Meio Ambiente

26/10/2021 | domtotal.com

ONU alerta que metas declaradas para limitar aquecimento global a 1,5 grau são insuficientes

Promessas de corte de emissões pelos Estados resultariam em aumento de 2,7 graus

Para o Brasil, as queimadas na Amazônia representam o maior desafio para alcançar as metas de redução de emissões
Para o Brasil, as queimadas na Amazônia representam o maior desafio para alcançar as metas de redução de emissões (Carl de Souza/AFP)

A poucos dias da COP26, a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou sobre a baixa ambição nas promessas dos Estados de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, que deveriam ser sete vezes maiores para limitar o aquecimento global a 1,5 grau. Com os valores anunciados atualmente no corte de emissões, uma elevação da temperatura do planeta neste século seria de 2,7 graus em relação à era pré-industrial, quase o dobro do estabelecido no Acordo de Paris.

Apesar dos novos compromissos anunciados a partir de 30 de setembro por mais de 120 países, "é grande" a diferença entre o que é necessário para respeitar o Acordo de Paris e deixar o aquecimento abaixo de 2 grau (+1,5 grau, idealmente) em relação à era pré-industrial, resume o relatório Emissions Gap Report de 2021, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

As novas projeções, apresentadas antes da COP26, "preveem uma redução das emissões para 2030 de 7,5%, quando é necessário 30% para estar a 2 graus, e -55% para +1,5º grau". Essa redução "teria que ser quatro vezes maior para ser compatível com +2 graus", explicou Anne Ohloff, uma das autoras do relatório, e sete vezes mais para ser a +1,5 grau. "Houve progresso, mas estamos muito longe do que precisamos", acrescentou.

As "Contribuições Determinadas Nacionalmente" (NDC) são apresentadas a cada cinco anos e refletem os compromissos de redução de emissões dos países. As promessas anteriores, apresentadas pelos quase 200 signatários do Acordo de Paris, levavam o mundo a um aumento das temperaturas entre 3 e 4 graus.

Em 2021, a atualização ou apresentação de novos NDC por 143 países, bem como as promessas anunciadas por grandes economias como a China, levarão o planeta a um horizonte de pelo menos +2,7 graus em 2030.

Além dos NDC, que refletem metas de curto prazo, 49 países (responsáveis por 57% das emissões globais) oficialmente comprometeram-se a alcançar a neutralidade de carbono até meados deste século (2050 para a maioria, mas outros definiram 2060 ou 2045). Essas promessas dão "alguma esperança", segundo o relatório, porque colocariam o aquecimento global em +2,2°C.

No entanto, os especialistas que fizeram o relatório do Pnuma alertam para o risco de que essas previsões não sejam cumpridas, uma vez que, por exemplo, os países do G20 (80% das emissões globais) não estão respeitando seus NDC anteriores, e as estratégias para alcançar a neutralidade de carbono são "vagas".

Negociações complexas

O presidente da COP26, o britânico Alok Sharma, afirmou que será "mais difícil" alcançar um acordo mundial ao final da reunião de cúpula climática, que começará na próxima semana em Glasgow, do que durante o encontro de Paris em 2015. "O que estamos tentando fazer aqui em Glasgow é realmente muito complicado, definitivamente mais difícil que Paris em muitos níveis", declarou Sharma ao jornal The Guardian.

"O que fizeram em Paris foi brilhante, foi um acordo marco, (mas) grande parte das regras detalhadas foram deixadas para o futuro", acrescentou. "É como se tivéssemos chegado ao fim da prova e restassem apenas as perguntas mais difíceis. E o tempo está acabando, a prova termina em meia hora", explicou.

As negociações serão complexas pela evolução do contexto geopolítico, pois Reino Unido e Estados Unidos mantêm relações mais tensas do que antes com China e Rússia, cujos presidentes provavelmente não comparecerão à COP26.

Em agosto, o relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) advertiu para o risco de atingir o limite de 1,5 °C em 2030, 10 anos antes do projetado, o que ameaçaria a humanidade com desastres naturais sem precedentes. "Mas o que existe a nosso favor atualmente é que há consciência de que temos que enfrentar esta crise climática", destacou Sharma. "O relatório do IPCC, apesar de muito alarmante, foi suficientemente útil para abrir as mentes", insistiu.

Usinas de carvão mineral são a maior fonte de emissões de carbono do planeta (John McDougall/AFP)Usinas de carvão mineral são a maior fonte de emissões de carbono do planeta (John McDougall/AFP)

Senso de responsabilidade

O secretário-geral da ONU, António Guterres, já havia expressado sua inquietação com o pouco tempo disponível para "evitar um fracasso" na COP26. Os compromissos contra as mudanças climáticas que foram assumidos até agora pelos países são um "bilhete de ida para o desastre", alertou Guterres na semana passada. "Quando vejo o pouco tempo disponível entre hoje e Glasgow, e quando vejo como estamos longe de onde deveríamos estar, fico profundamente inquieto, embora mantenha a esperança", acrescentou o secretário-geral das Nações Unidas.

Os progressos de negociações das últimas semanas "não foram suficientes", emendou. "Espero que ainda estejamos nos prazos para evitar um fracasso, mas o tempo urge, cada vez é mais difícil e é por isso que estou inquieto", disse.

Para evitar o fracasso, Guterres pediu "senso de responsabilidade" a todos os governos, em especial aos do G20, formado pelas principais economias do planeta, que se reúne na semana que vem, às vésperas do início da COP26.

O próprio Guterres se dirigirá à cúpula do G20, que tem que entregar um compromisso sólido, com metas claras de redução das emissões de gases de efeito estufa, ou o financiamento da ajuda aos países pobres para lutar contra as mudanças climáticas.

A China não anunciou ainda suas novas metas de redução de gases estufa, enquanto os países mais ricos do clube tampouco ofereceram ainda um compromisso claro com uma promessa de pôr sobre a mesa US$ 100 bilhões ao ano. "A contaminação por carbono de alguns poucos países pôs a humanidade de joelhos", disse Guterres, lembrando que o G20 representa 80% das emissões mundiais.

"Perigo iminente"

Além disso, sinais perturbadores se multiplicam. Depois que as medidas tomadas em 2020 para retardar a propagação da pandemia do coronavírus reduziram as emissões de gases de efeito estufa em 5,4%, espera-se que em 2021 sejam um pouco inferiores às de 2019, que foi um ano recorde.

O relatório do Pnuma critica o fato de os Estados não terem aproveitado a pandemia para incluir a transição verde em seus planos de recuperação econômica, uma vez que apenas 17-19% dos investimentos podem reduzir as emissões.

Por outro lado, as previsões dos cientistas são baseadas em probabilidades. Consideram que existe uma probabilidade de 66% de não ultrapassar +2,2 graus. Mas, neste mesmo cenário, há "mais de 15% de probabilidade de que o aquecimento ultrapasse +2,5 graus antes do final do século e 5% de probabilidade de que ultrapasse +3 graus". "É assustador. Destaca a necessidade de descer o mais baixo possível", diz Anne Ohloff.

Ainda mais quando toda pequena variação de temperatura pode ter consequências catastróficas nos fenômenos climáticos, desde ondas de calor até inundações, como as atuais, com +1,1 grau em relação à era pré-industrial.

"Temos oito anos para cortar as emissões de gases de efeito estufa quase pela metade e temos a chance de limitar o aquecimento global a +1,5 grau. Oito anos para implementar planos, implementar políticas, executá-las e, finalmente, alcançar os cortes. O tique-taque do relógio continua", ressalta Inger Andersen, diretora executiva do Pnuma, no relatório.

Oito anos para reduzir 28 gigatoneladas de CO2 equivalente (a unidade de medida de todas as emissões de gases de efeito estufa) até 2030, se quisermos chegar a + 1,5 grau, segundo o relatório. Isso representa um pouco menos da metade de todos os gases de efeito estufa, cerca de 60 gigatoneladas de CO2 equivalente por ano. Os compromissos atuais os reduzem em 4 gigatoneladas, explica o Pnuma.

Uma das chaves de ação para reduzir as emissões é acabar com o uso de combustíveis fósseis, especialmente os poluentes. No entanto, outro relatório do Pnuma publicado na semana passada mostrou que as previsões globais para a produção de carvão, petróleo e gás eram mais de duas vezes maiores do que aquelas consistentes com a meta de +1,5 grau. "O mundo deve acordar para o perigo iminente que nos ameaça como espécie", advertiu Inger Andersen.


AFP/Dom Total



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