Brasil

25/10/2021 | domtotal.com

JK e a travessia do Paranaíba

Não fiquei sabendo onde e como o amigo que me enviou a gravação obteve o vídeo, que é coisa raríssima

Trabalhadores caminha nas ruas da futura capital Brasília: sonho de JK
Trabalhadores caminha nas ruas da futura capital Brasília: sonho de JK Foto (Arquivo/Fotos Públicas)

Afonso Barroso*

Assisti a um vídeo em preto e branco com depoimento do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Foi-me enviado por um amigo que deve ter captado essa raridade em algum recanto da internet.

Nos dez minutos da gravação dá pra avaliar a grandeza desse político mineiro, sem dúvida o maior administrador e o maior homem público da história deste nosso país. O que ele conta é um episódio ocorrido durante o seu governo, na época da construção de Brasília. Reproduzo suas palavras o mais fielmente possível:

"Tínhamos que transportar um gigantesco gerador de energia de São Paulo até ao Planalto Central, onde Brasília ainda estava no início de construção. Era uma verdadeira operação de guerra o transporte daquela peça, e para isso tivemos que usar a divisão de engenharia do batalhão do Exército de Itajubá".

O gerador (ou transformador) pesava 70 toneladas, conta ele. E houve um problema inesperado na viagem pela estrada ainda precária, de terra. Em plena travessia do Rio Paranaíba, na divisa de Minas com Goiás, a barcaça que transportava a gigantesca peça não aguentou o peso e soçobrou.

Foi um drama ao qual seguiu-se outra batalha, conta JK:

"Era preciso retirar o transformador do fundo do rio, o que era um trabalhão danado, porque não havia guindaste com aquela capacidade. Mas conseguimos, depois de muito esforço. E aí era preciso levar de novo para São Paulo, a fim de ser reparado, porque o aparelho ficou danificado pela ação da água".

Mas tudo funcionou. O transformador chegou a São Paulo, onde foi providenciado o conserto, o que também não era coisa simples.

E o grande presidente conta o final surpreendente da história:

"Enquanto se faziam os reparos do gerador eu resolvi construir a ponte sobre o Rio Paranaíba. E o resultado foi que quando a peça estava consertada, pudemos atravessar o rio com ela sem necessidade de pegar uma barcaça. A ponte ficou pronta em quatro meses, tempo que levou para a peça ser reparada".

JK fala também da festa que foi a chegada do transformador (ou gerador), que quando ligado proporcionou as primeiras luzes no deserto onde se instalaria a sede do governo brasileiro.

"Nós nos rejubilamos ao ver acenderem-se as primeiras luzes naquela solidão", lembra JK. Ao ver esse vídeo fiquei pensando em quantos presidentes tivemos e no quanto foram incompetentes e inoperantes, quando não corruptos e nada merecedores dos milhões de votos que receberam para subir a rampa do Planalto.

Não fiquei sabendo como e onde o amigo que me enviou essa gravação obteve o vídeo, que é coisa raríssima. Tão rara como o próprio presidente do qual ficou a realidade de obras perenes, como as hidrelétricas, as estradas, a indústria automobilística, Brasília, Pampulha e, principalmente, a memória de um mineiro da gema e brasileiro de verdade.

Nunca, em tempo algum, para infelicidade geral da nação, nunca-jamais veremos surgir outro JK no cenário da política nacional.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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