Cultura

29/10/2021 | domtotal.com

Eu vim do chão

A escritora moçambicana Paulina-Chiziane traz consciência política e eleva a voz de seu povo

A escritora moçambicana Paulina-Chiziane: sem afetação, traz a voz de seu povo
A escritora moçambicana Paulina-Chiziane: sem afetação, traz a voz de seu povo (Arquivo Pessoal)

Eleonora Santa Rosa*

Qual não foi a surpresa, ao abrir mensagem recebida no início da semana, logo ao acordar, com a entrevista da vencedora do Prêmio Camões de 2021, Paulina Chiziane, residente em Zambézia, Moçambique, uma surpresa total. Não a conhecia, não havia visto qualquer menção à sua obra, lapso meu, claro! Me pegou de "jeito" no melhor sentido. Comecei ouvindo sua fala, depois vi sua imagem e seu centramento. Fiquei hipnotizada com seu relato, sua rotina e sua trajetória. Sua afabilidade, sua lucidez, sua inteligência e o generoso retrospecto que traçou sobre sua escrita, comoveram-me profundamente.

Ao lado de sua fogueira, numa conversa deliciosa, com clareza, delicadeza e perspicácia refinada, ela nos encanta e nos envolve com desfiar de um depoimento dotado de zero cabotinismo, zero afetação, zero esnobismo, zero pernosticidade, zero puerilidade, uma verdadeira lição de simplicidade (nada a ver com simploriedade), humanidade, generosidade e solidariedade. Muito tocante tudo, particularmente a narrativa que faz do momento em que soube da premiação, em meio às triviais tarefas domésticas de uma vida camponesa.

Sua fala é eivada de sabedoria, abnegação, consciência política/crítica, sua voz como a voz da memória coletiva. Seu percurso é marcado por muitas dificuldades, necessidades, desafios e dádivas, de conhecimento e apuro, de libertação pela educação e de transcendência pela literatura. Em sua juventude, participou ativamente da militância da Frente de Libertação de Moçambique, e, durante a guerra que afetou o país de modo brutal, trabalhou como enfermeira da Cruz Vermelha.

Lendo a seu respeito, espantou-me a profusão de seus títulos e o alcance que sua produção atingiu, com galardões e homenagens de importância internacional. É autora de obra consolidada composta por romances, poemas, contos, ensaios. Pena que ainda não tão presente no Brasil. Realmente, uma bela surpresa para mim!

Algumas passagens de sua entrevista: "Eu vim do chão, o meu percurso foi uma luta própria, o reconhecimento para alguém que veio de lugar nenhum, sem dúvida, é um motivo de inspiração para uma outra geração. Esse reconhecimento vem para mim, sim, mas não vem para mim, vem para todo um povo que vê em mim alguém que faz parte deles próprios. Tudo que tentei escrever nos diferentes livros parte da nossa memória coletiva... Eu estou a trazer a voz coletiva, portanto, é todo um povo que é agraciado ... Este prêmio apanhou-me raspada, sem nada, ainda não estou em condições de festejar, ainda preciso comprar champagne, para poder comemorar, quando o dinheiro chegar!".

Ao lado de Miguel Torga, João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, José Saramago, Antonio Cândido, Sophia de Mello Breyner Andresen, Rubem Fonseca, Augustina Bessa-Luís, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar, Mia Couto, Alberto Costa e Silva, Raduan Nassar, Chico Buarque, alguns de seus companheiros de premiação, Paulina adentra o panteão da língua portuguesa.

Viva Camões! Via Paulina!


Dom Total

*Eleonora Santa Rosa - Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ex-presidente do Conselho do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais - IEPHA, instituiu em sua gestão o Conselho Estadual do Patrimônio Cultural de Minas Gerais - CONEP. Implantou a primeira fase do Circuito Cultural da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte e foi diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR. Concebeu e implementou inúmeras ações e iniciativas referenciais no campo do Patrimônio Cultural, da Educação Patrimonial e de museus. Gestora, consultora e estrategista da área da Cultura, é autora de diversos artigos e do livro Interstício.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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