Cultura TV

26/10/2021 | domtotal.com

'Hierro' - Crônica de mar e ferro

Não há nada mais claustrofóbico do que uma ilha

Crimes passam a ocorrer após a chegada de uma juíza na Ilha El Hierro, nas Canárias: direção impecável
Crimes passam a ocorrer após a chegada de uma juíza na Ilha El Hierro, nas Canárias: direção impecável (HBO Max/Divulgação)

Alexis Parrot*

Estamos na menor ilha do arquipélago das Canárias, El Hierro. A geografia árida da costa em contraste com os bosques fechados que inundam seu interior pode servir de pista para entender a verdadeira natureza do lugar - e de seus habitantes.

Próxima ao continente africano, antes do período das grandes navegações era considerada o pedaço de terra mais meridional. Para os europeus, durante séculos configurava o ponto mais longínquo aonde se poderia chegar. Ou, como a chamavam, o fim do mundo.

Apesar de hoje conhecermos a forma esférica do planeta e o avanço avassalador dos tentáculos da globalização, o isolamento e a inacessibilidade seguem reinando (tanto como condição geográfica em diversos cantões, como prática política, ou como sentimento individual). O tempo passou e, embora ainda não tenha chegado de fato, o fim do mundo está agora em diversos lugares, além de assumir outras configurações.       

Em Hierro, é nesta ilha espanhola de forte simbolismo histórico que aporta uma nova juíza, obrigada de cara a lidar com as investigações de um crime, os preparativos para uma monumental procissão e a desconfiança generalizada dos nativos. Medo, mais mortes e decepção serão os ingredientes inevitáveis a se juntar às pistas e novas reviravoltas do caso. Alçada a ilha à condição de personagem, a única testemunha confiável parece ser o silêncio estrondoso de sua paisagem vulcânica.  

A história não é nova. Um assassinato serve como catalisador para fazer emergir tudo o que há de secreto no lugar enquanto revira as entranhas de sua comunidade, aparentemente perfeita, até então. Sob este ponto de vista, Hierro é mais uma a beber da mesma fonte de onde brotaram Twin Peaks, Broadchurch, Trapped e Big little lies, entre inúmeras outras.

Porém, mesmo se filiando à matriz consagrada, a série espanhola merece nossa atenção por ter encontrado tempero próprio em território já tão explorado. Se não revitaliza o gênero, tem o mérito de revisitá-lo com frescor e ganas - como diriam os espanhóis.

O roteiro tem lá um furo ou outro, mas, ainda assim, a fluência da narrativa é admirável. Correu-se um risco na tentativa de imprimir certa cor local à produção. A decisão de incorporar na trama características e detalhes típicos da região poderia ter caído no reducionismo do exótico. Porém, aquele sabor amargo de panfleto turístico que muitas vezes fica na boca após assistirmos a um programa ou outro, não encontra espaço em Hierro.    

A absorção destes elementos é operada de forma orgânica e funcional dentro da narrativa. A festa religiosa da Bajada (uma procissão que, de quatro em quatro anos, leva a imagem da Virgen de los Reyes por toda a ilha) ou a citação ao desconcertante canto das pardelas (ave marítima típica das Canárias e da Madeira) trazem ares de documentário à série, reforçando a impressão de realismo. Servem também para nos dizer que aqueles acontecimentos não poderiam ter lugar senão naquela parte meio esquecida do mundo. 

Como em qualquer história de crime, existem sim os bandidos e os mocinhos, vítimas e  criminosos, mas merece destaque o fato de que, com exceção da Virgen de los Reyes, ali ninguém é santo. Tal mirada, que poderia resultar em cinismo, traz exatamente o oposto para a história: coerência e humanidade, sem idealizações.

Impressiona também a consistência cinematográfica, que vai muito além da presença de figuras conhecidas do cinema no elenco. Por mais que os almodovarianos Darío Grandinetti (na interpretação mais impressionante de sua carreira desde Fale com ela), Candela Peña e Antónia San Juan (de Tudo sobre minha mãe) ajudem a reforçar esta impressão, é a direção que merece os maiores aplausos.

Desde a decupagem de planos e a ambientação que dão protagonismo à ilha e jogam com o estado de espírito de cada personagem, o diretor Jorge Coira (irmão do roteirista Pepe Coira) leva a série a outro nível, provando que televisão não precisa ser uma eterna fábrica de salsichas. Junto à escolha do elenco, recheada de performances memoráveis, é a mão segura da direção a responsável por moldar o tom de toda a produção, tirando o máximo do roteiro também acima da média.   

Exibida na Espanha em fevereiro, a segunda (e última) temporada da série ainda não tem previsão de estreia no Brasil, mas é algo em que devemos ficar de olho. Ainda que Hierro se esquive de comentar filosófica ou politicamente o nosso tempo (como fazem Twin Peaks ou Trapped), de forma intrínseca algo de existencial já está posto, desde o início.

Não há nada mais claustrofóbico do que uma ilha. A aparente incoerência começa a fazer sentido quando nos damos conta da impossibilidade da fuga em tal cenário. Cercada de água por todos os lados, tornam-se escassas as possibilidades de escapar dali.   

Ou pior, contradizendo a própria filosofia e na trilha individualizante em que marcha o  capitalismo, se todo homem tornou-se uma ilha, como fugir de si mesmo?   

HIERRO
Primeira temporada disponível na HBO Max


Dom Total

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!