Religião

27/10/2021 | domtotal.com

Como Inácio de Loyola pode nos ajudar a quebrar a barreira do racismo

O trabalho contra o racismo requer que trabalhemos em ambos os níveis: lutando contra as forças sociais externas enquanto reorganizamos nossas próprias prioridades internas

Manifestação 'Vidas negras importam', nos EUA, em junho de 2020
Manifestação 'Vidas negras importam', nos EUA, em junho de 2020 Foto (Gayatri Malhotra / Unsplash)

Patrick Saint-Jean
NCR Online

Quando historiadores religiosos contam a história de Inácio de Loyola antes de sua conversão, geralmente enfatizam sua vaidade, sua devoção ao romance e à aventura e sua ambição militar. Frequentemente, deixam de fora o fato de que a vida de Inácio não estava indo muito bem para ele antes de sua conversão. Inácio não era o mulherengo despreocupado como costuma ser retratado. A bala de canhão que o feriu gravemente em 1521 não destruiu uma vida de sucesso; em vez disso, foi um golpe final para um jovem que já havia sofrido muita dor.

A mãe de Inácio morreu quando ele tinha apenas 7 anos; seu pai morreu quando tinha 16. Um de seus irmãos mais velhos perdeu a vida em batalha, enquanto outro foi para o mar e nunca mais voltou. O santo cresceu em uma família que observava as tradições religiosas, mas falhou em impor limites morais. Seu pai era um mulherengo que tivera vários filhos ilegítimos e o comportamento de seu avô era tão imprudente e imoral que dois andares do castelo da família foram demolidos como punição da Coroa.

Inácio cresceu mimado e solitário. Também brigou, metendo-se em sérios apuros, mas foi capaz de usar sua posição privilegiada para escapar de quaisquer consequências. Seu pai, antes de sua morte, enviou Inácio para morar na casa de um dos governadores provinciais do rei Fernando, e lá Inácio permaneceu por muitos anos. Como a maioria dos rapazes de sua classe, ele teve pouca educação além de aprender a ser um bom soldado, um cavaleiro realizado e um cortesão galante. Na época de seu ferimento na batalha em Pamplona, seu pai adotivo havia caído em desgraça com o rei. Inácio ficou apenas com sua própria vaidade para servir de âncora na vida.

Depois de sua conversão, no entanto, as prioridades de Inácio começaram a mudar. Ele percebeu que suas próprias emoções estavam "desordenadas" - em outras palavras, desequilibradas, doentias, afastando-o de sua verdadeira identidade dada por Deus. Assim que ficou curado o suficiente para andar, partiu para Jerusalém, em busca da geografia física de Cristo, enquanto seu coração buscava um caminho espiritual. Quando suas viagens o levaram a alguém necessitado, Inácio deu ao homem suas roupas elegantes. 

Então, em uma vigília que durou a noite toda diante da Madona Negra em uma igreja em Montserrat, Inácio renunciou a sua espada e adaga. Com essas ações, o santo demonstrou que estava se distanciando de suas antigas prioridades. Inácio estava permitindo que seus desejos e objetivos fossem reorganizados - reordenados por Cristo.

Racismo e idolatria

No início dos Exercícios Espirituais, Inácio escreveu uma antiga oração chamada Anima Christi. A oração inclui as seguintes palavras: "Não permitais que me separe de Vós". Inácio aprendera que a vaidade e as paixões egoístas se interpunham entre ele e Cristo. Essas vaidades também se interpuseram entre ele e seus companheiros humanos. As "afeições desordenadas" nos separam uns dos outros tanto quanto nos separam do Divino.

O racismo é uma forma de afeto desordenado, um desequilíbrio em nossas prioridades que nos coloca fora de sincronia com o Espírito Divino em ação em nosso mundo. O teólogo M. Shawn Copeland escreveu: "O racismo estraga o espírito e insulta o sagrado; é idolatria". Em outras palavras, ele não apenas causa divisões entre os seres humanos, mas também tem o poder de nos separar de Deus.

A maioria de nós provavelmente está familiarizada com o primeiro dos Dez Mandamentos: "Não terás outros deuses além de mim". O pecado de adorar outro deus - também conhecido como idolatria - é um mandamento que frequentemente esquecemos. Afinal, a maioria de nós provavelmente não se prostra diante de uma estátua ou diz orações a Zeus. O rabino Abraham Joshua Heschel, entretanto, define um ídolo como "qualquer deus que seja meu, mas não seu, qualquer deus preocupado só comigo, mas não com você". Quando permitimos que o racismo exista em nosso Cristianismo, nosso deus não é mais a Força viva e amorosa que sustenta o universo. Podemos pensar que somos devotados ao mesmo Deus que Jesus chamou de Pai, mas em vez disso, estamos adorando algo sem vida e sem amor, um deus vazio - um ídolo.

"O racismo é uma fé", escreveu o teólogo George D. Kelsey, "uma forma de idolatria. É uma busca incompleta por significado". Kelsey passou a explicar que o conceito de uma "raça superior" surgiu da necessidade de justificar o egoísmo humano na forma de potência. Os brancos precisavam encontrar uma desculpa para sua opressão e exploração das pessoas de cor, e então criaram um sistema de crenças sobre a própria ordem do ser, uma ideia que era totalmente contrária aos princípios atuais tanto do hebraico quanto do cristão escrituras. "O deus do racismo", disse Kelsey, é a própria raça branca, que se propôs a ser "o maior centro de valor", possuindo um direito inerente ao poder que reduz a vida das pessoas de cor.

O deus do racismo agora permeia nossas instituições políticas, sociais, médicas e educacionais. O padre Bryan Massingale nos desafia a ver essa força em ação mesmo dentro de nossas igrejas, onde "a idolatria reside na crença generalizada de que a estética, a música, a teologia e as pessoas europeias - apenas essas são o padrão, a norma, seres universais... Que somente podem mediar o divino e carregar o sagrado". Massingale conclui que "idolatria é divinizar o que não é Deus".

O racismo nos faz ver o branco como "normal". Equaciona a brancura com o ser humano, o padrão pelo qual todas as pessoas são avaliadas. O teólogo Soong-Chan Rah observou que o racismo permite que os brancos "construam o mundo à sua própria imagem... estabeleçam padrões para a humanidade pelos quais estão fadados ao sucesso e outros fadados ao fracasso". Centralizar a brancura dessa forma, diz Rah, é um ato de idolatria que adora o criado em vez do Criador.

"Afastem-se de tudo o que os separa de Deus, tudo o que possa ocupar o lugar de Deus em seus corações", advertiu o autor da Primeira Carta de João (5,21). E estava enfatizando o fato de que embora um "ídolo" seja algo externo, a força que dá a um ídolo seu poder está em nossos próprios corações. Embora o racismo seja muito real no nível sistêmico, também é a personificação externa de nossos próprios corações desordenados.

Podemos pensar que somos imunes às suas demandas, mas mesmo assim reforça uma realidade em que algumas pessoas valem menos que outras, um sistema que perpetua a desigualdade e o sofrimento. E, ao mesmo tempo, separa nossos próprios corações da conexão com o Deus verdadeiro, o Deus do Amor e da Vida. O trabalho contra o racismo requer que trabalhemos em ambos os níveis: lutando contra as forças sociais externas enquanto, ao mesmo tempo, reorganizamos nossas próprias prioridades internas.

À medida que começamos a ver com a Luz de Cristo, também começamos a perceber o que precisa ser reordenado em nossas vidas. Mais cedo ou mais tarde, nos encontramos no ponto em que Inácio se encontrava após seu ferimento, um lugar de visão e iluminação onde somos desafiados a reorganizar nossos desejos interiores.

Este é o propósito do Exercício Espiritual. Como disse Inácio, esses exercícios são os "meios de preparar e dispor sua alma para se livrar de todas as suas afeições desordenadas e, então, após sua remoção, de buscar e encontrar a vontade de Deus na sua vida". Após a conversão de Inácio, durante seu longo período de oração em Manresa, o santo compreendeu sua jornada espiritual como um processo de reorientação. Foi chamado a se afastar intencionalmente de suas paixões desordenadas - seu egocentrismo e suas ilusões de grandeza - para um novo lugar de humildade, um lugar de abertura para Deus.

Inácio se referiu a este lugar como um estado de indiferença. Com isso, não quis dizer apatia ou falta de interesse, mas sim um desapego de todos os seus medos, falsas suposições e desejos egoístas. Nesse estado desimpedido, Inácio estava livre para receber o chamado de Deus para uma nova vida de interação saudável com os outros, uma vida de serviço e amor.

Para aqueles de nós que vivemos no mundo do século 21, o trabalho do contra o racismo é uma parte essencial de nosso chamado ao desapego de nós mesmos. Esta missão nos pede para remover o ídolo do racismo de nossas vidas para que possamos nos conectar mais intimamente com Deus e com os outros.

Como você atenderá esse chamado? Só você pode dizer.

Publicado originalmente em NCR Online.


Traduzido por Ramón Lara



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