a Tarsila do AmaralTrabalho de Mundano com lama coletada em Brumadinho (MG) faz referência a Tarsila do Amaral

Grafiteiro na adolescência, o artista ficou conhecido em 2012 por sua iniciativa de imprimir arte em carroças de coletores de materiais recicláveis para valorizar seu trabalho no entorno hostil da metrópole. A iniciativa atual combina igualmente reconhecimento e protesto.

A responsabilidade desta crise ambiental, assegura Mundano, corresponde tanto aos sucessivos governos "negligentes" com a preservação ambiental quanto a quem desmata e ateia fogo para estender as fronteiras do agronegócio.

Com Jair Bolsonaro na Presidência desde 2019, a Amazônia brasileira, chave no equilíbrio climático global, perdeu, em média, 10.000 quilômetros quadrados por ano, contra 6.500 km2 na década anterior. Além disso, os incêndios, a maioria dos quais são consequência do desmatamento, se mantiveram em níveis muito alarmantes.

"O governo atual está promovendo um desmonte ambiental e atropelando direitos básicos e universais de populações vulneráveis", diz Mundano, em alusão a projetos do governo Bolsonaro para permitir atividades extrativistas em terras ancestrais.

O Pantanal, maior planície alagada do mundo, perdeu 261.800 hectares pelo fogo este ano até agosto, superando a média histórica, segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


AFP/Agência Estado/Dom Total



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