Religião

21/10/2021 | domtotal.com

Respeito é bom e eu gosto

O desrespeito por um deputado a dom Orlando Brandes, à CNBB e ao papa Francisco escandalizou a muitos, mas poucos atentaram ao fato de que sua fala visava a movimentos populares que lutam pela dignidade dos mais pobres.

Tela de Gerard Seghers (1591?
Tela de Gerard Seghers (1591?"1651), 'Os quatro doutores da Igreja Ocidental: Santo Agostinho de Hipona' (Wikicommons)

“Bem-aventurados sereis, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim” (Mt 5,11)

Geraldo De Mori SJ

A expressão “Respeito é bom e eu gosto!”, recorrente na linguagem popular de Salvador, Bahia, e, sob outras formulações, na educação familiar e para a civilidade, merece ser revisitada nesses dias, como reação ao discurso pronunciado no dia 14 de outubro pelo deputado estadual de São Paulo, Frederico d’Avila. O termo “respeito”, originado do latim respectus, significa “olhar outra vez”, indicando que algo ou alguém é digno de apreço, de deferência, de consideração, e, em alguns casos, até de veneração.

Segundo Bruno Cunha, no Dicionário de cultura de paz, publicado em 2021, na linguagem comum, respeito é uma das palavras cotidianas que aparece em múltiplos contextos, podendo ser definido como o “reconhecimento do valor e da dignidade de algo, do qual decorre um conjunto de comportamentos e estados de ânimo como resposta” (Cunha, 2021b, p. 407). 

O conceito de respeito, continua o autor, implica sempre uma relação responsiva entre um sujeito e um objeto, o qual, chama a atenção, é conhecido, julgado, valorizado. Pode-se respeitar coisas, como objetos físicos ou animais, convenções e regras estabelecidas, mas o que aparece como maior objeto de respeito e veneração é o próprio ser humano. De fato, uma pessoa pode ser respeitada pelos traços de seu caráter, pelo status que ocupa na sociedade, por suas habilidades.  

Na história da filosofia, observa Bruno Cunha, o conceito de respeito tem sua origem em dois termos gregos e seus derivados: aidõs (= vergonha, modéstia, decência, veneração) e timé (= honra, valor, preço). No uso comum, timé é o reconhecimento da honra alheia e aidõs é a vergonha pela perda da honra. Aidõs foi importante na formação da cultura grega, seja como algo externo, seja como algo interno, indicando reverência diante dos superiores ou respeito, no contexto de pessoas próximas (Cunha, 2021b, p. 409). 

Aristóteles associa aidõs ao pathos (afeto) e por isso não lhe confere o status de virtude. No cristianismo, santo Agostinho faz a transição da cultura da vergonha para a cultura da culpa, ao localizar o sentimento de vergonha não nas convenções sociais, mas na dinâmica interna da vontade do sujeito. Na compreensão do respeito passa então a entrar em jogo a dignidade do ser humano reconhecida em sua capacidade interna e pessoal de se construir à imagem de Deus, de querer ou não querer segundo a lei divina.

Na época moderna, Kant, seguindo Aristóteles, pensa a noção de respeito como um sentimento especial, e seguindo Agostinho, admite que ele é inerente à consciência interna e à dinâmica da vontade. Para o filósofo alemão, o respeito é o único sentimento moral possível, sendo provocado pela representação da lei moral, que, “como fundamento de determinação da vontade, nos humilha em nossa autoconsciência (CrPr., AA, v. 74). A exigência incondicionada da lei moral limita a “arrogância” e restringe “a estima da própria pessoa” (CrPr. AA, v. 78), produzindo “um efeito sobre o sentimento” (CrPr. AA, v. 78), e, com isso, a lei moral torna-se um móbil para a ação na medida em que nos coage a “adotar essa lei em si mesma como máxima” (CrPr. AA, v. 76). 

O respeito torna-se assim a base do imperativo categórico, sendo dirigido às pessoas e não às coisas (CrPr. AA, v. 76). Nesse sentido, diz Kant, a “moralidade, e a humanidade enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade” (Fund. AA, IV, 435). O ser humano, como autolegislador, é um fim em si mesmo e a lei moral que se dá a si mesmo o torna digno de respeito incondicional. Essa ideia nos obriga a tratar todas as pessoas sempre como fim, nunca como meios. Ela é o fundamento da própria ética e dos âmbitos da política e do direito, tendo se substancializando na ideia dos direitos humanos, assumida por toda nação democrática (Cunha, 2021b, p. 410).

Muitas pessoas se escandalizaram com as declarações desrespeitosas do deputado Frederico d’Avila com relação a dom Orlando Brandes, à CNBB e ao papa Francisco. Poucas, porém, atentaram ao fato de que sua fala visava a Via Campesina e o MST, ou seja, movimentos populares que lutam pela dignidade humana dos empobrecidos do Brasil. Retomando o termo que aqui está em discussão, tratava-se da humanidade dos que historicamente são desrespeitados. 

Ao defender o armamento e ao criminalizar os grupos comprometidos com a promoção dos direitos de quem luta por terra e trabalho, além de uma relação mais harmoniosa com o meio ambiente, o deputado se esquece de algo que é constitutivo da moral das sociedades modernas, fundadas em princípios democráticos e na defesa dos direitos humanos, ou seja, no respeito à dignidade de todos/as como fim e não como meios. 

Na verdade, não só as pessoas “eminentes”, sejam elas membros da Igreja ou de qualquer instância social, merecem respeito, mas todas. Se se esquece isso, não é mais possível a convivência civilizada e abre-se o espaço para a luta de todos contra todos, geradora de mais violência e morte, que, infelizmente, atingirá sobretudo os mais vulneráveis e pobres.

Do ponto de vista teológico, a noção de respeito diante de todo ser humano, tem, sem dúvida, suas raízes em Gn 1,27, que afirma que Deus criou o ser humano, homem e mulher, à “sua imagem e semelhança”. Esta perspectiva, relida em chave cristológica (Rm 8,29; Cl 1,15) e trinitária, deu origem à noção de pessoa, vista em sua unicidade e dignidade absolutas. Nada mais contrário a esta noção do que qualquer defesa de eliminação do outro, por sua condição social, étnica, de gênero ou religiosa.

Nos tempos polarizados em que vivemos, não nos damos conta do caminho já feito pela humanidade. A afirmação kantiana do respeito devido a todo ser humano, que nunca pode ser visto como meio, mas sempre como fim, tem, sem dúvida, uma de suas fontes na compreensão bíblica que o vê como imagem de Deus, pessoa, digna de respeito, por aquilo que é, enquanto dom único dado ao mundo e à humanidade. 

A sensibilidade católica brasileira sentiu-se certamente afetada pelo desrespeito do deputado com figuras importantes de sua hierarquia, e isso se expressou de diversas maneiras desde sua declaração. Porém, se tal declaração não tocar a todos/as por seu teor, ou seja, por esquecer aquilo que é a base mesma de qualquer sociedade civilizada, que é o respeito devido a cada pessoa humana, sobretudo daquela que tem sido mais violentada ao longo da história do país, então não podemos dizer que somos cristãos, e muito menos humanos, pois não vemos o outro como um igual, mas como alguém que pode ser eliminado. 

Esse inclusive foi o teor da fala do deputado: “arma e bala”. Infelizmente, esse também tem sido o discurso da autoridade máxima do Brasil, com o qual muitos que se dizem cristãos estão de acordo. Quando se esquece a humanidade de qualquer pessoa, abre-se a porta para todo tipo de política que se baseia na morte.

Quanto às instâncias hierárquicas da Igreja, insultadas pelo Deputado, mais que indignar-se pela falta de respeito, talvez devessem experimentar a verdadeira alegria do Sermão da montanha que diz: Bem-aventurados sereis, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim” (Mt 5,11).

Referências

CUNHA, Bruno. Respeito. In SÍVERES, Luis; NODARI, Paulo Cesar. Dicionário de cultura de paz. CRV, 2021, p. 407-411.

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes (=Fund.) São Paulo, 2009.

KANT, Immanuel. Crítica da razão prática (=CrPr.). Petrópolis: Vozes, 2016.


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Geraldo De Mori SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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