Economia

23/10/2021 | domtotal.com

Bolsa derrete e tem a quarta pior semana em dois anos após manobra do teto de gastos

Apoio de Bolsonaro a Guedes e 'fico' do ministro ajudaram Bolsa a estancar parcialmente as perdas

Mercado reagiu mal, mas acalmou após fico de Guedes
Mercado reagiu mal, mas acalmou após fico de Guedes (Clauber Cleber Caetano/PR)

A visita do presidente Jair Bolsonaro ao Ministério da Economia na tarde desta sexta-feira, 22, e a reiteração do seu apoio ao ministro Paulo Guedes - que também manifestou sua decisão de permanecer no governo -, deram espaço para que o mercado buscasse uma recuperação, com o dólar em baixa de 0,71%, a R$ 5,6273. A Bolsa brasileira (B3) chegou a estancar parcialmente as perdas, em baixa de 1,34%, aos 106.269,18 pontos, após subir mais de 4%. Mesmo assim, o Ibovespa teve perda de 7,28% no acumulado dos últimos cinco dias, em sua pior semana em dois anos.

O resultado é o quarto pior do índice, atrás apenas dos recuos semanais registrados após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar a pandemia do coronavírus, em março. Com isso, a queda de mais de 7% do Ibovespa fica atrás apenas das semanas encerradas em 28 de fevereiro de 2020, quando caiu 8,37%, 13 de março de 2020, com queda de 15,63%, e 20 de março de 2020, com forte recuo de 18,8% em apenas cinco dias.

No ano de 2021, o Ibovespa cede 10,69%, com perda de 4,22% no mês de outubro. Na mínima do dia, o índice caiu aos 102.853,96, menor nível intradia desde 13 de novembro de 2020 - na máxima, tinha leve ganho de 0,01%, primeira variação positiva dos últimos dias. Hoje, a Bolsa fechou no menor nível desde 20 de novembro.

"Vamos ficar até o fim do governo", disse Guedes em pronunciamento ao lado de Bolsonaro. A declaração trouxe alívio ao mercado, principalmente após as especulações em torno da permanência do ministro. Momentos antes, Bolsonaro disse que tem absoluta confiança em Guedes e que ele entende "as aflições que o governo passa".  O presidente repetiu que a economia voltou em 'V' e que não quer " e que não existe descompromisso.

As declarações vem após o acordo feito pelo governo para mudar a regra do teto de gastos e permitir R$ 83,6 bilhões em gastos extras - já aprovado pela comissão especial da PEC dos precatórios -, para conseguir acomodar o Auxílio Brasil de R$ 400. O arranjo resultou em uma debandada na equipe de Guedes, com a baixa de dois importantes membros do ministério: Bruno Funchal (secretário especial do Tesouro e Orçamento) e Jeferson Bittencourt (secretário do Tesouro).

Nessa sexta (22), foi confirmado que o atual chefe da Assessoria Especial de Relações Institucionais da Economia, Esteves Colnago, irá assumir o lugar de Funchal. Em pronunciamento, Guedes relativizou a situação e disse que é "natural que a política queira furtar o teto e gastar mais", mas que está de olhos nos limites. "Isso não é uma falta de compromisso, é uma coisa muito ponderada". O ministro também disse que não vai deixar ninguém passar fome para tirar 10 no fiscal.

"O rompimento do teto foi bem precificado e a aparição de Bolsonaro e Guedes juntos traz um pouco mais de tranquilidade, embora ninguém tenha gostado dessa notícia da semana, a ruptura do teto, uma medida populista, 100% voltada para eleição", diz Viviane Vieira, operadora de renda variável da B.Side Investimentos, escritório ligado ao BTG Pactual.

Para Viviane, a depender da definição dos novos nomes para recompor o Tesouro, e dos desdobramentos da próxima semana, pode haver alguma recuperação gradual tanto para o real como para o Ibovespa, que esta semana esteve bem descolado do exterior, especialmente da Bolsa de Nova York, com S&P 500 em novo pico histórico, refletindo a positiva temporada de balanços trimestrais nos Estados Unidos.

"A debandada no Tesouro foi uma sinalização ruim, deixando Paulo Guedes isolado, o que explica a reação negativa, estressada, do mercado", diz Leonardo Milane, sócio e economista da VLG Investimentos, para quem a "poeira não está baixando", com outros fatores de risco ainda pendentes no curto prazo, como a possibilidade de paralisação de caminhoneiros. "O estouro do teto mostra que o Guedes não está mais lá para impedir que o teto seja furado", acrescenta.

Após o pronunciamento na economia, ações como as de Petrobras e as de grandes bancos, de forte peso no Ibovespa, encerraram o dia limitando a correção vista mais cedo, quando mostravam perda em torno ou acima de 5% na sessão. Ao final as ações ON e PN da petroleira caíam 1,697% e 0,98% cada, com Itaú em baixa de 3,84%. Na contramão, diante da alta do minério de ferro na China, Vale subiu 1,22%, Gerdau Metalúrgica, 2,08% e Usiminas, 1,34%.

Câmbio

O mercado doméstico de câmbio viveu uma sessão agitada e de muita volatilidade nessa sexta (22) - na máxima, o dólar bateu em R$ 5,7545, enquanto na mínima, despencou na R$ 5,6223, bem perto do valor de fechamento. A moeda americana termina esta semana com valorização de 3,16% e já acumula alta de 3,33% em outubro - o que evidencia uma reprecificação relevante do real nos últimos dias. O dólar para novembro fechou em queda de 0,24%, a R$ 5,6530.

A economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, vê a queda do dólar após o discurso do Guedes como um "pequeno ajuste" depois de um período de grande estresse, mas ressalta que a percepção de risco segue em nível elevado. "O fato de o Guedes continuar deu algum ânimo e possibilitou esse ajuste, já que ele é o único braço relativamente liberal no governo", diz Consorte. "Mas o dólar no patamar atual sugere que o mercado não gostou das mudanças fiscais, que ainda são vistas como 'pedaladas'. Devemos ver ainda bastante volatilidade".

Para  o gerente da mesa de derivativos financeiros da Commcor DTVM, Cleber Alessie Machado, após as movimentações dos últimos dias, a taxa de câmbio já carrega um prêmio de risco considerável, o que pode, em tese, abrir espaço para uma queda do dólar. A disputa pela formação da taxa Ptax de fim de outubro na semana que vem e eventuais fluxos podem, contudo, levar a moeda a flertar novamente com R$ 5,75. "Pelos fundamentos, é mais plausível o dólar ir para R$ 5,50, porque o pior momento do ajuste de prêmios já passou. Mas é preciso ver a questão do fluxo e da demanda", ressalta Machado.

A expectativa dos analistas é que o BC continue a atuar com leilões extras de swaps cambiais (equivalente a venda de dólares no mercado futuro) para suprir demandas específicas. A perspectiva de uma aceleração do ritmo de aperto monetário pelo Copom na próxima semana, com o mercado já projetando alta de 1,5 ponto percentual na Selic, pode dar também algum fôlego ao real, caso não haja novas surpresas no front fiscal.


Agência Estado



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!