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03/11/2021 | domtotal.com

Um brilhante chamado Gilberto Braga

Um autor intenso e sofisticado como sua obra

Gilberto Braga morreu aos 75 anos
Gilberto Braga morreu aos 75 anos (Alexandre Carvalho/ VIVA)

Alexis Parrot*

Há uma semana o Brasil foi pego de surpresa ao perder um de seus autores favoritos. Aos 75 anos, no Rio de Janeiro que tanto amava, morreu Gilberto Braga - cuja pena e imaginação criaram alguns dos momentos mais memoráveis de nossa televisão. 

Chamado de Balzac brasileiro pelo amigo e colega de profissão Aguinaldo Silva, escrevia sobre ricos e grã-finos como ninguém. Por mais que rejeitasse esse estigma (de cronista da classe alta), seu trabalho é geralmente assim reconhecido se analisado superficialmente, e muitas vezes até confundido com o de Manoel Carlos, outro autor empenhado em retratar as vicissitudes da fauna humana da Zona Sul carioca.   

Tijucano da gema, frequentou os bancos escolares do Instituto de Educação e do Pedro II, colégios públicos emblemáticos ainda em atividade, revisitados idilicamente em Anos dourados. Foi, aliás, uma antiga professora do Pedro II que lhe deu a dica: o romance de Bernardo Guimarães, A escrava Isaura, era perfeito para virar novela. Acabou sendo o primeiro sucesso internacional da Globo, vendida para mais de cem países.

Na primeira viagem ao exterior, com uma bolsa de estudos da Aliança Francesa, apesar de ter adorado Paris e Viena, entendeu que não poderia viver em nenhum outro lugar senão a terra natal. Queria ser lembrado, essencialmente, como um escritor que falava do Rio. Mais que brasileiro, se considerava carioca.

Começou a escrever para a televisão na tentativa de engrossar os parcos rendimentos obtidos na jornada dupla de crítico de teatro e professor de francês. Foi levado para a Globo em 1972 pelas mãos de ninguém menos que Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha do Teatro de Arena e futuro criador da Grande família. Estreou com uma adaptação da Dama das Camélias e não parou mais.

Embarcou na aventura acreditando que da TV poderia chegar ao cinema, mas encontrou-se por ali mesmo, encantado com o desafio e o extraordinário alcance do veículo no país. Encontrou em Daniel Filho e, mais tarde, em Dênis Carvalho os parceiros ideais para desenvolver e levar ao ar o fino melodrama de suas tramas. Na vida pessoal, viveu um amor de novela de quase meio século com o marido Edgar Moura Brasil.

Era um dos poucos autores de televisão que desenvolvia histórias a partir de questões ou de um conceito. Em Vale Tudo (entre as cinco melhores novelas de todos os tempos, segundo meu ranking pessoal), a discussão se desenvolvia em torno da crítica ao jeitinho brasileiro de levar vantagem em tudo, questionando a corrupção vista como valor a ser respeitado. Em Celebridade, um tratado sobre a inveja com o culto à fama servindo de pano de fundo. Em Dancin' days, a maternidade posta em cheque ao som de discoteca. Em O dono do mundo, o machismo como mal a ser confrontado.

Aprendeu com a mestra Janete Clair o grande ás na manga que todo novelista deve ter à disposição. Ecoando o "quem matou Salomão Hayalla", de O astro, fez história ao repetir a pergunta com Miguel Fragonard em Água Viva e Odete Roytman em Vale Tudo. Trouxe a equipe de roteiristas para as novelas brasileiras; sofria muito com o processo de levar sozinho nas costas a carga de trabalho descomunal que é escrever um folhetim para a TV, com prazos apertados e capítulos cada vez mais longos.

Mocinhas e vilões eram a sua especialidade. Ao fim das gravações de Anos dourados, Malu Mader declarou que gostaria de passar o resto da vida interpretando Lurdinha. Do outro lado do ringue, Rubens de Falco será lembrado para sempre como o Leôncio da Escrava Isaura

Gilberto se considerava individualista; nada militante ou engajado (e era muito cobrado por isso, principalmente pelo ativismo LGBTQ+), mas purgou a alienação política da juventude ao escrever Anos rebeldes. Aproveitou, inclusive, o personagem de Pedro Cardoso, Galeno, para reproduzir reuniões surreais que teve com o departamento de censura da ditadura militar que insistia em tesourar seus scripts.

Admirava Ivani Ribeiro; amava Visconti, Truffaut e Nelson Rodrigues; elegeu Rocco e seus irmãos, O sol por testemunha e Quanto mais quente melhor como os filmes favoritos. Do cinema brasileiro, não escondia a predileção por A falecida, adaptada do teatro rodrigueano para as telas por Leon Hirszman. Vibrava com o sucesso de suas novelas e ficava doente quando a audiência caía. Era intenso como seus personagens e sofisticado como seus diálogos.

Sua última novela, Babilônia, de 2015, foi um marco negativo em sua carreira e um desgosto nos últimos anos de vida. Após o fracasso de audiência da trama, queria dar a volta por cima, mas foi colocado na geladeira global. O colaborador João Ximenes Braga, coautor da novela, vem denunciando a "intervenção mal intencionada" que a emissora operou na produção, fazendo com que a história perdesse completamente o sentido, daí a rejeição do público.

O retorno ao sucesso viria com certeza, mas o destino foi inclemente e o tempo demasiado curto para podermos vibrar mais uma vez com o talento e o trabalho de ourives da narração de Gilberto Braga.

Em entrevista para a coleção de livros Autores - Histórias da teledramaturgia (iniciativa do departamento de memória da Rede Globo, lançada em 2008), o autor comenta a instantaneidade da televisão em contraponto à permanência dos livros e do cinema, fazendo uma comparação: "quando eu era mais jovem, se fosse dar um presente mais importante para alguém, pensaria: 'quero dar algo que fique'... Hoje, eu seria capaz de dar a alguém, com muito carinho, um perfume, uma garrafa de vinho, coisas que não ficam. Acho que vamos aprendendo que nada fica, que isso é uma fantasia."

Ledo engano. O imaginário coletivo do país deve muito a Gilberto Braga. Seguiremos apaixonados por sua obra, que permanecerá viva enquanto houver televisão.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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