Religião

26/10/2021 | domtotal.com

Misericórdia: Princípio ético segundo o Evangelho de Lucas

Olhar para os excluídos faz-nos perceber que o cristianismo é a religião do acolhimento e da prática da misericórdia, convidando-nos a suspender julgamentos para acolher o outro

Olhar para os excluídos faz-nos perceber que o cristianismo, antes de tudo, é a religião do acolhimento e da prática da misericórdia
Olhar para os excluídos faz-nos perceber que o cristianismo, antes de tudo, é a religião do acolhimento e da prática da misericórdia (MST/PR/Fotos Públicas)

Anderson Dias Gonçalves*

É sempre atual refletirmos sobre a dimensão ética cristã que nos convida à experiência da misericórdia como necessidade intrínseca a todo ser humano. Desde a literatura profética e sapiencial, enaltece-se a misericórdia como capacidade operativa e testemunhal do amor de Deus pelo seu povo, constituindo-se componente importante na busca pela justiça e na experiência do Shalom/Paz.

Em Oséias 6,6 o profeta apresenta a misericórdia como o querer de Deus em substituição a uma prática religiosa puramente ritualística: "Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos". O Salmo 118, insistentemente enaltece a misericórdia como ato identitário do Deus único. 

Na literatura bíblica das origens, de Gênesis 3,21, encontramos o cuidado e zelo de Deus que age na gratuidade do amor frente ao pecado humano para substituir as vestes de figueira confeccionadas por Adão e Eva por túnicas de pele, atenuando o sofrimento daqueles que se destituíram da convivialidade com o criador. Para os escritos bíblicos, o amor e a misericórdia são temas centrais do agir de Deus e constitui, portanto, o âmago de sua identidade.

Na literatura lucana a dimensão do amor e da misericórdia tomam proporcionalidade altamente relevante, constituindo-se mensagem primordial para os ouvintes de sua época. Em Jesus se revela antropologicamente a característica longânime e benevolente de Deus Pai e torna-se paradigma ético-moral para o comportamento daqueles que se propõem a segui-lo. A perspectiva transformacional do ato de misericórdia é evidenciado principalmente nas parábolas do Evangelho de Lucas que nos leva a refletir profundamente acerca de uma nova imagem de Deus, revelado na pessoa de Jesus.

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A perícope do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) torna-se referência nessa dimensão de compreender a salvação como realizada no ato misericordioso, propondo-nos uma mudança de mentalidade acerca dos padrões normativos vigentes no tempo da narrativa lucana. 

O diálogo de Jesus com o legista ainda se faz ecoar em nossos tempos para que, como ele, possamos nos surpreender com a descoberta do Deus, que Jesus apresenta. O contexto social, político e religioso do primeiro século - que contribuía para a maximização das injustiças - permite-nos pensar no cenário atual em que a polaridade entre conservadorismo e liberalismo tencionam-se de forma a construir muros para a relação interpessoal e promoção da dignidade humana. 

Se o conceito de próximo para a perspectiva judaica estava circunscrito a poucos privilegiados, atualmente não é diferente quando a relação entre política e religião se entremeiam para criar situações de exclusão, marginalização e confronto desmedido com vistas a manutenção de um status quo já perceptivamente ultrapassado. 

Discursos conservadores revestidos de uma roupagem cristã ainda continuam fazendo com que aqueles que deveriam se sensibilizar com os mais necessitados, continuem a expressar o excesso de zelo religioso e, como os levitas e sacerdotes citados por Jesus, prefiram a exigência moralista à defesa da vida em sua integralidade. 

Ao identificar o Samaritano como exemplo de conduta para cumprimento perfeito da Lei com vistas à herança do Reino de Deus, Jesus inverte a lógica do pensamento nacionalista-exclusivista judaico. Ele propõe, como bem colocado pelo papa Francisco, sermos Igreja em saída capaz de substituir o proselitismo pela acolhida, mediante o encontro com aqueles tangenciados nas periferias existenciais

A Caridade/Amor como virtude teologal remonta-nos a este comportamento que faz do humano ser capaz de transcender e se expressar enquanto imagem e semelhança do seu criador. Deus é amor e comunica à sua criação essa fundamental capacidade de sermos abertura para a relação caritativa consigo mesmo e com os seus semelhantes. 

Lucas, em sua obra, vem nos ensinar que o Reino de Deus se faz nesta capacidade de suspender o julgamento meritocrático - característico do modelo socioeconômico vigente - para nos alegrarmos com a salvação e inclusão de todos que recorrem à graça salvífica. A ação providente e misteriosa de Deus acontece quando somos capazes de reconhecer no rosto do outro o direito à dignidade que supera qualquer categorização social, cultural, política ou religiosa. Sermos como o bom samaritano nos aponta para a necessidade de identificarmos a bondade do Pai Misericordioso e, diferentemente do filho que rejeita o irmão que retorna à convivialidade familiar (cf. Lc 15,11-32), sermos capazes de misericórdia para com todos os que nos acercarem.

O papa Francisco, na sua primeira obra - A Igreja da Misericórdia (2014) - convida os cristãos a serem Igreja em saída e a abandonarem toda tendência de oclusão institucional, expressando valores tipicamente evangélicos na construção do Reino de Deus - lugar da Justiça e da Paz. Muitos ainda insistem numa religiosidade que se vivencia exclusivamente nas suas formulações dogmáticas. 

Ser igreja em saída é, portanto, altamente desafiador porque nos faz encontrar com muitos que não professam a mesma fé, mas que também precisam de acolhida, respeito e validação da sua dignidade humana. Olhar para os excluídos faz-nos perceber que o cristianismo, antes de tudo, é a religião do acolhimento e da prática da misericórdia, convidando-nos a suspender julgamentos para acolher o outro na sua inteireza. 

É saindo do ambiente limítrofe de nossas seguranças institucionais que se pode fazer experiência do Cristo que se apresenta na face daqueles desprovidos de dignidade. Definitivamente, é no encontro que se torna possível criar espaço para que a espiritualidade seja experimentada em toda sua potencialidade. Reconhecer-se comunidade com a casa maior - para além muros institucionais - leva-nos a encontrar a potencialidade da vida tal como ela se apresenta, e permite arejar-nos internamente nesse espaço magnífico que é a interação com o diferente na prática da misericórdia.

*Anderson Dias Gonçalves é Psicólogo pela Universidade Federal de Uberlândia. Pós graduado em Gestão Empresarial pela FAGEN - UFU e em Gestão de Talentos Humanos pela FASES. Atualmente é estudante do 5 período de Teologia na PUC-MG.



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