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28/10/2021 | domtotal.com

Crônica, humana crônica

Tenho minhas sinceras dúvidas se a crônica é mesmo um artigo genuinamente nacional

Como posso ser infeliz se vivi, também, com dinheirinho ganho por crônicas?
Como posso ser infeliz se vivi, também, com dinheirinho ganho por crônicas? (Getty Images/AFP)

Ricardo Soares*

Outro dia me dei conta de que entrei na lida jornalística pelas portas da crônica, gênero que pratico desde a adolescência. E na verdade- tirando um perfil de Paulo Vanzolini publicado pela extinta revista Música – os primeiros textos que publiquei na vida foram crônicas a começar aquelas que saíram no jornal Metrô News, de São Paulo  no distante ano de 1977.

No meu panteão pessoal dentro do gênero estão desde sempre Rubem Braga e Paulo Mendes Campos e tenho minhas sinceras dúvidas se a crônica – tal como a conhecemos e concebemos – é mesmo um artigo genuinamente nacional como muitos teóricos da literatura apregoam. Pelo sim, pelo não, sempre amei e pratiquei o gênero não querendo dizer com isso que as linhas que pratico são legíveis.

Escrevi centenas delas pra veículos muitos. Do já citado Metrô News aos jornais O Estado de S.Paulo , Diario do Grande ABC e o extinto Jornal da Tarde, passando por revistas tão dispares como Rolling Stone e Família Cristã, sem contar as dezenas de crônicas que fiz para a TV Gazeta – nas aberturas de um telejornal chamado Gazeta Paulista nos idos dos anos 1990 – e a TV Cultura de São Paulo onde redigi também interprogramas. Atualmente tenho muita alegria ao publicar crônicas todas as quintas- feiras aqui no Dom Total.

Ao expor aqui meu envolvimento assíduo e longevo com a crônica, na verdade, só tenho mesmo a intenção de ser grato ao gênero que, se não me deu fama e fortuna, me deu de comer muitas vezes. Como posso ser infeliz se vivi, também, com dinheirinho ganho por crônicas? Não fiz fortuna com isso e creio, honestamente, que das minhas centenas de crônicas só meia dúzia não são mesmo perecíveis.

Mas, mesmo quando vejo tanta gente dizer que é cronista quando não é (confundindo crônica com artigos sobre atualidades e "fazeres" políticos), não me importo porque ao usarem o termo "crônica" para definir o que fazem acabam por ajudar a manter o gênero vivo. Eu poderia listar aqui mais uma dúzia de grandes cronistas além dos citados Paulo Mendes e Rubem Braga, mas prefiro guardar um silêncio reverente ao festejado gênero que muitas vezes nos mantém de pé como café forte pela manhã. Crônica, humana crônica. Que tenha vida longa no Brasil dos combalidos.


Dom Total

Ricardo Soares é diretor de TV, roteirista, jornalista e cronista. Publicou nove livros, dirigiu 12 documentários

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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