Religião

22/10/2021 | domtotal.com

Conselheiro do papa, mexicano defende a contribuição católica da América Latina

Em entrevista exclusiva ao Dom Total, o novo secretário da Pontifícia Comissão para a América Latina aposta na renovação promovida por Francisco

Rodrigo Guerra López e o papa Francisco: vozes distintas para construir o futuro da Igreja Católica
Rodrigo Guerra López e o papa Francisco: vozes distintas para construir o futuro da Igreja Católica (Vatican News)

Mirticeli Medeiros*

O nome dele é Rodrigo Guerra López. Para muitos, simplesmente professor Rodrigo. Um leigo mexicano com um vasto currículo que fala por si. Doutor em Filosofia, ele já atuava como membro de várias comissões do Vaticano desde 2012. Seu trabalho como docente lhe rendeu vários reconhecimentos pelo mundo. Com livros publicados em várias línguas, que abordam temas ligados à Doutrina Social da Igreja, bioética, antropologia e vida da Igreja na América Latina, tornou-se uma das maiores referências nesses assuntos. Roma o conhece. E aquele que governa a Igreja Católica, também. Tanto que o trouxe para perto.

Em julho deste ano, ele viu sua vida ser transformada por um convite inusitado. Papa Francisco o nomeou como secretário da Pontifícia Comissão para a América Latina juntamente com a renomada teóloga argentina Emilce Cuda, que vai atuar como subsecretária do organismo. São nomes que trazem novos ventos de sinodalidade para o Vaticano. E o papa sabe o quanto a América Latina pode contribuir nesse processo.

Em meio à correria da mudança, Rodrigo, de 55 anos, adapta-se à nova vida na Cidade Eterna. Mesmo assim, ele nos recebeu em seu escritório com um sorriso largo, como há muito não se via dentro daqueles edifícios escuros e cobertos de mármore, localizados na Via da Conciliação.

Durante a conversa, nos encontramos como latino-americanos. Foi bom poder falar de algo que conhecemos e de um pontífice que "é um de nós". Foi nesse clima de cordialidade que falamos sobre o que Francisco espera da sua América Latina. E como o professor Rodrigo, que entra para a lista de seus mais estreitos colaboradores, pretende corresponder à nova missão que lhe foi confiada.

Dom Total: Como o senhor recebeu a notícia de que seria nomeado para esse cargo?

Rodrigo Guerra López: Para mim, foi uma grande surpresa. Eu já colaborava com duas academias pontifícias (Vida e Ciências Sociais). Porém, eu não esperava essa nomeação para trabalhar no Vaticano. Foi uma surpresa e, ao mesmo tempo, foi uma forma de renovar minha consciência de que Deus escolhe, sempre, os mais incapazes, os mais inúteis. Porque é só dessa forma que Ele consegue trabalhar da maneira que Ele quer. Então, talvez, esse seja o sentido da minha presença aqui. Tenho certeza que há outros leigos importantes na América Latina que poderiam ter sido escolhidos. Porém, o papa convidou um mexicano, que foi algo bastante ousado de sua parte. E me convida para assumir um uma missão muito bonita que já tinha sido realizada por Guzmán Carriquiry e outros que vieram antes de mim. E dou continuidade a essa história num novo momento, no meio de uma reforma da Igreja, da reforma da Cúria Romana. Então, espero que possamos ser uma boa notícia para todos aqui da Cúria e que seja um bom serviço para a Igreja.

Como você define a Igreja Católica na América Latina? Quais são os desafios que a circundam?

A Igreja Católica na América Latina é um movimento. E isso, o que significa? Que o que descobrimos ou redescobrimos no Concílio Vaticano II, de alguma maneira, é vivido como experiência constante. O povo de Deus que caminha na história. E, na América Latina, creio que é o que somos. O que vemos é um povo que vai, que busca viver mais a fé, que busca responder aos desafios de cada época. E, agora, cabe a nós, desta geração, dar um novo passo para mostrar o quanto a fé pode continuar se inculturando, justamente nesse contexto, que é próprio de uma mudança de época. Aliás, a expressão "mudança de época" nasceu na América Latina, e hoje faz parte do magistério pontifício. Precisamos admitir que há novos desafios culturais aos quais precisamos responder não com condenação, mas com acolhida e abraço. Assim, podemos mostrar que a encarnação de Cristo não é uma metáfora ou uma figura retórica, mas uma questão empírica. E isso só pode acontecer quando a Igreja aprende, em cada geração, a se inculturar.

Muitos dizem que muito do que ocorre na Igreja hoje começou na América Latina. Podemos interpretá-la, nesse sentido, como uma fonte para a Igreja universal?

Durante muitos séculos, a "Igreja-fonte" foi a Igreja europeia. E a Igreja da América Latina era interpretada como uma "Igreja-espelho", como um reflexo dos ensinamentos, da teologia, da experiência europeia. Em parte, claro, isso é verdade, também no presente. Por outro lado, não. Porque, no fim das contas, somos uma só Igreja, que, como eu disse, precisa aprender a viver a fé nos mais diversos contextos. Hoje, claro, caminhar à luz da fé na América Latina nos permite dar algumas contribuições. E é muito visível que a grande contribuição da Igreja na América Latina para a Igreja universal é a própria pessoa do papa Francisco. É a experiência pastoral do papa Francisco, a sua reflexão teológica. E hoje, como Igreja na América Latina, temos que acompanhar esse "irmão maior", que é o papa, nesta aventura de contribuir com a Igreja universal. Acredito que este momento da história é providencial porque é um momento no qual, na Europa, se faz necessária uma reforma profunda. Não tanto baseada nas tendências sociais ou culturais, mas que esteja focada num retorno às fontes mais essenciais do cristianismo. Um cristianismo concebido com uma amizade, como uma experiência de misericórdia, como uma comunidade simples. Tem uma música muito bonita, no meu país, que se chama Iglesia sencilla. A letra diz que Igreja é aquela na qual nascemos e cremos. Não é a Igreja do poder, mas a Igreja que encontra nos pequenos e, muitas vezes, nos periféricos o mais essencial da fé. Essa é a mensagem da Evangelii gaudium e de todas as mensagens do papa Francisco. É o nosso papel neste momento. E se cabe a nós sermos uma fonte agora, espero que seja de alegria, de renovação e de esperança. Para mim, recém-chegado à Europa, vejo muitos rostos cansados, sem esperança. Na América Latina, há muitos que não têm nada, mas têm tudo, pois têm fé. Então, talvez seja o momento de contribuir, com simplicidade, para que muitos descubram as razões da esperança. E creio que a experiência eclesial latino-americana tem muito a agregar em relação a isso.

A comissão teológica do sínodo que está em curso, o sínodo sobre a sinodalidade, é composta, na maioria, por latino-americanos. É sinal de que o papa Francisco vê a Igreja latino-americana como um modelo a ser seguido, dentro desse novo formato eclesiológico que ele propõe?

Não que sejamos um modelo. Mas o papa espera que consigamos contribuir. Com o quê? Por exemplo, para que a reflexão teológica seja mais encarnada e concreta. A reflexão teológica puramente abstrata talvez seja muito bonita, como diz o papa. Todavia, muitas vezes, não incide diretamente. Já a experiência teológica na América Latina e a sua teologia, pensando nas suas melhores tendências e correntes atuais, praticamente brota da experiência pastoral e regressa para essa mesma experiência pastoral. A experiência pastoral concreta é um lugar teológico. E essa experiência faz com que a Igreja continue em movimento. É um círculo virtuoso da pastoral à reflexão e da reflexão à pastoral. Não creio que sejamos modelo. Porém, somos uma experiência que pode nutrir e corrigir alguns vícios feios que, de repente, existem na Europa. Há grandes teólogos que produzem grandes obras teológicas, sem dúvida. Mas chego à conclusão que planejamento pastoral deles não é como o latino-americano, a mobilização deles não é como a latino-americana e a religiosidade popular deles não é tão forte como a latino-americana. Então, creio que, se olharmos com atenção para essa mudança de época, talvez seja providencial que a Igreja na América Latina esteja podendo falar, se fazer visível, contribuir com a Igreja universal. Talvez por isso há mais latino-americanos na comissão teológica do sínodo, justamente para que a teologia seja mais viva, mais concreta e menos abstrata - e, por assim dizer, menos agnóstica. Que apareça, que nutra, que provoque. Os europeus podem assimilá-la de acordo com suas próprias coordenadas, mas com um enfoque de encarnação mais decidido.

Falta, então, uma teologia do povo?

Se olharmos com atenção, houve, aqui, experiências análogas à teologia do povo. Na Polônia, por exemplo, nos anos 70. Um bispo muito pobre, que tinha perdido tudo, sua fortuna, e até seus pais, o bispo de Cracóvia, Karol Wojtyla, acompanhou o movimento dos trabalhadores. E, no meio deles, ele teve uma experiência eclesial e militante, em favor da liberdade e da justiça. De certa maneira, brota daí uma reflexão teológica potente que não se chamava teologia do povo, evidentemente, mas que olhava com atenção para a realidade do povo polonês e dos trabalhadores periféricos como lugar de verificação da fé. E, a partir dessa experiência, foi plasmada a doutrina social da Igreja de João Paulo II. Sim, há experiências que ocorreram dessa maneira, e foram importantes, e precisam ser redescobertas seguindo a chave de leitura da teologia do povo.

E a expectativa para esse novo tempo aqui, na comissão?

Espero que eu e minha colega, Emilce Cuda, que somos leigos, que viemos do mundo acadêmico e político, sejamos uma boa notícia para nossos irmãos aqui na Cúria. O papa, que já iniciou os trabalhos no sínodo da sinodalidade, sabe que o primeiro lugar onde precisa haver essa sinodalidade é na Cúria Romana. Então todos, que estamos envolvidos com essa Cúria, precisamos entrar nessa mudança de mentalidade, de modo que isso promova uma mudança estrutural profunda, a qual o papa em breve nos fará conhecer através da publicação da constituição apostólica para redefinir toda a Cúria. Mas de nada serviria uma reforma estrutural sem uma reforma do coração e da mente anterior. Por isso, espero que nós possamos contribuir com esse processo, mesmo com nossa ignorância em relação a muitos formatos eclesiais, típicos da Cúria. Que a contribuição desses leigos, um homem e uma mulher, possa ajudar a renovar esse ambiente, a fim de que ele se torne menos clerical e mais horizontal e fraterno.


Dom Total

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras



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