Religião

24/10/2021 | domtotal.com

Um grito incômodo

Reflexão do Evangelho de Marcos 10,46-52, correspondente ao 30º domingo do Tempo Comum

Não há Igreja de Jesus sem escutar os que sofrem
Não há Igreja de Jesus sem escutar os que sofrem (LUMO project/Free Bible Images)

José Antonio Pagola*

Jesus sai de Jericó a caminho de Jerusalém. Vai acompanhado pelos seus discípulos e por mais pessoas. De repente, escutam gritos. É um mendigo cego que, da beira do caminho, se dirige a Jesus: "Filho de David, tem compaixão de mim!".

A sua cegueira impede-o de desfrutar a vida como os outros. Ele nunca poderá peregrinar até Jerusalém. Além disso, fechar-lhe-iam as portas do templo: os cegos não podiam entrar no recinto sagrado. Excluído da vida, marginalizado pelo povo, esquecido pelos representantes de Deus, só lhe resta pedir compaixão a Jesus.

Os discípulos e seguidores irritam-se. Aqueles gritos interrompem a sua marcha tranquila em direção a Jerusalém. Não podem escutar em paz as palavras de Jesus. Aquele pobre incomoda. Há que silenciar os seus gritos. Por isso, "muitos o repreendiam para que se calasse".

A reação de Jesus é muito diferente. Não pode seguir o seu caminho ignorando o sofrimento daquele homem. "Detém-se", faz com que todo o grupo pare e pede-lhes para que chamem o cego. Os seus seguidores não podem caminhar atrás dele sem escutar as chamadas dos que sofrem.

A razão é simples. É dito por Jesus de mil maneiras, em parábolas, exortações e ditados soltos: o centro do olhar e do coração de Deus são os que sofrem. Por isso, Ele os acolhe e se vira para eles preferencialmente. A sua vida é, acima de tudo, para os maltratados pela vida ou pelas injustiças: os condenados a viver sem esperança.

Incomoda-nos os gritos dos que vivem mal. Pode irritar-nos encontrá-los continuamente nas páginas do evangelho. Mas não nos está permitido "mutilar" a sua mensagem. Não há Igreja de Jesus sem escutar os que sofrem.

Estão no nosso caminho. Podemos encontrá-los em qualquer momento. Muito perto de nós ou mais longe. Pedem ajuda e compaixão. A única postura cristã é a de Jesus perante o cego: "Que queres que faça por ti?". Esta deveria ser a atitude da Igreja perante o mundo daqueles que sofrem: que queres que faça por ti?

*José Antonio Pagola é padre e tem dedicado a sua vida aos estudos bíblicos, nomeadamente à investigação sobre o Jesus histórico. Nascido em 1937, é licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma (1962), licenciado em Sagradas Escrituras pelo Instituto Bíblico de Roma (1965), e diplomado em Ciências Bíblicas pela École Biblique de Jerusalém (1966). Professor no seminário de San Sebastián (Espanha) e na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha (sede de Vitória), foi também reitor do seminário diocesano de San Sebastián e vigário-geral da diocese de San Sebastián.



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