Brasil Política

22/10/2021 | domtotal.com

Guedes nega que tenha pedido demissão e admite furo no teto de gastos

Ministro da Economia confirma que fica no cargo, mas mercado ainda segue em alerta

Governo Bolsonaro tenta amenizar impacto após furar o teto de gastos
Governo Bolsonaro tenta amenizar impacto após furar o teto de gastos (Clauber Cleber Caetano/PR)

Ao lado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o ministro da Economia, Paulo Guedes, negou nesta sexta-feira (22) que tenha pedido demissão, em meio às manobras no teto de gastos para bancar o Auxílio Brasil de R$ 400 e a posterior debandada de sua equipe. "Trabalho para um presidente democraticamente eleito, bem intencionado. Estou errado em não pedir demissão porque vão gastar R$ 30 bilhões a mais? Estou fazendo o que de errado? Peço compreensão. Vamos trabalhar até o fim do governo."

Apesar da posição de Guedes,  a verdade é que o governo passa por cima das regras orçamentárias a fim de abrir comportas para gastos sociais e presentes eleitoreiros antes de 2022. Os mercados financeiros reagem com severas turbulentas. E talvez seja tudo em vão. O fato de o banqueiro e economista seguidor da Escola de Chicago Paulo Guedes estar no governo de Jair Bolsonaro era para a economia algo assim como a garantia de que o presidente adotaria um curso de reforma liberal. Porém as esperanças de que, apesar de ter como chefe o capitão da reserva, Guedes conseguiria impor esse curso há muito se desfizeram.

Desde o começo desta semana, ficou evidente que Guedes tampouco impedirá altas orçamentárias acima do limite permitido por lei. Com manobras grosseiras, agora o governo alterar o teto de gastos, que estava claramente fixado pelo orçamento público de 2020, corrigido pela inflação.

Por um lado, Bolsonaro propõe considerar a inflação mais alta de janeiro a dezembro de 2021 (em vez da dos 12 meses até junho último), a fim de poder gastar mais. Por outro, quer possibilitar por emenda o parcelamento de precatórios, aumentando ainda mais o campo para gastos. O teto só foi introduzido em 2017 e proporcionou ao Brasil os juros mais baixos de sua história econômica. Agora isso acabou.

No pronunciamento desta sexta (22), disse ainda que, em nenhum momento, o presidente Bolsonaro insinuou algo semelhante, ou seja, a sua demissão.

Segundo Guedes, ele soube, que, quando estava nas reuniões do FMI, houve "uma movimentação política no Brasil" para retirá-lo do cargo. "Não falo que são ministros fura teto, existe uma legião de fura teto", disse, admitindo que é uma regra restritiva.

Em meio às especulações de que Guedes poderia até mesmo deixar o cargo, Bolsonaro declarou apoio ao ministro. "Como é de praxe, de vez em quando, visito Paulo Guedes, pessoa que conheci antes das eleições. Nós nos entendemos muito bem, tenho confiança absoluta nele e Guedes entende as aflições que o governo passa", afirmou Bolsonaro, após reunião no gabinete do ministro. "Entendemos que a economia está ajustada, não existe solavanco ou descompromisso de nossa parte", enfatizou.

Bolsonaro fez nova defesa do Auxílio Brasil em R$ 400, que levou às alterações no teto de gastos que culminaram com a saída de quatro secretários da Economia na quinta-feira.

"O tíquete médio do Bolsa Família hoje é de R$ 192, o que é insuficiente. Com responsabilidade, vínhamos estudando há meses essa questão, e chegou-se um valor. Deixo claro que o valor decidido por nós tem responsabilidade, não faremos nenhuma aventura. Não queremos colocar em risco nada no tocante à economia", prometeu o presidente.

Surpresa

O ministro da Economia relatou que foi pego de surpresa pela saída de quatro secretários na quinta. Após a confirmação do acordo político para alterar a regra do teto de gastos para abrir espaço para um Auxílio Brasil de R$ 400 em 2022, a pasta anunciou os pedidos de exoneração do secretário especial do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, do secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt, - e de seus adjuntos.

Guedes lembrou que os ex-secretários trabalharam com as equipes que elaboravam a proposta do auxílio no Congresso. "Eu soube 24 horas antes só que Funchal e Jeferson pediriam para sair. Eles negociaram, negociaram, e de repente disseram que iam sair. Os secretários disseram que estávamos furando o teto, eu falei que furamos no ano passado para atender a saúde", relatou.

O ministro confirmou a indicação de Esteves Colnago para o cargo de secretário especial de Tesouro o Orçamento da pasta, no lugar de Funchal.

O ministro ainda argumentou que não quer tirar "nota 10 em fiscal" e deixar os brasileiros mais frágeis passarem fome. "Como ministro da economia tenho que lutar pelo teto sim, e lutei até o final. Mas se desacelerarmos reformas, a nossa capacidade de atender social também é desacelerada. Não existe essa antítese entre o liberal e o social. Não posso ser contra protótipo de programa de renda mínima, mas quero o financiamento correto", completou.

‘Barulho'

Guedes afirmou que "toda notícia tem informação sinal e barulho", em declaração ao lado do presidente da República, Jair Bolsonaro, após rumores de que deixaria a pasta devido às manobras no teto de gastos para bancar o aumento do Bolsa Família a R$ 400. Antes, Bolsonaro disse que tem "confiança absoluta" no ministro.

Guedes ainda tentou justificar as decisões em torno do Bolsa Família e da flexibilização do teto.

O ministro afirmou que estava tentando fazer o Bolsa Família dentro do teto e com a reforma do Imposto de Renda como ponte, além da PEC dos precatórios.

Ele citou que a "solução técnica" não funcionou, já que a reforma do Imposto de Renda não andou no Senado e é necessário o amparo aos mais vulneráveis diante do aumento da inflação. Por isso, vai ser necessário "gastar mais". "Criou-se um barulho enquanto eu estava lá fora para representar o Brasil. Brasil tem tudo para retomar o crescimento, vai crescer bem mais que previsões para 2022. A política começou a sacudir, e o dinheiro dos mais frágeis? Começa uma aparente briga entre ala política e econômica. Dificuldade e mérito de um bom presidente é saber pesar as duas coisas política e economia."

Teto de gastos é 'um símbolo'

O ministro disse ainda que o teto de gastos é "um símbolo", mas que não pode deixar ninguém passar fome para "tirar 10 no fiscal". "A solução de R$ 600 era nota 4 na economia, fura teto. A solução de R$ 300 estava nota 10 na técnica, mas 5 na política."

Segundo o ministro, faltou tolerância com a equipe econômica que tenta conciliar a solução técnica fiscal com o amparo aos mais vulneráveis.

O ministro citou que o aumento do Bolsa Família a R$ 400 é compreensível e não será questionado em momento em que há aumento de preço de comida e gás.

Caminhoneiros

Ele também minimizou o gasto a mais para atender os caminhoneiros, que vem sofrendo com a alta de combustíveis. "Estamos falando de pouco mais de R$ 3 bilhões para ajudar caminhoneiros. O Brasil roda em cima do modal rodoviário, é subsidiar quem carrega a comida."

Ato falho

Ao confirmar o nome de Esteves Colnago para o cargo de secretário especial de Tesouro e Orçamento do Ministério da Economia, Paulo Guedes cometeu um ato falho ao confundi-lo com o banqueiro André Esteves, do BTG.

Ao lado do presidente Jair Bolsonaro, Guedes aproveitou o erro para mostrar o desconforto com as informações de que parte da ala política do governo teria ido ao próprio BTG para encontrar um substituto para si na cadeira de ministro da Economia. O ex-secretário do Tesouro Nacional e atual economista chefe do BTG, Mansueto Almeida, seria o alvo dessa sondagem.

"Uma ala política foi no André Esteves perguntar se o BTG poderia emprestar o Mansueto se eu saísse. Sei que o presidente Bolsonaro não pediu isso, porque ele confia em mim e eu confio nele, mas muita gente da ala política andou fazendo pescaria, inclusive lá (no BTG)", ironizou Guedes.



Agência Estado/ DW/ Dom Total



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