Economia

24/10/2021 | domtotal.com

E se os apps de entrega de comida estimulassem a alimentação saudável?

É possível incentivar a comida menos processada

Os aplicativos de comida são instrumentos positivos na vida cotidiana, mas podem ser repensados
Os aplicativos de comida são instrumentos positivos na vida cotidiana, mas podem ser repensados (Marcello Casal Jr/ABr)

*Paula Martins Horta

Se você costuma pedir comida por aplicativos, as chances de você consumir alimentos ultraprocessados são altas. Um estudo científico que investigou a oferta de alimentos em dois apps em Belo Horizonte, em 2019, mostrou que lanches ultraprocessados (como pizza e hambúrgueres) somam quase 70% da oferta dos cardápios dos apps. Os outros 30% são compostos por refeições tradicionais, como o clássico PF brasileiro (arroz, feijão, carne e salada).

Essa discrepância também é notada entre as bebidas - que também podem ser ultraprocessadas. Refrigerantes e sucos industrializados ocupam quase 80% da oferta dos apps, enquanto água e sucos naturais ocupam, respectivamente, 48% e 27%. Além disso, em todo o país, os anúncios publicitários da principal plataforma digital de entrega de comida privilegiam as estratégias de desconto, entrega grátis e combos na oferta de preparações com ingredientes ultraprocessados.

Por definição, ultraprocessados são formulações industriais com pouco ou nenhum alimento in natura em sua composição e com alto conteúdo de calorias, gorduras saturadas, sódio e açúcares. Considerando essa intensa presença nos cardápios digitais, a pergunta que intitula este artigo parece até utópica, mas é necessária se desejamos aumentar - ou pelo menos manter - nossa expectativa e qualidade de vida nos próximos anos.

O caminho para a alimentação saudável, no entanto, não implica excluir essas plataformas do nosso cotidiano. Os apps têm seu lado bom: dão praticidade e comodidade na hora de comer, articulando restaurantes, consumidores e entregadores. Além disso, permitem um passeio por cardápios de estabelecimentos com diferentes inclinações culinárias, custos, regiões das cidades, tudo na palma da mão.

Dessa forma, em vez de desencorajar o uso de aplicativos de entrega de comida, é possível pensar em estratégias que os transformem em ambientes digitais mais saudáveis - tornando a nossa pergunta-título menos utópica.

Existem muitas saídas nesse sentido. Restaurantes cadastrados nessas plataformas podem, por exemplo, incluir informações da lista de ingredientes e de composição nutricional de suas preparações. Um consumidor mais bem informado é capaz de fazer escolhas mais conscientes.

Os estabelecimentos também podem destacar opções compostas por alimentos mais frescos e menos ultraprocessados, priorizando sua visualização pelo usuário. Cuidados como o uso de embalagens - se possível, sustentáveis - que permitam a manutenção do frescor do alimento não processado ao longo da entrega aumentam a aceitação do consumidor por esse tipo de preparação e o incentiva a fazer novos pedidos.

As empresas que gerenciam os aplicativos de comida, por sua vez, podem enviar mensagens de estímulo a escolhas alimentares mais saudáveis e identificar estabelecimentos comerciais com um selo de saudabilidade que considere a presença de alimentos mais frescos no cardápio, a variedade de frutas e hortaliças e práticas de sustentabilidade, entre outros quesitos. Além disso, podem-se criar concursos de preparações culinárias saborosas e inovadoras, e que tenham como base ingredientes não processados, nos quais o consumidor é o eleitor. São práticas que permitem às empresas gerar impacto positivo na sociedade, levando em conta sua capilaridade e usos massivos.

A lista de estratégias que podem ser adotadas para que o ambiente alimentar dos aplicativos de entrega de comida seja mais saudável é extensa e pode ser formulada em conjunto, incluindo as empresas, os restaurantes, o poder regulador e os consumidores. Usar as tecnologias em prol de um futuro de maior sustentabilidade e saudabilidade deve ser a tônica do nosso modo de viver nos próximos anos.


Agência Bori

*Paula Martins Horta é professora adjunta do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutora em ciências da saúde (2016), na área de concentração saúde da criança e do adolescente, pela UFMG.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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