Religião

26/10/2021 | domtotal.com

Eles caminhavam sem ver

Só é possível construir uma relação verdadeira entre o divino e o humano, na comunhão de naturezas, quando partilhamos, e um sinal concreto, a experiência plena da comunhão

O ser humano é, por natureza, convidado a mergulhar na experiência para encontrar o sentido
O ser humano é, por natureza, convidado a mergulhar na experiência para encontrar o sentido (Rock Staar / Unsplash)

Daniel Couto*

"Porque não é qualquer pão que se converte no corpo de Cristo, mas somente o que recebe a bênção de Cristo"
(Agostinho, Sermão 234 1-2, Ed. Maurist. T. 5, 987-988)

Mover-se, crer, estar no caminho. Nem sempre somos capazes de perceber a profundidade da nossa experiência e vivemos das aparências. Existe uma diferença significativa entre a dimensão da verdade (questionamento sincero que faz nascer em nós a adesão e o compromisso) e o estado de deslumbre. Deslumbrar-se é contemplar uma imagem, deixar que uma narrativa nos leve em direção aos seus propósitos e acreditar sem hesitar. 

As aparências, por definição, se assemelham ao objeto do qual são imitações, mas não o "são verdadeiramente". Se pensarmos no estudo do sentido e da compreensão do "ser" - que em filosofia costumeiramente chamamos de "ente" -, há um abismo entre "aquilo que realmente é" e "aquilo que aparenta ser". 

Mesmo que não nos pareça perceptível em um primeiro momento, Aristóteles estava correto, em alguma medida, ao dizer que o "ser humano busca o conhecimento por natureza". Mesmo que o nosso contato com o mundo seja por meio das aparências, desejamos nos aprofundar. O ser humano é, por natureza, convidado a mergulhar na experiência para encontrar o sentido. Quando estamos apenas flutuando, qualquer variação na corrente pode nos levar a um destino inesperado.

A questão da distinção entre profundidade e superficialidade, ilusão e verdade, "o ser enquanto ser" e "o ser aparente" perpassa diversas dimensões da humanidade, dentre elas a religiosidade. Os limites entre aquilo que podemos compreender da divindade e aquilo que a divindade "realmente é" está presente em várias narrativas teológicas em diferentes culturas. O divino, inalcançável pelas nossas faculdades sensoriais, só pode ser vislumbrado por meio de metáforas, comparações, negação, alegorias, mitos, memoriais e, claro, de modo aparente.

Toda essa tradição, porém, encontra no cristianismo um certo contra movimento. Como a pessoalidade divina é trina - isto é, com as três pessoas divinas possuindo a mesma natureza -, ao encontrar-se com o Filho, divindade encarnada, encontra-se, também, com o Pai e o Espírito. Jesus, deste modo, não é aparência de Deus, mas é Deus verdadeiramente. Jesus, humano e divino, condensa em si o um "ser" completo, restaurado à originalidade da criação. 

Leia também:

A ruptura que afasta a experiência do ser humano com a divindade, e coloca um impedimento para essa relação plena, não existe mais em Jesus, pois Ele é a profundidade da humanidade, não a superficialidade. Jesus não "parece" ser humano: Ele é. Jesus não "parece" divino: Ele é. O nome de Deus é epifânico em Jesus: Eu sou.

Neste sentido, o cristianismo se apresenta como uma espiritualidade da unidade. Esse pertencimento a um único "ser" congrega as três pessoas da divindade e se abre à toda humanidade a partir do primeiro sacramento de iniciação: o batismo. A palavra batismo, que significa mergulhar, demonstra como a igreja, corpo de Cristo, inicia-se a partir do mergulho na vida divina. Sem esse aprofundamento, a crença está anuviada, não é possível ver claramente os caminhos apontados pela vida divina, não se tem adesão, não se forma comunidade. 

Quando a experiência da religiosidade é vista apenas de um ponto de vista do vislumbre - como algo que não nos transforma, mas que é aparente - passamos a projetar aquilo que desejamos, as nossas frustrações e expectativas em uma narrativa da qual não fazemos parte. 

É frequente percebemos discursos que apontam as dificuldades de um "outro" sem perceber a pequenez e incompletude do "eu". Ao compreender todos como um único corpo, o "ser igreja" compartilha sua essência humana, divina, atemporal. Um ser que se define pela totalidade é eterno, não atualmente, mas como potência.

Essa narrativa do encontro profundo com o divino pode ser encontrada no Evangelho de Lucas (Lc 24,13-35), na famosa passagem dos discípulos de Jesus que estavam a caminho do vilarejo de Emaús logo após a crucifixão do Mestre. Não nos cabe, neste artigo, apontar a historicidade dessa caminhada, mas uma das possíveis compreensões teológicas desse encontro entre os discípulos e Jesus. 

Na perspectiva filosófica da aparência e da verdade, o episódio de Emaús se caracteriza como um processo de esclarecimento e conversão do "ser" que deixa de estar isolado em sua particularidade para compreender-se enquanto "membro de um único corpo".

O episódio da crucifixão de Jesus foi, certamente, muito impactante para os seus seguidores. Para os que não compreendiam bem o caminho do Reino de Deus, pregado por Jesus, a cruz significava a derrota, a manutenção do estado de dominação e o fim da esperança de libertação. 

Os seguidores não podiam mais ficar em Jerusalém, pois também tinham medo de ser perseguidos, estavam desarticulados, sem a perspectiva do estabelecimento de uma comunidade "sem o mestre" e, rapidamente, colocaram-se a caminho. Eles levavam consigo a experiência do convívio com o divino, mas a sensação de ausência, o luto e o medo não os deixam perceber que não estão sozinhos.

No meio do caminho o divino se aproxima e passa a recordar, junto com eles, toda sua revelação. É preciso mostrar-se verdadeiramente, por isso começa com a criação, a história do povo, os salmos, profetas, reis, e toda a tradição. O companheiro de caminho gasta todo o tempo disponível para que os seus irmãos possam se tornar "um com ele". O "ser" se revela, a aparência vai dando lugar à verdade, na medida em que eles se aprofundam no mistério. O mistério pascal de Cristo é a condensação da páscoa da humanidade: um caminho que vai da aparência até a verdade. Toda a sagrada escritura aponta para a ressurreição do Cristo e para as promessas do Reino.

Durante a conversa com o divino, os discípulos permanecem atentos e o "coração arde", demonstrando que algo se transformava na medida em que os olhos se abriam. Passo a passo. Palavra por palavra. O caminho é a imagem do ser humano que se dirige para um fim: a casa, lugar de acolhida e revelação de Deus. A transformação do ser, que acontece durante a caminhada, não acontece apenas por obra da divindade. 

Durante esse processo, os discípulos demonstraram sua abertura à palavra de Jesus e a expectativa de que uma transformação acontecesse. Só é possível "se tornar" um com "aquele que é" se o ser humano estiver disponível para esse encontro: a liberdade é nosso tesouro e sina. O primeiro elemento do encontro no caminho de Emaús é frequentemente ignorado. Antes de caminhar juntos, os discípulos estavam abertos ao irmão que se aproximou. A arrogância de se fechar em si é, no âmbito da religiosidade, uma autolimitação do ser.

A transformação encontra o seu ápice no sinal fraterno do pão. Tornamo-nos um quando aprendemos a partilhar. Só é possível construir uma relação verdadeira entre o divino e o humano, na comunhão de naturezas, quando partilhamos, e um sinal concreto, a experiência plena da comunhão. 

Ao partir o pão os olhos dos discípulos se abrem, reconhecem Jesus e ficam cheios de vontade de voltar para o seio da comunidade. Ao se encontrar com Deus os discípulos desejam, avidamente, se encontrar com os outros. Os símbolos do pão e do vinho apontam para o amor e a partilha da comunidade. O pão sem a palavra não é divino. O pão e a palavra sem a partilha não são divinos. O pão, a palavra e a partilha sem o compromisso com a libertação não são divinos. 

Agostinho já dizia que "não é qualquer pão que se converte no corpo de Cristo, mas somente aquele recebe a bênção de Cristo", ou seja, não basta dizer que o pão é corpo quando o corpo professa o contrário do Evangelho. De que vale dizer amém e praticar a injustiça? De que vale falar de paz enquanto empunhamos armas contra os irmãos? Alguém pode dizer que é "um com o Senhor" enquanto ignora os pobres e deseja a morte e a condenação?

O cristianismo, vivido de maneira autêntica, é muito exigente pois não se pode ser cristão sem mergulhar na vida de Jesus. Milhares de batizados, que passaram pela água sacramental da fé, ainda vivem flutuando com as marés e destoam do Evangelho. Cristãos deslumbrados com o poder da instituição, cheios de normas morais e dedos para apontar não se permitem ser acompanhados por Jesus. 

Na caminhada de Emaús, eles querem correr o mais rápido possível para comer o melhor pedaço do pão. Ao escutar a palavra do companheiro de caminho, os cristãos de superfície ficam pensando em como responder, pois decoraram todos os versículos que podem justificar o seu ódio, sua exclusão e o seu preconceito. Na revelação do Senhor, os cristãos de superfície deixam de lado a face do Cristo para estampar a face dos seus mitos. É por isso que precisamos compreender a distinção entre ser e parecer, mergulhar e flutuar, pois "nem todo aquele que diz Senhor conhece o meu coração". 

O caminho de se tornar "um com o uno" é lento, precisa de tempo para escutar, precisa de vida para partilhar, precisa de pão para dividir com o irmão e precisa de rosto. O rosto daquele que é "uno e trino" não é outro senão o rosto da humanidade nas suas mazelas e belezas. Uma humanidade que precisa abrir mão da arrogância e perceber a dignidade de todas e todos, cada um individualmente, mas todos unidos em um só corpo.

*Daniel Couto é doutorando em Filosofia, UFMG



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!